7º Domingo do Tempo Comum – Ano “B”

 

                             

Isaías 43,18-15 – O povo parece ser cego e surdo, mesmo tendo olhos e ouvidos.

Salmo 41 – Cura-me, tenho pecado contra ti, Senhor.

2 Coríntios 1,18-22 –  Sim e não, ao mesmo tempo? Tudo foi “sim” em Jesus.

Marcos 2,1-12 – Levanta, sai da cama... anda!

 

Temos uma mensagem de salvação, na liturgia de hoje. Devemos anunciá-la. Mas ficamos obrigados, mesmo com gestos simbólicos, a tornar essa pregação em prática. O Reino de Deus deve ser anunciado, sim, mas deve ser também construído, sendo que somos ferramentas, massa de construção, cimento e tijolos das intenções de Deus. O Reino deve “concretizar-se” em nós e no mundo. Lembro-me da feminista presbiteriana Elinete Miller, que tinha essa frase na ponta da língua: “no mundo, Deus tem as nossas mãos...”. Demonstrar o que Deus está fazendo através de Jesus Cristo é importante, porém não só com palavras. Não nos falta conhecimento teológico sobre a soberania de Jesus Cristo sobre os poderes deste mundo (João Calvino). Não desconhecemos o que pode fazer a força (dynamis) do Evangelho contra o mundo corrompido comandado pelos inimigos de Deus; contra os adversários do Reino encastelados na Religião, no Sistema Econômico, nas ideologias políticas (e também nas anti-ideologias neoliberais), opressivas, permissivas e coniventes quanto ao controle das  massas pela propaganda enganosa, política ou comercial, ou as duas; na mídia eletrônica que impõe o consumismo.

Por tudo isso, o Reino requer ações concretas da parte dos cristãos. Deus não se comunica com o mundo, nenhuma pregação fará efeito, sem os testemunhos das comunidades de fé no sentido de se apresentar a salvação com visibilidade: Deus está agindo para tornar mais humana a vida dos homens e das mulheres deste mundo. Palavra e ação, teoria e prática, falar e fazer. Jesus é o cimento desta unidade. Roger Garaudy nos lembra a importância do evangelho como um alerta para a realidade do Reino (Deus é necessário?, Zahar, 1995). Para a missão de Deus, missio dei, nele não se entra sem privação; jamais se entra no Reino pela “posse”, pelo “sucesso”, pelo “propósito”, pelo “avivamento espiritual”, nos termos da pregação que temos ouvido (quem viu Jesus pregar essa mensagem?): “O Reino já está onde o homem e a mulher realizam seu despojamento total”, dirá Garaudy, pensador marxista convertido ao cristianismo, bem habituado às questões da  praxis. “Se ainda não está”, é porque a relação dos cristãos com o mundo  não foi percebida por todos. Há um desafio, porque a vida de todos, a salvação em Jesus Cristo; a libertação em todas as frentes,  depende da adesão à  Causa do Homem de Nazaré. Cada um de nós é responsável pelo despertar de todos.

Isaías 43,18-15 – Retorna o Dêutero Isaías ao Lecionário da nossa Liturgia. Yahweh fala com seu povo e lhe passa uma carraspana pela falta de memória quanto às suas promessas, aquelas firmadas na Aliança. É preciso dar-se conta do passado. Falta-lhes uma leitura correta da presença permanente de Deus. Cegos à realidade, os israelitas são  incapazes de reconhecer os atos libertadores de  Deus na história humana e no presente da comunidade de fé. “Entre nós está, e não o conhecemos...”, como o cântico inspirado em Lucas 23,30.  Um pouco antes, neste capítulo (Is 43,8), o profeta já reproduzia a Palavra: “... povo cego, embora tenha olhos; surdo; embora tenha ouvidos”. No entanto, é Lei para Israel manter viva a memória da libertação.  Yahweh age para a salvação do povo; o esquecimento é fonte de culpabilidade, pecado acumulado com o esquecimento (Sl 79). Essa memória, porém, não deve ser cultivada nostalgicamente, como num tango argentino, ou no repouso inerte sob a fumaça azul de maravilhosos charutos. Nem tem o sentido da “volta ao útero materno”, como indicava Freud. A lembrança é válida quando se está voltado para o futuro. “É olhar o retrovisor para realizar a utrapassagem”, como disse John MacKay. A Lei, parece querer acentuar o profeta, paradoxalmente, serve apenas para apontar as utopias de libertação. Esta libertação se encontra lá na frente, mas alimentados pela esperança todos chegaremos ao “futuro” já vislumbrado. Caminhar é preciso...

