Recentemente, um astronauta brasileiro
foi elevado ao espaço através de uma viagem que teria custado cerca de dez
milhões de dólares aos cofres da nação, e não importa se foi menos ou mais
que isso. Acompanhado de
outros, o aeronauta sorridente se encantava com as estrelas, ao mesmo
tempo em que, distante das realidades terrenas, via a terra “a partir do
céu”. Não é a toa que, quando oramos, imaginamos Cristo elevado ao céu
contemplando-nos “aqui em baixo”, e vai nos ajudar a chegar até lá, de
alguma maneira. De certo modo, de acordo com a tecnologia espacial
desenvolvida, muitos se imaginam como futuros astronautas celestiais que,
um dia, percorrerão as distâncias em anos luz que nos separariam do “céu” e
chegarão a um lugar onde as Escrituras dizem que está o “Deus que
habita numa estrela
flamejante como o brilho de milhões de lumens”. Então, sem
alternativas, recorro a Fernando Pessoa, para falar do
mistério:“Sempre que olho para as cousas / e penso no que os homens
pensam delas,/ rio como um regato que soa fresco numa pedra./ Porque o
único sentido oculto das cousas/ é elas não terem sentido oculto nenhum”.
Como se poderia calcular,
como ferrenhos fundamentalistas, o fim dos tempos e classificar “quem poderá entrar no céu?” A opacidade
do mundo de Deus; a impossibilidade de se enxergar a “luz divina onde Deus
habita”; a falta de instrumentos para medir o tempo da eternidade, e a
ausência de lentes oftálmicas que capacitem qualquer um de nós para tanto,
são impedimentos definitivos? Não. A razão quer explicar a fé. Quando Anselmo, dos primeiros
escolásticos medievais, estabelecia que a fé requer inteligência,
fides quaerens intelectus, falava deste assunto, referia-se ao que a
carta petrina apontava: “... estejais sempre preparados a todos que
vos pedirem a razão da esperança que há em vós ”(1Pd3,15).
Karl Barth dissertou sobre Anselmo, no seu doutoramento. Agora, a fé sem inteligência,
crença em tudo que a tecnologia produz, é exigida para darmos como
verdadeiros os argumentos cinzentos do racionalismo fundamentalista? A
Billy Grahan Evangelistic Association, sediada em Minneapolis, que
influencia significativamente os caminhos do imperialismo norte-americano,
se acha capaz de medir o céu: “o Paraíso celestial mede
mil e quinhentas milhas quadradas”. Muçulmanos,
cujas escrituras sagradas estão no Alcorão, que proíbe o uso do vinho aqui
na terra, porém, garantiria tonéis do precioso produto vinícola no céu
(Caxias do Sul fará parte da Jerusalém Celestial?...); que condena o
adultério aqui, mas promete belas virgens em quantidade para quem chegar ao “paraíso” (ninfetas
fariam parte dos Jardins das Delícias celestiais, clássico da literatura
islâmica?), aproximam-se dos cristãos?
Mas não ficamos nisso, o anti-céu também existe;
cristãos, muçulmanos, hindus,
budistas, muçulmanos, jainistas e taoístas acreditam em algum tipo de
inferno, se diz por aí.
Dois cientistas do Departamento de Física Aplicada, na Universidade de
Santiago de Compostela, garantem que o inferno tem a exata temperatura de
279 graus centígrados, embora não se possa saber como fizeram a pesquisa
local (Eduardo Galeano). E não falta quem seja capaz de detectar e
divulgar o fax ou o e-mail, e o site de “deus”,
a exemplo de israelenses fundamentalistas informatizados do Serviço de
Telecomunicações de Israel.
Atos
1,6-11 -
Necessitamos compreender melhor essas
coisas. Uma linguagem de símbolos necessita de um cuidado semântico
adequado. Cristo “subiu aos céus”, confessamos, e observaremos o
plural celestial que as Escrituras apontam. Um dos céus é a fé para a qual
não existe tempo (kronos) ou um espaço presente desde o início
dos tempos
(telos), em Deus, que a epístola indica “habitar em uma luz inacessível” aos
homens e mulheres desta terra (1Tm 6,16). Nós, porém, seres cerebrais,
exigentes de demonstrações de conhecimento empírico, nesse momento as
abandonamos em favor do inexplicável, embora tantas vezes mencionado no
cotidiano de cada um. A fé, como a esperança, não está à disposição do
conhecimento. Desse modo, a subida de Cristo ao céu nada tem a ver
com a tecnologia espacial,
nada deve à NASA ou à base maranhense de lançamento de foguetes em
Alcântara. A fé não pensa num Cristo que transita de um espaço a outro,
dentro do tempo, portanto sujeito às coordenadas dos caminhos para o céu,
os quais “navegadores religiosos” conheceriam, quando calculam as
trajetórias dos crentes a partir de púlpitos ou concílios teológicos
doutrinários.
