NATALIDADE DO SENHOR – ANO “B”

Comentário ao Lecionário Reformado

 

Isaías 9, 2-27 – Uma luz de justiça virá sobre o povo

Salmo 90 – Volta-te, Senhor, e tem compaixão do seu povo

Tito 2,11-14 – A Graça fez-se presente...

Lucas 2,1-14 (15-20) – A glória do Senhor envolveu os pastores em grande Luz!

 

HOJE, QUAL É O SENTIDO DO NATAL?

 

 

Se quisermos escutar as Boas-Notícias dos evangelhos da infância de Jesus, que tipo de alegria extrairemos das comemorações ao redor de nossas comunidades, no interior da sociedade a que pertencemos, em nossa nação e no mundo latino-americano? Poderíamos afirmar sem erro que não é o Natal para a satisfação do consumismo (o marketing já funciona na previsão das vendas: “o Natal deste ano terá um crescimento de 10% em relação ao ano passado...”); do velhinho de barbas brancas e do uniforme vermelho com luvas e gorro protetor para uma neve que não cairá nunca, nas quenturas do nosso verão brasileiro, sem dúvida. Não é pouco, diante da experiência dos pastores de uma fria noite oriental, quando a Natividade do Senhor se apresenta como uma possibilidade extraordinária de transformação das realidades dos homens e das mulheres deste mundo. A resposta dos evangelhos caracteriza “uma luz que avança sobre as trevas, cujo curso fulgurante nada e ninguém pode deter”( Victor Rey, pastor batista do Chile).

 

O Natal de Jesus de Nazaré é um convite para mergulharmos na realidade que se apresentava ao menino que irrompe do ventre de sua mãe numa estrebaria, um sem-terra, sem-teto, sem-nada, à semelhança das crianças que nascem no terceiro mundo, ou dos que estão mais perto, em nosso país, sob a opressão dos sistemas econômicos; bebês que vêem ao mundo devendo milhares de dólares ao FMI, BID, G-8, segundo as estatísticas da economia em vigor. Debaixo de um decreto cuja intenção primeira era a de mobiliar os meios de arrecadação tributária para conhecer os números, identificar os possíveis devedores de impostos, e assim engordar os cofres de um império cruel, desumano, insensível à miséria dos milhões de oprimidos, despoderados, escravizados aos sistemas econômicos, já apoiados pela religião e pela política de seu país, cabe-nos observar a “luz” que se derrama sobre os “impérios sagrados” da economia mundial: Augusto era considerado “divino”, um deus; alguém que quer ter o poder “sagrado”de controlar, submeter, recolher tributos, taxas de rolamento de empréstimos, de todos os habitantes da terra (oikumene); que, no seu entender de governante mundial, lhe devem e têm que pagar.

 

Paulo nos oferece a “dinamite” (dynamis tou theou) da qual não se envergonha; João fala da Luz que brilha (phôs), e nenhuma obscuridade religiosa, ou qualquer outro obscurantismo, pode apagar; Lucas fala do Reino, que avança contra o vento e os mares, ainda nos dias dos apóstolos da igreja iniciante. Maria, mãe de Jesus, declara: “o Todo-poderoso (dynatós) fez maravilhas em mim”; o anjo do Senhor lhe diz: “O poder (dynamis) do Altíssimo te cobrirá com sua sombra”, realizando na mulher o que Lhe é de hábito: a fecundidade da vida. E assim nascerá, do ventre de Maria, o grande rei. O filho de Maria durará para sempre, assim como o seu reinado (basileia tou theou). Por isso serão derrubados todos os potentados de tronos de dominação. Para Deus nada é impossível, por isso derrubará os poderosos (dynastas) (Lc 1,47-52). Não se trata de uma ideologia de igreja de mercado, ou de pentecostalização carismática, que vende emoções baratas, comportamentos extáticos, proporcionando atitudes que funcionam anestesicamente, no enfrentamento da realidade  do mundo presente. Os evangelhos mostram que o nascimento de Jesus representa a possibilidade de superação da violência econômica, social, política, religiosa, que impera em toda parte.

