DOMINGO DE RAMOS/PAIXÃO – QUARESMA – ANO
“B”
João 12,12-16 – "Bendito o que vem em nome do
Senhor!".
Salmo 118,1-2; 19-29 – "Entrarei pelas portas da justiça, esta
é a porta do Senhor.".
Que
significados têm o discurso da Paz, segundo o evangelho de Jesus, frente à multidão de
homens e mulheres que vêm ao encontro de um rei sem poder político? Lemos
os jornais, falam de conflitos no Oriente Médio, guerra ao terrorismo,
Iraque, Irã, Israel, EUA, Inglaterra, França, enfim, mais de cinqüenta
pontos conflituosos no mundo inteiro. As imagens que os meios de
comunicação oferecem mostram os campos de batalha sangrentos exigindo
atenção e os parlamentos internacionais debatendo o mesmo ponto: paz. Que
paz? Como falar de paz num tempo caracterizado pela violência em múltiplas
impressões? O terceiro milênio foi inaugurado com eventos belicosos jamais
imaginados. Atos terroristas, invasão do Afeganistão transferida para o
Iraque, lutas tribais na África, genocídio no Timor Leste, tudo sob a
influência de clamores de guerra animados por pluridos patrióticos
fanáticos. Esses fatos são como um soco no estômago, um verdadeiro show de mortes, mutilações,
lágrimas.
Atos de
crueldade que costuram a história sangrenta vivida por muitos povos
agregam destruição sistemática de bens culturais, o coração e a alma dos povos e das
etnias. O que significa a Paz, no âmbito do reinado de Deus? No campo
doméstico não é menor o impacto da violência das armas, perturbando-nos
permanentemente. Todos os dias observamos as notícias mais recentes sobre
o crime organizado, combate ao tráfico de drogas, inocentes assassinados
no meio das ruas, ontem, hoje... são 15 mil mortes violentas por ano, só
no Brasil. O amanhã é pré-definido, só teremos que confirmar o estado de
guerra permanente nos grandes centros urbanos vendo o noticiário. Enquanto
se espera por dignidade da pessoa humana, nos setores mais corriqueiros da
vida, necessita-se de pão
para quem tem fome; morada para quem não têm teto; educação para quem não
têm escola; saúde para quem
não têm hospitais; trabalho para os alijados da sociedade moderna.
Os
cristãos estarão, neste domingo de Ramos, caminhando ao lado de Jesus? As
implicações dessa caminhada envolvem o compromisso de levar a sério nossa
adesão à causa de Jesus Cristo. Acompanhar Jesus em sua última jornada no
caminho da cruz, enquanto Ele entra na cidade de Jerusalém aclamado como o
rei que traz o shalom de
Deus, implica em levar a sério as realidades que corroem o mundo e clamam
pela paz. Ninguém mais duvida de que as causas geradoras dos grandes e dos
menores conflitos sociais, nacionais e internacionais, são encontradas nas
desigualdades econômicas, na falta de oportunidade, nas políticas
internacionais e domésticas envolvidas com questões que passam pela fome
de 2 bilhões de habitantes do planeta; questões que identificam os abismos
das desigualdades nos 4,5 bilhões à margem do mundo moderno, também
chamado pós-industrial.
Pode ser
que a solidariedade com o mártir do Reino, como ocorreu com seus
seguidores, imediatamente ao seu martírio, nos obrigue a abandonar
postulados religiosos acomodatícios, fatalistas, quietistas; talvez nos
force a romper com ideologias e dogmas políticos, para cantarmos com
sinceridade o cântico das multidões: Hosanas! Bendito aquele que vem em
nome do Senhor.
João 12,12-16 – Esta perícope é antecedida por outras
informações importantes, levando-se em conta que o capítulo é heterogêneo:
a ressurreição física de Lázaro é relatada, uma excelente lembrança de que
há várias ressurreições possíveis; Lázaro ressuscitou para viver o resto
de sua vida biológica, e certamente morreria como todos os viventes que
declinam seus dias. Pontua-se, diante de uma mulher, Marta, que a
compaixão e a amizade são valores que acompanham uma “ressurreição”: “Jesus lhe diz: eu sou a ressurreição
e a vida, quem crê em mim, ‘ainda que morra’, viverá; e, quem vive e crê
em mim, ‘viverá para sempre’. Crês nisso?”. Essa ressurreição,
portanto, é anunciada antecipadamente. Difere da ressurreição do Senhor,
no domingo da Páscoa. Lázaro tinha se transformado numa atração, em razão
disso, perigo à vista para Jesus. A tradição sobre o destino inevitável, o
fatalismo, a rendição ao domínio da morte, é ferida em sua
essência.
João é
mais sóbrio que os sinóticos na
narrativa que gera a Festa de Ramos na igreja cristã. Os entornos
são mais importantes: trata-se de afirmar o poder de Jesus sobre a morte,
em todas as suas manifestações. Porém, a recepção não passará
em branco.
Um peregrino famoso poderia ter igual tratamento, mas a
entrada de Jesus faz a diferença: Jesus é recebido como um rei messiânico.
O que se espera dele é a salvação para os males de uma sociedade inteira,
alcança os problemas sociais enquanto atinge definições políticas sobre a
vida nacional sem deixar de lado o problema da religião quietista,
conformada e subserviente ao sistema sócio-econômico, atuando como
pára-choque cultural da potência imperial dominadora.
Mas João
também dá um caráter transcendente ao “messianismo” de Jesus. Não é
imposto pelo poder das armas, nem é acompanhado de decisões
político-partidárias [Nota: Vários “partidos” são interessados no comando
ou na influência sobre a sociedade judaica, nesse tempo: saduceus – proprietários e
latifundiários que dominavam o sistema econômico; fariseus – homens comuns da
sociedade, mais interessados na religião, nos regulamentos controladores
da vida espiritual da sociedade; escribas e doutores da Lei –
autoridades na interpretação da Torá, do Talmude e de vários outros
reguladores religiosos da sociedade através da teologia e da pedagogia do
legalismo; essênios –
membros de comunidades religiosas dissidentes do judaísmo oficial centrado
no Templo, retirados voluntariamente do convívio da grande sociedade,
considerados herdeiros do movimento da shekinah, com ênfase na
religiosidade “pentecostal” de então; zelotas e sicários –
partidários da revolução violenta contra o domínio romano, os quais
levaram o povo ao levante que resultou na destruição do templo e na extinção da Judéia e Cesaréia
como província e colônia romanas (70 d.C.), e na expulsão da região; mulheres: zero à esquerda,
nenhum papel político ou religioso na
sociedade].
Jesus faz
um discurso decisivo em torno de sua proposta, o Reino. A palavra shalom é o eixo desse
pronunciamento. Quais são os sentidos da Paz, segundo Jesus? Trata-se de
uma nova visão da vida. Um mundo novo estará amanhecendo. Gandhi,
Bonhoeffer, Niemöler, Paul Shneidder, Nelson Mandela, Luther King Jr.,
monsenhor Romero, Chico Mendes, Irmã Dorothy, mártires da Paz e da Fé,
entenderam esse sentido: perdão e reconciliação entre povos e nações;
libertação do poder de todos os pecados, inclusive dos pecados estruturais
do nosso tempo; reconciliação dos que não têm a mesma tradição religiosa;
nova vida no serviço da justiça de Deus; direito de herdar e gozar
bem-estar num mundo transformado pela misericórdia; participação de um
novo mundo sob o empenho
apaixonado da causa de Deus.
Derval
Dasilio
Pastor da
Igreja Presbiteriana Unida