Nos
evangelhos, porém, Cristo, com sua ascensão, foi entronizado na esfera
divina, além das estrelas, das galáxias. Muito acima do kosmos e
de todas as realidades espaciais e temporais, para além do mundo físico e
suas possibilidades. A fé observa o mundo de Deus apresentado como
elevado, acima das corrupções e falibilidades humanas; um céu exemplar
para todas as concepções sobre os céus. Trata da fé no lugar natural da
justiça, da perfeição, da ubiqüidade, da atemporalidade, dos espaços
infinitos e imensuráveis do amor. Assim é o céu. Ali está a glória de
Deus: luz, felicidade, bem-estar em todos os níveis da vida (cf. Lc 24,51;
At 1,9). Junta-se à fé a esperança, o céu é a utopia evangélica, lugar
sonhado e desejado (utopos). Quando proclamamos que Cristo subiu
ao céu, singularizamos a pluralidade celestial do Reino de Deus,
especialmente na teologia de Mateus. O evangelista sempre usa o termo
“reino dos céus” para identificar o que os outros escritos apontam como
“reino de Deus”.
Lucas, Marcos,
Mateus e João, contam a seu jeito a ascensão de Jesus Cristo. O primeiro omite qualquer
possibilidade concreta, palpável, de um desaparecer visível de Cristo em
direção ao céu, quarenta dias depois da ressurreição. Marcos diz somente
que “o Senhor foi levado ao céu” e está sentado à direita de Deus (Mc
16,19). Um fragmento, que é
um acréscimo tardio extra-original, feito provavelmente vinte anos depois,
ou mais, porque demonstra acompanhar a concepção de Lucas (Mc 16,9-20; Lc
24,51), mostra o esforço conciliatório. Mateus, por sua vez, termina seu
escrito assim: “Jesus lhes disse: foi-me dada toda autoridade
(exousia) no céu e na terra... eu estarei convosco todos os dias
até a consumação dos séculos ” (Mt 28,18-20). Mateus acredita que Jesus
ascendeu ao céu imediatamente após a ressurreição. E João? O
evangelista pensa que o
significado é “passar” para o “lugar” do Pai (Jo 16,28): “Deixo o
mundo e vou ao pai ”.
Quando Jesus diz: “Recebei o Espírito Santo”, segundo sua
teologia, isso significa que o Senhor já está no céu e de lá envia seu
Espírito (Jo 7,39; 16,7).
Paulo é o mais incisivo, contudo: a chave hermenêutica não é
“subir ao céu”, mas a palavra “ressurreição”. Ressuscitar significa sempre
ser elevado em poder (força total = dynamei) para junto de Deus
(Rm 1,3-4; Fl 2,9-11). Pedro retorna ao tema e diz que Jesus “subiu ao
céu e está sentado à direita de Deus” (1Pd
3,22).
Até o século
IV, como atestam os testemunhos dos Pais da Igreja Antiga, Tertuliano,
Hipólito, Eusébio, Atanásio, Ambrósio e outros, estas passagens são
interpretadas como um acontecimento visível para os apóstolos. Porém, em
conexão direta com a ressurreição. As liturgias celebradas desde o século
V conjugavam a Páscoa e Ascensão com festa própria. De novo o tema
recorrente: Ressurreição e Ascensão são uma só coisa, Jesus não foi
re-vivificado nem voltou aos modelos de vida humana que possuía antes de
morrer (L.Boff). Jesus foi “entronizado em Deus e constituído Senhor e
Juiz do Universo”. Agora, a
plenitude da vida, por causa da humanidade de Cristo, se completa. Jesus
Cristo penetrou completamente na vida de Deus, sendo invisível, mas de
modo algum ausente no mundo. Durante a sua vida humana, por causa das
rejeições dos homens, Cristo viveu miseravelmente e foi martirizado por
motivo de sua pregação, a causa do Pai: o Reino de Deus. Não teve
êxito como homem, mas agora é Senhor do Universo, Senhor do Mundo e da
História. Seu reinado alcança o Céu e a Terra, para sempre. Quem se
submeterá ao reinado de Deus? Como o imaginário popular alcançará a
compreensão bíblica sobre os significados do “céu” e da “terra” que estão
sobre o domínio de Jesus Cristo? Somos salvos para o céu, ou para vivermos
como ressuscitados, como afirmava Paulo e os Pais da Igreja Antiga? Eis a
tarefa do pregador, aos
quarenta dias da Ressurreição, quinta-feira antes do sétimo domingo da
Páscoa, hoje comemorados.
Uma bênção anônima:“Que
aquele que ressurgiu dos mortos nos faça cada vez mais firmes na esperança
de toda a criação. Que aquele que nos protege do alvorecer ao anoitecer,
da aurora ao crepúsculo, desde o nascer até o morrer, nos abençoe e nos dê
a paz que excede o entendimento opaco do nosso viver. Que o conforto do
alcance da plenitude nos permita ver além da compreensão turva da vida
eterna e do céu, e que nos dê coragem para enfrentar e vencer o que não
compreendemos, mas havemos de experimentar para todo o sempre. Amém”
(Cf.Selah- Liturgias - Clai).