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DOMINGO DA TRINDADE - ANO "B"
Isaías
6,1-11 – Experiência transcendental de
Deus...
Salmo 29 – A voz que faz
tremer os desertos!
Romanos 8,12-17 – O
Espírito permite que o
chamemos de Paizinho
João 3,1-17 – A natureza do Espírito é a
liberdade
Assunto
dificílimo, a Trindade Sagrada, na maioria das vezes evitado, como é
também a pentecostalidade da igreja inicial (At 2). Um pastor
fundamentalista referia-se à festa do Pentecostes no calendário cristão,
no “Jornal A Tribuna”, último domingo, dizendo que a data da conversão
pessoal e individual é que conta, negando o fato histórico salvífico. Não
lhe inspirou a relevância da entrega do Espírito Santo para que os
cristãos parem de falar desconexamente sobre a relevância da fé; para que
se possa compreender a necessária unidade na ecúmene da Igreja de Cristo,
na linguagem, para que o mundo creia na causa de Deus (Jo 17,21:
“...que sejam um, como eu e tu somos um, para que o mundo creia”).
Nega toda a história da Salvação, o mesmo pastor, afirmando uma
soteriologia intimista existencial que parece ignorar até mesmo o
testemunho bíblico sobre as grandes afirmações de fé na história das
doutrinas cristãs, como o monoteísmo trinitário. Pergunto-me se neste
tempo hipertenso, nervoso, descontrolado, maníaco por velocidade até na
leitura sem reflexão, se alguém vai deter-se num tema como este. É um
tempo de fúria e velocidade no trânsito, nas compras, nos relacionamentos,
no trabalho, nas férias e no lazer. Quem vai querer saber sobre o diálogo
sofrido dos Pais da Igreja, na Igreja perseguida, para combater as
idéias sincretistas em constelações paganizadas, parando um pouquinho só
para pensar sobre o ser e o agir de
Deus?
João 3,1-17 – Nicodemos se destaca dos demais,
no grupo dos fariseus legalistas, mas não deixa de ser reformista,
dependente de “sinais”, racionalista ou fundamentalista que é. Pior ainda, procura as sombras da
noite para que não o vejam aproximar-se de Jesus. Respeita Jesus, mas em igualdade
de condições, reconhece-o como um “mestre”; observa outra coisa importante:
Jesus é mandado por Deus.
Levando em conta a autoridade de Jesus, pergunta-lhe: “que tenho a
fazer, se quiser entrar no Reino”? Vem a resposta, exigindo uma mudança
radical: não por uma renovação, mas por uma inovação. É preciso “nascer de novo”.
Nascer é começar, o nascimento define a
natureza de todos os seres,
tudo que existe “nasce”.
As crenças fisiológicas desse tempo imaginavam o homem já presente
no sêmem, para ser elaborado no útero, também chamado de seio materno (cf.
paralelismo da água e do Espírito que a fecunda; a Bíblia Hebraica e a
tradição pós-apostólica também contemplam a mulher como poço, manancial de
águas – Pr 5,15;18; Clemente 4,12 e 15). A água corresponde ao elemento
feminino, o Espírito é sêmem, elemento masculino. O paralelismo pertence às mais
antigas tradições, como no tempo exílico (Is 44,3). A função do
Espírito como princípio é primordial. Quem nasce de ruah, sopro,
vento, move-se livremente em espaços novos e transcendentes, do ponto de vista
humano. O vocábulo terá o
mesmo sentido, no Segundo Testamento: pnêuma. Ora, a natureza do Espírito é
a liberdade, “o Espírito sopra onde quer... ninguém sabe para onde
vai...” Aqui se definirá o
papel do Espírito Santo, especialmente quando a Epístola a Tito explicita:
“...nos salvou com o banho do novo nascimento e a renovação pelo
Espírito Santo” (Tt 3,5). A relação com o Batismo é
clara.
Tertuliano, apologista do terceiro
século, época das grandes afirmações confessionais construídas pelos Pais
da Igreja Antiga, ainda sob conflito com a cultura e impondo-se à política
imperial romana, passa para a história doutrinal do cristianismo latino
introduzindo a palavra trinitas no vocabulário dos primeiros
credos. A Trindade tem significados históricos na História da Salvação.
Num resumo muitíssimo concentrado, “a essência divina, o modo de ser
trinitário de Deus, compreende-se através de três pessoas, ou personagens
que identificam o agir de Deus”.