 

Quando nos damos conta de que os apetites consumidores invadem nossos pensamentos; que as palavras relativizam os conteúdos da fé que herdamos; que se enfraquecem, debilitam, a força interior que dá autenticidade ao sentido da salvação da qual participamos e propomos solidariamente, como homens e mulheres novos famintos de justiça e sedentos de liberdade em relação aos sistemas escravizantes, dentro das igrejas, das comunidades, sociedade e nação, já começamos a mudar. O equívoco mercantilista começa aqui, na reprodução falseada desse cenário em ricos ambientes climatizados e de impressionante riqueza decorativa, entre cetins, mármores finos, cerâmica de qualidade e os metais cromados, brilhantes, dos shopping centers. A"tapêinosis" (= situação humilde ou de humilhação; "tapeinói" é a condição dos pobres, indigentes, órfãos; refere-se aos que enfrentam fome e opressão, cf. Atos 8,33; no Salmo 82,3-4 [Septuaginta]: os "tapeinói" são os pobres e humilhados na indigência imposta); a"tapêinosis", no Natal dos glutões empanturrados de peru, chester, frutas nobres, nozes, champanhe e finos vinhos; dos poderosos  supermercadistas, também é evocada, porém no sentido romântico-cristão que muitos pregadores também proclamarão nos cultos deste Natal. E para nós, qual é o sentido do Natal? Onde estará a "grande Luz" que ilumina as exclusões, opressões e humilhações que o menino Jesus, filho de Maria, assumiu solidário com os desprotegidos, despoderados, oprimidos, aflitos, desde a infância, nas comemorações e celebrações deste dia?

 

Isaías 9,1-3; 5-6  O poema do Primeiro Isaías é magnífico: sempre brilhará uma grande luz. É alguma coisa com que se sonha, utopia de encantamentos sobre a liberdade e a superação das opressões.  Os profetas sempre são utópicos,  seu realismo está na visão do que se passa e precisa ser transformado. Vêem o que os outros não querem ver. Isaías profere o oráculo onde sua vocação e missão são explicitadas aos destinatários de sua palavra: “escutem com os ouvidos, mas não entendam; olhem com os olhos, mas não compreendam...” (Is 6,9). Mostra a cegueira dos que não querem ver, embora tenham sido avisados e reajam com leviandade e despreocupação (os assírios virão sobre nós!). O povo teve a oportunidade de escolher entre a vida e a morte,  mas preferiu o caminho da morte (cf. Dt 30,19-20): “comamos e bebamos que amanhã morreremos”. Agora sofrem porque as elites de Israel estão sob a dominação da poderosa Assíria (o Reino do Norte, Israel, caíra sob Teglat-Salazar III em 721a.C; reinava, agora, Senaqueribe, desde 704 a.C.; Judá preparava-se para reagir...e foi uma tragédia!). Isaías é um profeta sensível, de acordo com sua fé Yahweh é um Deus que ama os pobres; que tem carinho por aqueles a quem chama de “meu povo”.  Em nome de Yahweh, Isaías denuncia: “que direito têm vocês de oprimir o meu povo e esmagar os pobres, retirando-lhes a dignidade” (3,15). Exigia justiça, dentro da monarquia davídica, em Judá. As elites se dão à prática da magia, enquanto isso, entregando-se à idolatria do momento.  Os juízes que foram instituídos para defender a causa do fraco, do pobre, da viúva, do órfão, usam esse cargo para oprimir os desamparados.

 

Debaixo da opressão, portanto, há luz para o povo. O símbolo deste poema é a “luz”. A luz traz vida, faz a semente brotar; a luz traz a salvação, por isso a noite que antecede sua chegada é tão formosa. É dentro dela que se ouve o imperativo: “haja luz”! Por outro lado, a luz é o grande sinal de libertação que o profeta propõe ao povo, em nome de Deus. Libertação que se refere à utopia da justiça: esta é a palavra chave de toda a Escritura Sagrada.  Ela esta escrita em todo coração humano. A justiça traz a paz (shalom = toda forma de bem-estar, social, político, econômico, religioso). A luz sempre evoca a ação criadora de Deus: “faça-se luz sobre as trevas”, sobre todas as escuridões, obscurantismos, impedimentos, muros, paredes, que impedem a liberdade. A tirania do opressor, escondida na escuridão dos interesses humanos, é alcançada pela luz que, com seu foco, atinge os poderes opressores.  A luz é um bem messiânico. Esta luz não se faz presente senão na intervenção de Deus: isto é o “nascimento” da justiça de Deus sobre os empobrecidos da terra.

 

Tito 2,11-14 – O texto nos faz relembrar uma liberação experimentada pelo povo de Israel, a liberdade sentida na carne (cf. Dt 14,2). Agora, algo muito mais grandioso está acontecendo. Sem motivo? Claro que não. Ninguém pode ver a Deus, nem ao Salvador Jesus Cristo, vivendo em impiedade e compartilhando da injustiça reinante (adkia). Não se trata do que a moralidade e o senso comum pretendem, alguma coisa ética ou moral. É algo que tem a ver com um projeto absoluto: a salvação de todos os homens e mulheres.  Esta se inicia com a realidade da encarnação. Tudo se escreve com a mão de Deus, a nova história da humanidade começa com a presença entre nós do Deus Salvador.

