DOMINGO DA TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

ANO “B” – Comentário ao Lecionário Reformado

Marcos 9, 2-9 - A vida superará a morte

 

 

O Domingo da Transfiguração, data litúrgica que precede a Quaresma, nos leva a refletir que nossas vitórias particulares, nossas experiências que têm sabor de eternidade, são de fato lampejos da vida em plenitude que Deus quer dar a todos. Contudo, não devemos nos acomodar em nossas glórias particulares e ainda precárias, porque enquanto existirem a exploração, a marginalização e a escravidão, o Reino de Deus ainda não se instaurou definitivamente. E os discípulos de Jesus são convidados a voltar seus olhos para essa realidade e continuar sua prática libertadora. O relato da transfiguração procura mostrar que o homem Jesus tinha forças incomuns a seu lado, o sobrenatural estava do seu lado. O mais importante é que Jesus revela-se “transfigurado”, com sua natureza divina exposta aos olhos de discípulos especiais. 

 

Essa natureza manifesta-se nas suas vestes brancas e brilhantes, e de estar envolto por uma nuvem (kabod é a nuvem que acompanha Israel no deserto, durante o êxodo).  A voz do céu, dirigindo-se aos discípulos, proclama: “este é meu filho amado, ouçam o que ele diz”. O outro ponto a ser observado é que Jesus deixa entrever sua verdadeira natureza enquanto é verdadeiramente homem. E a conclusão que se tira dessa perícope é a seguinte: todos esses fatos são muito estranhos ao judaísmo. A familiarização com o helenismo pagão transparece na concepção que fala de uma dotação natural e ontológica de poder, em correspondência direta com uma epifania (W.G.Kümell, Síntese do Novo Testamento, Teológica/Paulus, 2003).

 

Vimos que o caminho de Jesus não é triunfalista, pois ele terá de enfrentar as forças que não aceitam o projeto do Pai. É ele veio anunciar: é a liberdade e a vida para todos. Contudo, a ação de Deus na história não caminha para o fracasso, e sim para a vitória. Jesus vencerá o mal em todos os seus redutos, dirá Marcos. E este momento é revelado a Pedro, Tiago e João. É o sinal dessa vitória de Deus sobre todos os projetos de morte: a transfiguração. Ela acontece “sobre uma alta montanha” (9,2), recordando o monte Sinai, lugar das grandes revelações de Deus no Antigo Testamento.  Marcos diz que as roupas de Jesus “ficaram brilhantes e tão brancas, como nenhuma lavadeira do mundo as poderia alvejar” (9,8). Essas vestes simbolizam a vida em plenitude (cf. Apocalipse: as testemunhas que praticam a justiça são “estes de branco vestidos”...).

 

Um fato curioso, é o tratamento que se deu a Jesus no século XIX, e até Bultmann o usou impropriamente em seu livro “Jesus”: “Rabi de Nazaré” (J.Jeremias, Teologia do Novo Testamento, Teológica/Paulus,2004). Quem desejasse ser um rabi deveria conviver anos a fio com algum erudito na qualidade de discípulo (talmid), e só depois disso seria declarado um talmid hakam (apto para a ordenação). Sua distância dos escribas, ao contrário, provocava questionamentos: “...com que autoridade falas tal coisa”?  Rabi, já no tempo de Jesus, I século d.C., era apenas um tratamento respeitoso: “rabi”, “meu senhor”, como se encontra em Mt 23,8, não correspondia ao tratamento reservado aos teólogos, intérpretes das Escrituras. Pregando nas sinagogas, não temos uma prova cabal de que Jesus era um rabino de carreira. Joaquim Jeremias dirá que ele poderá ser encarado, no máximo, como um pregador carismático. E a unanimidade dirá que que ele foi um profeta.

 

O encontro com Elias e Moisés no Monte da Transfiguração associam-no diretamente com a grande tradição dominante no Primeiro Testamento. “Apareceram-lhes Elias e Moisés, estes conversavam com Jesus” (9,4). Essas duas personagens proféticas são importantes, porque representam o profetismo e a Lei, no Antigo Testamento. A conversa de Jesus com eles, embora não seja dito o que conversavam, indica que não há uma ruptura entre o projeto de Jesus, servir à causa do Reino de Deus, e o projeto de Javé revelado no Antigo Testamento.

Jesus havia dito aos discípulos que iria sofrer muito, e seria rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e os doutores, especialistas da Lei, e que deveria ser morto (8,31). Agora, é mostrado que Deus Pai irá transformar a morte em vida plena. O poder de Deus é maior do que o poder daqueles que mataram Jesus, pois o nosso Deus é o Deus da vida e não da morte. Estes representam os sistemas que controlam a economia, a política e a religião do povo. “Apareceram-lhes Elias e Moisés, estes conversavam com Jesus” (9,4).

 

Ao mesmo tempo, porém, mostra que Jesus inicia uma nova etapa, a última, em que o Reino de Deus irrompe de vez na história e caminha para sua realização definitiva (cf. Mc 1,15). Ainda em uma atitude triunfalista, (9,5-6), reação de Pedro, diante da visão, desconhece que se trata de um sinal da vitória: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (9,5).

Pedro já quer se instalar numa situação definitiva e gloriosa (fazer três tendas). Esqueceu-se completamente da repreensão que Jesus lhe fizera, quando não queria aceitar que o Messias deveria sofrer e morrer (8,33). A cena lembra de perto o batismo de Jesus e o que lá aconteceu(Mc 1,9-11). Jesus é chamado de “Filho amado” e, portanto, confirma de novo que ele é a presença de Deus no meio dos homens (Euclides Martins Balancin, Evangelho de Marcos, Paulus, 1991). No entanto, agora, os discípulos são convidados a ouvir o que Jesus, o Filho de Deus, diz. É tudo o que Pedro havia esquecido ao querer se instalar numa situação de triunfalismo, imaginando que uma vitória surge de maneira mágica, milagrosa, sem necessidade do seguimento de Jesus na história, testemunho na vida concreta, aqui e agora. Existencialmente. “Não podemos dizer, por exemplo, porque Deus governa a realidade ele é também meu Senhor; mas somente quando somos interpelados por Deus em nossa existência faz sentido falar de Deus como o Senhor da realidade” (Rudolf Bultmann). Isso nos levaria a refletir que vitórias particulares, vitórias políticas, expansão religiosa, se incluem nas realidades envolvidas pela impiedade de um mundo pecador e sem compaixão. O triunfalismo evangelical que se observa nos dias de hoje, capaz de celebrar publicamente uma comunhão inexistente, como uma Santa Ceia na rua, durante o Carnaval, refletiria essa falsa vitória sobre os poderes deste mundo.

 

Nossas experiências têm o sabor delicioso da eternidade. De fato, são lampejos da vida em plenitude que Deus quer para todos todos os homens e mulheres deste mundo, se ouvimos as palavras que vêm do Céu: “este é meu filho amado, ouçam o que ele diz”. E o Filho dirá: “buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça”.  O Transfigurado, parceiro profético de Moisés e Elias, líderes do êxodo e da denúncia profética, Senhor da história,  está adiante de nós, realizando a missão de Deus.

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 www.paoquente.org  

 
 
 

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