EPIFANIA DO SENHOR – 2006 - ANO “B”

Comentário ao Lecionário Reformado

Por Derval Dasilio

 

Isaías  60,1-6 -  Que permaneça a Glória do Senhor

Salmo 72– Que todos os povos, todas as gentes, o  sirvam            

Efésios 3,2-6 - Todas as gentes são herdeiras 

Mateus 2,1-12 - Os magos do Oriente acorrem para adorá-lo

 

                Como atualizaremos a Epifania do Senhor nestes dias? A partir do conceito já discutido no Segundo Testamento, que significa, hoje, sustentar o exclusivismo da idéia de “povo eleito”, tomada do judaísmo à força de uma afirmação da revelação inclusiva? Onde os estranhos à tradição de Israel já alcançavam a “salvação” por meio do Deus Salvador? Como situaremos a concepção do Deus invisível, universal, cujos atos redentores deixam de ser vistos somente nos limites da religião que nascia com os discípulos de Jesus Cristo, enquanto a tomava da tradição abraâmica?  Temos compreendido que somente o Deus transcendente (Deus totalmente Outro, na concepção de Karl Barth), autêntico, da fé bíblica, é a força da paz, a mais viva de todas (shalom), sem equívoco algum? Se os cristãos de todos os quadrantes foram declarados, no Segundo Testamento, herdeiros da fé salvadora, chegamos ao ponto crucial da fé dos cristãos: nenhuma comunidade religiosa pode pretender a verdade total, em termos de autoridade receptora da Revelação.

 

                Afirmando o “Deus conosco” deveríamos tornar-nos humildes e não arrogantes, quanto à posse da “única” experiência possível da revelação de Deus. Sem mutilar a soteriologia (soter=salvação) exposta nas Escrituras, testemunhar os atos de salvação na  "epifania" de Jesus, Salvador e Libertador, significará sempre afirmar a fé perene e universal que dá sentido à existência e à unidade do mundo, como revelada nas Escrituras. O principal tema do livro de Colossenses é a importância de Jesus Cristo:"Cristo é tudo. Ele é nosso Senhor. A meta central e esperança do evangelho é que Cristo viva em nós (1:27); "Cristo é tudo em todos” (3:11). A sabedoria das outras tradições espirituais, portanto, tem uma percepção de Deus, em muitas situações, equivalente à dos cristãos, judeus e islâmicos, do mesmo tronco profético. Não sendo assim, por que o Evangelho chama a atenção para os “Magos do Oriente”?

 

                Quando Tagore diz, referindo-se a essa fé que se expressa na linguagem de todas as culturas e povos, em todas as comunidades humanas: “realizar seu parentesco com o Todo e penetrar em tudo pela união com o divino é o objetivo último da humanidade”, ele está evocando a ansiedade de todos os homens, mulheres, seres humanos, de expressarem seu sentimento de relacionamento com o Todo Criador, Deus Uno, que é indivisível, não fragmentável, não encaixado ao gosto religioso de alguma denominação entre muitas. A presença de uma estrela nos sonhos humanos pode ser uma "epifania" de Deus. Quantas são as manifestações concretas da busca de liberdade e redenção na vida dos seres humanos, em todas as partes do mundo... e muitas vezes fora de do meio religioso? A realização da bênção de Deus na história humana, como parte da “História da Salvação”, nos faz imaginar a impossibilidade de aprisionar o Deus Salvador em gaiolas religiosas, mesmo quando as doutrinas alimentadoras do exclusivismo querem prevalecer contra a liberdade de Deus.A "Epifania", na liturgia reformada, como parte dos Evangelhos, mostra que Deus se dá a conhecer a muitas gentes, mais que isso: a todas as gentes.  Não só ao povo judeu; não só aos discípulos do “movimento do Nazareno”.  Os mais distantes, “do Oriente”, vislumbram a estrela mágica que orienta para o caminho onde se encontrará o Salvador.  Os Magos do Oriente renderam-se à revelação de Deus no menino depositado no cocho da estrebaria de Belém.

 

                Mateus 2,1-12 – Cresce constantemente, em todas as partes, a desconfiança diante do estrangeiro, vimos recentemente manifestações na França, na revolta dos discriminados. Pouco antes, também, na Inglaterra, no assassinato do jovem brasileiro pela polícia londrina. É uma situação bem comum em face do que é “diferente”. Cada grupo religioso, cada país, também parece pretender a exclusividade da presença de Deus. Estampam o nome divino nas moedas: “In God we trust...” (o deus do capitalismo internacional, desde 1957 impresso no papel moeda mais importnte do mundo), “nós confiamos em Deus”... Sintoma dos particularismos bem presentes em nosso mundo. Deus aparece como justificador de comportamentos dominadores, autoritários, discriminadores ou excludentes. Aceitaremos estas formas de particularizar a Revelação de Deus?