É preciso estar muito atento aqui, dirá Paul Tillich. O termo persona não tem
equivalência com o que costumamos dizer sobre a palavra pessoa, na língua
portuguesa ou qualquer outra.
O que é uma pessoa, então, quando nos acostumamos aos significados
culturais da palavra?
Responderemos dizendo
que a pessoa é pessoa porque pensa, usa a razão, decide, age, em
função do reconhecimento próprio. Esse conceito não se aplica a Deus, em
sintonia com Tertuliano e sua construção
trinitária.
Diríamos
também que sabemos que somos pessoas porque temos consciência da dignidade
de cada um. Diferentemente, Prosopon e persona, no grego e
em latim, referem-se à
mascara que os atores (na dramaturgia de Sófocles,por exemplo?) usariam
para representar personagens diferentes. Um só ator representava dois,
três, ou mais papéis numa única encenação. Daí se aproveitaria o termo
aplicado ao monoteísmo implícito reconhecido pelos Pais da Igreja. Os
rostos de Deus são configurados no Pai, no Filho e no Espírito Santo.
Monoteísmo trinitário, portanto. Deus apresenta-se significativamente na
ação formadora do kosmos
como o Pai Criador; o Filho revelado como um homem que participa da
história humana; o Espírito é dado pelo Pai que organiza o universo a
partir do caos; é dado pelo Filho que se revela como Palavra
encarnada. A História conhece a Trindade, e a mesma Trindade se manifesta
na história cósmica como salvação, desde o caos necessitado de
organização. O kosmos, o mundo criado e a humanidade,
experimentam periodicamente a salvação, quando o caos ameaça com a
destruição. Mircea Eliade aponta essa questão magistralmente, estudando as
idéias religiosas desde os tempos imemoriais. A arqueologia do sagrado
oferece-nos muitos símbolos.
Com mais brevidade, ainda, poderíamos
considerar o que Jürgen Moltmann disse sobre o assunto: “A doutrina da
Trindade é a doutrina teológica da liberdade; Deus deseja constantemente a
liberdade de sua criação” (Trindade e Reino de Deus, Vozes).
Mais: “o reino do pai Deus é criador e senhor de todas as
criaturas”. Homens e
mulheres são suas criaturas, suas propriedades. Reconhecidos
assim, são chamados para
servi-lo. Quando alguém é servo do Altíssimo, não obedece mais a nenhum
outro senhor, nem teme qualquer outra coisa no mundo. Os senhores do Mal são seus
inimigos, porque aqueles que os servem têm ou participam de um projeto de
morte e de escravidão. No Reino de Deus há um projeto único, de vida e de
liberdade.
No Reino
do Filho, a liberdade para servir a Deus é preservada externamente, mas
passa por uma mudança qualitativa.
Na comunhão com o Filho, homens e mulheres ingressam numa nova
relação com Deus. A liberdade
só é possível porque o Filho a proporciona, enquanto oferece livre acesso
ao Pai. Essa relação íntima,
recíproca, com o Pai e o Filho, torna homens e mulheres co-proprietários
dos bens do Pai. Por fim, essa liberdade é alcançada quando o Filho os
declara “filhos de Deus”, reconhecendo-os, agora, como unidos pela
fraternidade solidária. No reino do Espírito essa liberdade, essa
fraternidade e essa solidariedade, é buscada com afinco e conservada a
todo custo. Os servos de
Jesus Cristo, o Filho, filhos do Pai, passam a ser amigos de Deus
(“Já não vos chamo servos... chamei-vos amigos, porque vos ensinei tudo
que sei sobre o meu Pai”(Jo 15,15).
O Filho
confidencia sua intimidade com o projeto divino, é o seu
profundo envolvimento com a causa do Reino, confidenciado aos seus amigos.
Em virtude da presença do Espírito Santo, homens e mulheres conhecem o
sentido da liberdade e sabem contraporem-se à escravidão dos sistemas
humanos, sistemas de pensar expressos na Política, na Economia e na
Religião, por exemplo. Jesus relacionou-se com seus discípulos como
irmãos, nesta relação trinitária coloca-se também como amigo dos homens e
das mulheres, mais que irmão dos mesmos (adelphós). Contudo,
se não compreendemos isso, o Espírito “assiste nossa fraqueza... o
mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira através de gemidos
inexprimíveis ” (cf.Rm 8,26).
Que nos falta, então?
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Derval
Dasilio
Pastor da Igreja Presbiteriana
Unida
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