De todas as crises (krysis), a morte é a mais decisiva da vida
humana. Isso implica também em decisão, por que até aqui ainda se pode
adiar, protelar, manter em luz-e-sombra o que fazer da vida. Agora não há
meio-termo. Não é mais possível flutuar na ambigüidade, é inevitável o
desmoronamento do homem exterior (L.Boff). Mergulhadas no mais recôndito
lugar, no interior de nossa humanidade, evocando o que não é consciente,
individual e coletivamente, à luz de atavismos e heranças ancestrais que
agora se apresentam irrevogavelmente, as verdadeiras dimensões do que
somos são expostas à clareza do sol do meio-dia. Caem todas as máscaras
que encobrem nossa autenticidade, a realidade sai da nebulosidade: nós
somos o que somos, sem mais recursos; sem maquiagens que possam esconder
nosso verdadeiro rosto. Somos mortais. Homens e mulheres mortais num mundo
onde a morte quer reinar.
Não
sabendo acolher a vida biológica como dom divino, um dado natural na
existência dos seres comuns, cuja mortalidade constitui-se na
multiplicação da vida (...se o grão não morre, não produz frutos! –
Jo 12,30-33 ), na incerteza traiçoeira que produz angústia e terror
pela vida mortal, a compreensão judaico-cristã tornou a morte um castigo
como conseqüência do pecado. E não erra no sentido. A destruição da vida
identifica a ênfase de nosso tempo em diluir as referências da verdadeira
estabilidade social, afirmativa de vida plena para todos. Reivindicando vida somente para alguns, na
experiência do absurdo e do vazio, os pecados estruturais se destacam,
confirmando a definição profética e escriturística para o pecado da
humanidade. Como falar de ressurreição, ou de vida para além da morte, em
todos os sentidos? Certamente, destacando a ressurreição do Senhor Jesus
Cristo, inaugurador da nova humanidade e sua vitória sobre a morte.
Aqui falaremos também da intervenção de Deus na história dos sofredores,
vítimas dos pecados, seus e da sociedade opressora, dos crentes e da
religião que se solidarizam na alienação; na eqüidistância das massas
sofredoras, especialmente
neste mundo histórico e geograficamente situado abaixo da Linha do
Equador: povos humilhados, vítimas de pecados estruturais e de tantas
violências da parte de outros; etnias exterminadas, culturas apagadas por
processos de aculturação (Paulo Freire); doentes, moribundos, acometidos
de enfermidades que retornam continuamente, enquanto dizimam populações.
Gente sem futuro, derrotada pela realidade que esmaga e destrói a
esperança, detonando os sonhos de bilhões de seres humanos oprimidos.
Forças que instilam a impotência, o
fatalismo, o destino inevitável, a submissão dos escravizados pelo
mal, como se este fora um
decreto divino irrevogável e irreversível. A ressurreição marca a presença
da vida que se sobrepõe à morte e ao sofrimento; ao derrotismo, ao
quietismo, ao conformismo e ao fatalismo, como exigências divinas. Karl
Barth disse que a ressurreição de Cristo dentre os mortos, enquanto um
processo de destruição da morte, também afirma a vida eterna (cf. João:
vida eterna é a mesmo “vida plena”). A ressurreição é um fato que
transforma tudo em vida nova
abundante.
A
ressurreição é também uma forma de crítica radical a um mundo de ausências
que precisa ser transformado, de todas as maneiras. Ausências de
reconciliação, de compaixão, de solidariedade, de fraternidade verdadeira.
No Ressuscitado, Deus cria um novo mundo: “eis que faço novas todas as
coisas” (Ap 21,5). A fé na ressurreição, por si mesma, é uma
“ressurreição” do homem na força da vida (J.Moltmann). Os horizontes
humanos se ampliam, a esperança de uma nova criação se instala com a fé na
ressurreição. Deus se revela sobre a impotência, no esvaziamento de
quaisquer forças sobrenaturais (kénosis), na cruz e no sofrimento
solidário, especialmente. Deus assume a condição humana exemplarmente, por
inteiro, no sofrimento até a morte. Mas ressuscitou. Em Cristo, homens e
mulheres experimentam também a ressurreição.
Aquele
que é “totalmente outro”, Karl Barth disse também, esvazia-se de poder
para ser “um como os outros”, os homens e as mulheres debaixo de
sofrimento neste mundo. A
própria fé na ressurreição já é uma força que levanta e liberta de possíveis “ressuscitações
hospitalares” no tempo provisório de todos nós. A libertação dos homens e
das mulheres debaixo das opressões; libertação do sofrimento imposto pela
injustiça; libertação dos humilhados nas desigualdades e na distribuição
de privilégios, é exemplar na ressurreição do Senhor Jesus Cristo, que
comemoraremos neste Domingo da Páscoa.