2 Coríntios 1,18-22 – Paulo realça a fidelidade de Deus em Jesus Cristo. Nos atos de Cristo não há sinais de ambigüidades, contradições, polarizações.  Em Jesus Deus é total coerência: Ele é o “sim” de Deus à humanidade, como realçou Karl Barth.  A resposta do cristão deve vir na mesma altura, com coerência e honestidade.  Assim, ele também diz “sim”  ao Deus que veio a seu encontro.  A atitude de Deus é firme e constante, cheia de confiança, um “amém” que implica na aceitação dessa ação salvadora expressa na práxis de Jesus Cristo para “implantar” o projeto do Reino de Deus. Nesse caso, a comunidade responde com sinais de pertença total a Cristo e sua causa em unidade diante de Deus; uma unidade que expressa em atos e palavras o exemplo de Jesus (José Maria Vigil).

Marcos 2,1-12 – Esta perícope desvenda e confirma a coerência de Jesus. Detendo-nos um pouquinho sobre a teologia de Marcos, vamos encontrar o tema recorrente da cura e do destravamento das pessoas. Uma pessoa que dependente das outras, tipicamente um deficiente físico, como tantos, rechaçado socialmente, impedido de participar produtivamente da sociedade onde se encontra (o ambiente religioso diria que era alguém com pecado, uma pessoa impura, em função de sua deficiência), é trazida por outras, que se arriscavam no meio da multidão por causa da proibição religiosa. Jesus inicia seu trabalho a partir da relação cultural existente: pecado e castigo.  Diz à pessoa entrevada: “teus pecados estão perdoados”. A saúde, para ser recuperada, necessita de um “remédio” eficaz. É a liberação da culpa através da autoridade da Palavra. Jesus é a Palavra encarnada, dirá João, mais tarde.

A sociedade religiosa  reage, pois sua estrutura está montada em princípios que impõem a exclusão. Qualquer mudança; qualquer alternativa além dos preceitos, da carga de tributos dizimais, impostos públicos e religiosos; além dos ritos de purificação, obrigatoriamente no altar, lhes parecia impossível. Para eles a religião está acima da vida. Não para Jesus. O sofrimento do deficiente é muito mais complexo e misterioso. Não pode ser explicado de maneira simplista. Jesus mesmo rejeita a interpretação de “castigo de Deus”. Não aceita, também, o preconceito. Critica e repele o pretexto de “pureza ritual” para excluir pessoas do convívio fraterno e da comunhão da mesa. 

O Senhor Jesus exalta a vida em primeiro lugar: todos têm direito à vida; todos gozam  dos direitos humanos e do exercício da cidadania. Jesus resgata a pessoa para o uso dos seus direitos fundamentais, inclusive de trabalhar e produzir o desenvolvimento da sociedade na qual ela, a pessoa deficiente, se insere. O poder oculto, daquele homem deficiente e dependente (Mc 2,1-12), aflora com a libertação, também, de sua consciência. Esta é uma mensagem de superação da paralisia ou da imobilidade imposta por uma culpa atribuída, ou um estigma social e religioso. Faz lembrar os estereótipos culturais a respeito dos deficientes rechaçadas, ou “paternalizados” pela sociedade do nosso tempo:“deficientes e pobres sempre existirão”; “só os mais capazes sobreviverão...” Jesus contraria os estereótipos e  torna as pessoas donas de si mesmas e de seus destinos. Mais uma vez, nas palavras de Paulo Freire: “faz as pessoas reconhecerem-se como sujeitos da própria história” (Andarilho da Esperança - Paulo Freire no CMI, Baldwino Andreola e Mario Bueno Ribeiro, ASTE, 2005). Disse Jesus: “levanta-te e anda”!

 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida 

 
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