 

                A presença dos Magos nos mostra como podemos rechaçar a presença nova de Deus, não o reconhecendo nas situações de opressão e cerceamento. A reprodução da atitude de Herodes e dos dirigentes israelitas daquela época frente ao recém-nascido reflete isso.Muitas vezes Emanuel, Deus-conosco, está agindo em outras visões e realidades que não as nossas. Especialmente do ponto de vista religioso. Pode ser que não estejamos entendendo muito bem a presença de uma “estrela” nos sonhos humanos como uma manifestação concreta do Deus Libertador, bênção para toda a humanidade na forma do menino da estrebaria adorado por estrangeiros obscuros do Oriente, cuja descrição, na tradição primitiva da igreja, os mostra como representantes de várias raças e povos. Os Magos do Oriente devem representar nosso reconhecimento da Epifania de um Deus  que se apresenta livre - “o Espírito sopra onde quer” (Jo 3,3), acima de todos os impedimentos, barreiras, muros ou paredes doutrinais particulares.

 

                Deus é invisível, universal, afirmavam os Pais da Igreja Antiga; os atos redentores vistos somente nos limites da religião cristã, que nascia a partir da tradição abraâmica, nos faz compreender  que somente o Deus transcendente, também testemunhado na fé bíblica, é a força da paz, a mais viva de todas (shalom), sem equívocos. Se os cristãos de todos os quadrantes  e de todas as expressões confessionais se declaram herdeiros da fé salvadora, não estão longe do que os reformadores Lutero, Calvino, Bucer, Melanchton, e outros, disseram sobre os fatos que reproduzem a Revelação de Deus em Jesus Cristo.  Henri Strohl (O Pensamento da Reforma, ASTE, 2004) deixa-nos suas considerações: “Espíritos diferentes, de diferente formação (ou tradição), partindo de caminhos variados, puderam encontrar-se no ápice de sua jornada e desfrutar juntos o gozo da descoberta da ‘mesma verdade libertadora’”.  A Reforma também nos ensina como os diferentes, na diversidade, com a sabedoria das muitas tradições religiosas, têm compreendido a revelação de Jesus Cristo. Somente o Deus transcendente, autêntico, que judeus, cristãos, islâmicos,  reconhecem a partir da fé bíblica, é a força da paz, a mais viva de todas (shalom), sem equívoco algum, que alcança a Criação e o mundo inteiro: “Cristo é tudo. Ele é nosso Senhor. A meta central e esperança do evangelho é que Cristo viva em nós (Cl 1:27)”; "Cristo é tudo em todos” (Cl 3:11). Esta é a doutrina dos Apóstolos contra os particularismo e exclusivismo.

 

                Isaías 60,1-6 – Este poema é cantado com desenvoltura, explode em harmonia, força e beleza, em esplêndidas imagens, enquanto o entusiasmo nacional se manifesta em alegria (cf.O Coro dos Nabucos, Wagner). Festeja-se uma “Luz” sobre Jerusalém, destinada à peregrinação dos povos. A cidade se transforma num símbolo de longo alcance, a função da luz, a referência do Monte de Sião,  o sol sem ocaso, a aurora de um brilho permanente. Ocorre no meio de uma reconstrução nacional em torno da religião: É noite... há uma escuridão universal; a sentinela anuncia a aurora (“Tal qual o guarda espera pela alvorada, assim minh’alma anseia por ti, ó Deus” – Sl 129). O dia vai clareando, não no Oriente, mas sobre  toda a cidade; todos se voltam para  contemplar a luz; esta, na prática, convoca a todos para ser vista. Agora, põem-se em movimento os filhos dispersos, e os povos estrangeiros se oferecem para transportá-los; um deslizar de navios, camelos enchendo o espaço das ruas... enquanto  o dia vai clareando. Começa o trabalho da reconstrução, e com isto, a acumulação de tesouros: símbolos da justiça e da paz triunfantes. Passa o dia... e não vem a noite! O dia sem fim de luz, de vida  e  de fecundidade, não termina. Um dia mais glorioso que aquele após a travessia do Mar Vermelho; que o êxodo do Egito; que a libertação da Babilônia.  As portas da cidade não precisam mais ser fechadas ao anoitecer, não há mais o perigo da agressão... o trabalho diuturnamente continua, sem cansaço ou desânimo. É um tempo de “transfiguração”, a luz orientadora permanece sobre todos.

 

Derval Dasilio
Pastor da Igreja Presbiteriana Unida
Prof. da Faculdade de Teologia “Richard Shaull”
Teólogo filiado à ASETT

                                                        

 
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