DOMINGO APÓS O NATAL – ANO “B”

Comentário ao Lecionário Reformado

Por Derval Dasilio

 

Isaías  61,10-62;3Boa notícia para os que sofrem.             

Salmo 148  A magestade do Senhor está acima dos céus e da terra.

Gal 4,4-7  Por causa de Cristo, nosso irmão, podemos chamar o  pai de paínho (Abba).

Lucas 2,22-42Filho de Maria, filho da terra...

 

Isaías  61,10-62;3 –  O centro da mensagem do Terceiro Isaías está neste capítulo. A Nova Jerusalém é a cidade eleita para sediar a mais importante mensagem para o futuro do povo eleito. Aqui se delineia o sonho do “novo céu e uma nova terra”.  Um projeto que dispensa a referência  religiosa do Templo para se eliminarem as desigualdades sociais enquanto o protagonismo da história se entregará politicamente ao reinado de Deus. 

 

Os contornos históricos da intervenção divina necessitam do desenho completo dessa utopia profética: os dois grupos principais dos deportados de Judá que retornam do exílio; a elite dirigente, mesclada com a religiosa, sacerdotal, e o povo simples, sempre açoitado pelo chicote opressor, em todas as situações, formam a comunidade de deportados, na Babilônia. Os dois grupos sonham com a volta completa. Um, em função da retomada, mesmo que parcial, do poder político e religioso. O outro, constituído de israelitas escravizados, empobrecidos, imagina um jeito diferente de viver. As palavras de ordem, em sua esperança, referem-se a uma nova sociedade, a partir da justiça, da partilha e da solidariedade. A elite corrupta de Judá já fora comparada a “cachorros”, “más pessoas”, “maus pastores”; juntos, os dirigentes roubam o povo e o oprimem, enquanto fazem festa com muito vinho e bebidas fortes: cada um cuida dos seus próprios interesses”(Is 56,9-12; Ap 21,1-3). 

 

Muitas pessoas justas estão sendo assassinadas, porque o “crime organizado”, mancomunado com os dirigentes políticos, elimina os que denunciam os crimes do Estado; porque se recusam a cumprir as “leis religiosas”, que se justifica como se fora a pratica da “vontade de Deus”.  A situação é dramática: as pessoas pobres, vítimas da iniqüidade, da opressão e da morte, clamam por socorro.  O Terceiro Isaías acolhe o seu clamor, como intercessor dos despoderados e esmagados pelo sistema. A comunidade tem um sonho: Yahweh intervirá na história deste mundo opressor e transformará a realidade de injustiças e exclusão. Os “servos de Yahweh” são aqueles que ouvem e confiam na intervenção de Deus, quando os oprimidos experimentarão “um novo céu e uma nova terra”. Está chegando o Salvador, e todo o povo, também sob a opressão  religiosa, dispensará  os “pastores corrompidos” e será constituído “povo sacerdotal” (1Pd 2,9; Ap 1,6 e 5,10): as riquezas dos impostos religiosos se reverterão em favor de todos. A fonte da “teologia da retribuição” (ou da prosperidade) é  atingida em cheio. A cidade será um jardim de justiça, o cântico de louvor ecoará por toda parte.  A cidade será chamada, por fim, Cidade Fiel, porque louvor sem justiça não pode fazer parte da adoração ao Deus Salvador.  

                                                    

Gal 4,4-7 –  Paulo nos recorda que Jesús Cristo, nacido de mulher, sob a Lei, também nasceu em debilidade , na pobreza, numa gruta, porque não havia lugar na hospedaria.  Sem tirar nem por, igual a tantos outros do meio do povo, os simples; os empobrecidos, humildes; os sem poder. Porém, este nascimento real, verdadeiro, concreto,  é assumido por Deus para abraçar a todos os excluídos da tradição que o ignorava. É a visita real daquele que, por simples misericórdia, nos permite a graça de poder chamar Deus de Pai, com a familiaridade que “Abba” (paizinho, “painho” – ao jeito baiano de expressar ternura e carinho por uma paternidade muito amada), compreende. Todos os homens e mulheres são irmãos, desse modo. A relação de um pai e de uma mãe é algo sagrado, porque nossas origens são lembradas no amor incondicional que cria relações de reconhecimento e dependência mútuos sobre a importância da criação “à imagem e semelhança do próprio Pai”. Isso pode ser traduzido assim: Deus está conosco, na terra, através do Filho, homem nascido de mulher terrena, que caminha no meio dos homens e das mulheres (os discípulos de Emaús o reconhecem no partir do pão (eucaristia): “Ele está no meio de nós”). É o Cristo de Deus que nos irmana, na  mesma causa do Pai.