 

 Lucas 2,1-14 (15-20) – O evangelho da Natalidade do Senhor está colocado em um belo momento. Antes de tudo, a autoridade divina do “César” é questionada.  O dono do maior império econômico do mundo decreta a mobilização dos oprimidos e escravos do mundo de então, debaixo de sua autoridade e poder, para alistarem-se na relação de pagadores compulsórios dos impostos fazendários opressores. Entre os atingidos pela violência do sistema econômico estão os pais de Jesus, que têm de “pôr-se a caminho”.  Lucas sempre usa a expressão: “pôr-se a caminho...”. Os cristãos, inicialmente, eram “os do caminho”. Mas, o que deve realmente chamar nossa atenção é como o “deus” do mundo político-econômico (já que Augusto se considerava divino...) quer realizar o sensoriamento econômico (como nos obrigam, hoje, com o CPF, criado por Delfim Neto quando ministro fazendário da ditadura militar); controlar, submeter, obrigar o contribuinte compulsoriamente, em todo o mundo sob a “pax romana”. Esta definia um mundo altamente hierarquizado em muitas escalas de autoridade, tendo o césar no alto da pirâmide, recebendo sua fração, enquanto, no trajeto, as elites do poder se saciavam  na corrupção consentida.

      

Lucas pretende mostrar que o acontecimento de Belém é um acontecimento de misericórdia e graça (hesed e xáris são a mesma coisa, no Primeiro e Segundo Testamentos), e salvação (soter).  A misericórdia de Deus torna presente o Salvador, o próprio Deus que visita os que não têm liberdade, nem direitos fundamentais, cidadania, em afronta direta ao decreto imperial que acentua a opressão construída sobre a escravidão econômica e a injustiça social. Um grupo de pastores, num segundo momento, sem autoridade; sem credenciais do governo reinante (Quirino), vai se converter em emissários do projeto de salvação da parte de Deus. A intencionalidade kerigmática de Lucas pode ser percebida: Maria, uma jovem mulher pobre, sem poder algum, é escolhida para gerar em seu ventre aquele que seria o Salvador (soter) de seu povo. Mashiah, Christós, Kyrios (Messias, Cristo, Senhor), títulos que identificam uma grandeza superior, acima de todos os poderes deste mundo, irrompendo, no entanto, sem explosões, abalos sísmicos, tempestades, furacões. Ninguém reconheceria um personagem com tais títulos num menino enrolado em faixas, depositado no berço improvisado no cocho. E uma noite comum, de céu limpo e iluminado por estrelas, testemunha a Graça que traz consigo o Deus Salvador.  Nada demais, nenhum fenômeno, apenas o que se vê no cotidiano de todos os povos e nações do mundo. É a ternura de Deus nos cuidados da mãe que reproduz o sentido maternal do Criador: nasceu Jesus!

 

O símbolo deste poema é a “luz”. A luz traz vida; a luz traz a salvação, por isso a noite que antecede sua chegada é tão formosa. É dentro dela que se ouve o imperativo: “haja luz”! Por outro lado, a luz é o grande sinal de libertação que o profeta propõe ao povo, em nome de Deus. Deus se entrega aos que ama enquanto sua Luz se derrama sobre a escuridão da opressão.  Somos iluminados, podemos vislumbrar a dignidade ferida dos pobres, das “viúvas” e “órfãos” deste mundo; por causa do dom da Graça e da Misericórdia de Deus. “No mundo dos pobres a solidariedade, a força da acolhida, a solidariedade entre homens e mulheres, atinge a todas as pessoas feridas, prejudicadas física, emocional e psicologicamente,  por múltiplas experiências de precariedade, carência, solidão, fracasso, frustração, entre outras situações de desesperança,” segundo a teóloga pentecostal  Elizabeth Salazar. A experiência da Graça é uma experiência de descanso em Deus, de repouso: é o Deus Salvador conosco, agindo para tornar humana a vida de todos os homens e mulheres (Paul Lehmann). Por isso, a festa da Natalidade do Senhor deveria invadir o cotidiano da Igreja, dos homens e das mulheres: Deus tem a palavra final de Salvação!

 

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Teólogo filiado à ASETT

 

 

 
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