Isaías
25,6-9
– Um hino do Proto-Isaías (abrangendo o período de
740-701
a.C., no reino de Judá), a cidade rebelde se opõe à
cidade santa, recusa o orgulho ufanista, a idéia de povo detentor da
justiça; a concepção de uma “sociedade inocente”, sem responsabilidades quanto à
injustiça que se estrutura culturalmente nos meios econômicos; injustiça
que se sustenta na
política e na religião centradas em si mesmas. O cântico profético chama a
atenção, aguça a memória dos explorados e massacrados pelas elites
impiedosas, que se apropriam dos bens culturais da sociedade e da
nação. Aplicado à nossa
realidade, analisamos os interesses do povo faminto e injustiçado em
conflito com os das elites dominantes. Os textos de Isaías nos mostram a
sensibilidade do profeta, homem decidido, obediente a Yahweh,
oferecendo-se à vocação que lhe queimava o peito e a língua. Entregando-se
ao chamado de Deus, enfrentou governantes e dirigentes políticos de
Israel, sem deixar-se abater pelas pressões e calúnias de sempre. O poder
é sempre arrogante. Corrompe. Mas é interessante que Isaías tenha sido um
raro profeta entre “profetas assalariados” comuns em Israel, que começavam
a pendurar-se nos governos de então. Sem se vender à vontade política dos
altos escalões, como aqueles, como conselheiro do rei, também não adotava radicalismos contra a
ordem existente. No entanto, seu clamor é contra as injustiças e a
corrupção dos poderosos. É patente sua dureza com os grupos dominantes,
anciãos (presbiterói na Bíblia Grega - Septuaginta), juizes,
grandes proprietários, políticos... e as mulheres da high society
de Jerusalém. Em tudo que fazia, assessorando o rei ou proferindo os
oráculos, discursos religiosos, ele defendeu com extremo vigor e
independência os órfãos e as viúvas (símbolo dos desprotegidos da
sociedade); os exprimidos até o bagaço sob todas as opressões: religiosas,
políticas, econômicas; o povo explorado por suas lideranças (Shigeyuki
Nakanose, Como ler o Primeiro
Isaías, Paulus).
Atos
10,34-43
– O contexto exige um retorno à perícope anterior, no mesmo capítulo:
trata-se de um encontro coletivo na casa de Cornélio, estrangeiro que
saúda Pedro como homem de Deus. No pátio da casa se rasga a cortina,
demole-se o muro entre gentílicos, pagãos e judeus: os olhos de Pedro se
abrem, já não se pode chamar ninguém de impuro ou profano; os impedimentos
do preconceito são derrubados, o local tem a presença de ’Adonay,
que Cornélio chama de Senhor. Inicia-se uma introdução na qual se encaixam
as lições primárias sobre Deus e suas preferências: ’Adonay não faz
distinções de povos e raças, qualquer homem “religioso e honrado” poderia
confessar publicamente sua fé no Deus verdadeiro (Theós). E Deus enviou sua palavra aos
israelitas por meio dos profetas, de Jesus, o Messias de Deus, Senhor. Sua
mensagem traz paz, universalmente (shalom, salaham, eirene, pax). E
exige:“Não considere profano ou impuro a nenhum homem” (27b).
A passagem sobre a ressurreição, porém, é ainda mais complicada.
Uma idéia extremamente difícil para os romanos, embora simpáticos ao
judaísmo religioso. Uma racionalidade fundamentalista faz exigências de
provas, e testemunhas. De fato, o texto demonstra que uma nova vida deve
ser prova suficiente, e as testemunhas da ressurreição teriam sido
escolhidas por Deus para confirmarem a verdade da afirmação da
ressurreição do Senhor. Em continuidade, assegura-se que Deus não precisa
de sacrifícios nem de templos, não precisa de obras humanas para se
achegar aos homens, rejeita todos os ídolos e preceitos de moralidade
superior, como queriam os judeus. E escuta a oração de todas as pessoas,
inclusive as que não podem entrar no templo, como Cornélio. Deus já rompeu
as barreiras (José Comblin, Atos dos Apóstolos, V.I, Vozes). Cabe à
igreja, agora, interpretar a iniciativa de Deus.
João
20,1-18
– Não há qualquer dúvida, a centralidade do texto é a ressurreição do
Senhor. O modo e o momento não são importantes,
talvez. Escapam à descrição. Por que? Certamente porque um ato de fé
transcende à compreensão humana, a sensibilidade ao acontecimento e seus
significados deve ser tudo
que importa, na narrativa joanina: o Ressuscitado se apresenta
corporalmente, de modo gradual. Há sinais no sepulcro, agora vazio:
lençóis abandonados, o sudário deixado de lado. Há pessoas portadoras de
mensagens, enquanto a descrição da cena vai crescendo, impactando;
enquanto se chama mais atenção para o acontecimento extraordinário. O ritmo aponta o progresso da
fé na ressurreição: Jesus foi
identificado, sua voz é reconhecida enquanto sua figura é seguramente
visível; em seu corpo estão as marcas da paixão; os sofrimentos que o
levaram à morte são visíveis em seu corpo. Jesus verdadeiramente
ressuscitou, é a afirmação inquestionável do evangelista.
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Derval
Dasilio
Pastor
da Igreja Presbiteriana Unida