 

Lucas 2,22-42 – O grande texto da Natalidade refere-se a uma adolescente judia que se torna mãe solteira numa sociedade patriarcal impiedosa; lembra a mulher que, pelo menos, não tem responsabilidades nas decisões sobre os genocídios seguidos que caracterizam nossa cultura insensível ao infanticídio perenizado no cotidiano da fome e da desnutrição infanticida que tão bem conhecemos. O privilégio da hermenêutica cristã é apresentar o ventre disponível da mulher para uma grandeza libertadora a partir do que lemos num poema sobre uma vila periférica, Belém, da importante Jerusalém, sede política e religiosa do povo: Deus intervém em nossa história humana para nos unir contra tudo que destrói o sentido original da humanidade criada. Maria entrega seu útero acolhedor para abrigar Aquele que representa a misericórdia e o amor incondicional de Deus: a Graça se fez carne num ventre de mulher!

Maria representa a fé madura, fé verdadeira, fé que procura sentido. Maria não teve a fé das crendices, dos amuletos, das rezas e dos mantras que soam como gemidos e se perdem nos abismos humanos. Sua fé não foi fácil, nem simplória. É uma fé que sabe das conseqüências dos compromissos com a justiça de Deus. Diferente de João Batista, o profeta decapitado por amor a essa mesma justiça, que nasceu na sua casa e cujo nascimento foi celebrado por parentes e vizinhos (Lucas1,57-58), Jesus nasceu no maior desamparo, nem sequer teve uma casa para nascer; nasceu na solidão desoladora de uma estrebaria, pois nem mesmo a estalagem abrigaria seu nascimento numa noite fria do inverno palestino (Lucas 2,7). Este sofrimento foi causado pelos interesses do imperador Augusto, que pretendia sugar de todos os impostos que seriam partilhados pela corrupção, “mensalões”, propinas e crimes contra o erário e a economia do povo, até o último centavo (Lucas 2,1-5). Quirino governava a Síria, intermediando a opressão fiscal com um batalhão de arrecadadores.

 

Assim, o fato de o filho de Maria ter nascido num estábulo não ter nada de romântico, comovente e terno; assim, também, as palavras que Simeão dirige a Maria não têm nada de mel e doçura: aquele que seria chamado o Cristo de Deus é simplesmente mais um excluído, um explorado, como as crianças do Brasil que nascem devendo milhares de dólares ao FMI, entre os tantos desta terra que pagam dívidas contraídas em seu nome, nunca autorizadas.

O nascimento de Jesus é anunciado a uns pastores que, como o menino nascido num estábulo, não significam nada para a sociedade. Esta mesma que se locupleta de comidas caras, perus, lombos defumados, champanhe e vinhos finos, frutas cristalizadas, castanhas, nozes; que enche as sacolas de presentes e regalos festivos nesta data, como um excelente pretexto para o consumo de inutilidades.  De fato, o que se quer esquecer é o aniversariante, o que Ele é e o que Ele representa. Contrariando-o, como membro da sociedade humana à margem do paraíso pós-moderno, ela o ignora.

 

O sinal dado aos pastores de que tudo o que foi dito sobre o menino está certo, é mais do que desconcertante: a extrema pobreza em que ele nasce (Lucas 2,12). Maria nem vê, nem ouve os anjos. Ela recebe a mensagem dos anjos por meio dos pastores, menos informados e comprometidos do que ela. A reação de Maria diante de tudo isto não é algo passageiro, mas um fato permanente. Não é uma atitude passiva, ela procura entender, refletiu sobre o que significava a saudação do anjo na anunciação (29), e como perguntou de que maneira havia de cumprir sua missão de mãe do Messias de Deus (34), assim também se esforça por compreender todo o bem que seu filho significa para o povo (19). 

 

O anjo lhes anuncia que este é um motivo de grande alegria (Lucas 2,10), no entanto; que este pequenino é o Messias de Deus, o Salvador (11). O herdeiro real do Reino da Justiça e da Paz completa, (shalom = bem-estar na vida econômica, social, política: dignidade, direitos sociais, humanos, civis, atendidos em todos os níveis); o porta-voz de Deus anuncia a Luz que traz a vida plena e abundante: salvação das misérias, das fomes e das opressões humanas. A revelação celestial lhes diz que nele brilha a glória de Deus, que com Ele chega a paz (shalom) do Senhor (14; cf. Isaías 9,6). Esse é o Príncipe da Paz.

 

Derval Dasilio
Pastor da Igreja Presbiteriana Unida
Prof. da Faculdade de Teologia “Richard Shaull”
Teólogo filiado à ASETT

 

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