6º Domingo do Tempo Comum – Ano
“B”
Comentário ao Lecionário Reformado
2Reis
5,1-14 – A doença
humilha e causa exclusão
1Coríntios
10,31-11 – Um só corpo, um só espírito...para a glória de
Deus.
Marcos
1,40-45 – Desapareceu a doença, e ele ficou
limpo.
2Reis
5,1-14
– O episódio do estrangeiro com grave doença de repercussão social, o
sírio Naamã, trata de um milagre doméstico que se converte em assunto de
política internacional. Sírios (antigos arameus) e israelitas viviam sob
uma paz precária. Isso oferecia oportunidade para guerrilheiros (por que
não terroristas?) darem-se bem em suas incursões. Quanto à doença de Naamã,
propriamente dita, que poderia ser uma doença crônica como vitiligo ou
leucodermia (Lev 13), tinha outras implicações. Resultaria na exclusão social, uma
situação de humilhação insuportável, mesmo para um bem-posto
financeiramente como era Naamã. A situação envolve a intervenção da mulher
do mesmo, do rei da Síria e do rei de Israel, até a mediação do profeta
Eliseu. Naamã se rende humildemente em busca da cura, desce ao Jordão, e
submete-se à fórmula: “os sírios deverão reconhecer que há um Deus em
Israel”. As sete imersões têm significado tradicional nos ritos de
purificação, na religião israelita. Naamã deverá reconhecer o monoteísmo
através de uma profissão de fé exclusiva em Yahweh, abandonando a
“idolatria dos deuses estranhos”. A passagem indica a intervenção
deuteronomista: “embora todo o universo seja de Deus, só a terra de Israel
é sagrada”!(Luis Alonso Shöeckel, Bíblia do Peregrino, Paulus,
2003).
Marcos
1,40-45
- Temos uma página bastante comum no evangelho de Marcos: Jesus cura, não
somente prega. Jesus associa
palavras e atos. Suas ações
trazem libertação, porém libertação integral, espiritual e corporal. Seu
modo de expressar a religião que professa inclui a misericórdia, o
cuidado, o amor libertador, valores espirituais elevados muito acima da
religiosidade sem
sentimentos, catártica, regulamentar, preceitual. Jesus não a pratica. Ao
contrário, combate a religião legalista que impede a abertura para o
outro, ou para a comunidade
em si. Para ele, amar é libertar. No domingo passado comentamos:
“Torna-se importantíssimo reagir às teologias salvacionistas
que“espiritualizam” a pobreza e a miséria. Repetem-se as atitudes dos
adversários de Jesus, que recusavam-se a ver o pecado estrutural da
sociedade, gerador de insanidades, violências, enfermidades de toda ordem,
e tentavam impedi-lo de salvar e libertar, demonstrando, Jesus, que na
pessoa doente estavam cristalizados todos os males deste
mundo”.
1Coríntios 10,31-11
- A
segunda discussão, nesta liturgia da Palavra, refere-se à integridade
espiritual do crente. Paulo discutirá com os coríntios o bom emprego da
palavra “espiritualidade”. Quase sempre nos referimos a esta palavra
pensamos como os filósofos gregos, que imaginavam um estado de perfeição
do espírito somente quando o corpo não interfere na abstração espiritual.
Quer dizer, o melhor estado espiritual é aquele alcançado pela
mortificação do corpo. Os
monges gregos ainda no começo da Idade Média já diziam: “o espírito é para
Deus, o corpo é para o imperador” (nous e soma, no grego).
Mas isto não corresponde ao pensamento paulino (E.Käsemann). Nenhuma
escola rabínica ensinaria tal coisa, e ele foi instruído na concepção
rabínica. O modelo de espiritualidade religiosa que prevaleceu na igreja
não tem que ver com a revelação bíblica, mas sim com uma religião pagã do
século VII a.C. chamada “Religião Órfica da Trácia”. Desde os primeiros
séculos da era cristã essa concepção se tornou dominante no cristianismo
(Renold Blank).
Desse modo, os cristãos
estão convencidos de que estamos diante de um fato proveniente da
revelação divina. Podemos interpretar assim o pensamento religioso que
prevalece ainda nos dias hoje, equivocadamente, até nas pessoas mais
simples: “o espírito é tudo, o corpo não vale nada; o espírito valoriza o
corpo e a matéria degrada o espírito”. A depreciação do corpo
prossegue.
Para encerrar a
discussão, precisamos lembrar-nos de que o modelo antropológico dualista
(espírito separado do corpo) tem suas raízes numa cultura alheia à do povo
bíblico. A Bíblia, por sua vez, não absorve essas razões culturais e
ideológicas de um cristianismo aculturado já distante das fontes
apostólicas. A concepção bíblica refere-se ao ser total, que é corpo, é
alma e é espírito, finalmente. E isso no Segundo Testamento, porque no
Primeiro, já haviam descoberto, os exegetas do século XIX, que a palavra
“Espírito” refere-se somente ao Espírito de Deus. O hebreu não conhece
outra forma de identificar o ser humano senão através do “corpo que é alma
e da alma que é corpo”. Para ele, corpo e alma são indissociáveis (Bíblia
Hebraica/AT).
Paulo prossegue nesta
linha: “quer comam ou bebam, ou que façam qualquer outra coisa, façam
tudo para a glória de Deus”. Não só as atividades religiosas
tradicionais têm a ver com a espiritualidade, mas o comum do cotidiano de
cada um e de todos “...porque nós, embora muitos, somos um só
corpo”(1Cor 10,17). Esse acréscimo identifica outros aspectos, como os
que envolvem a comunidade, a sociedade e o crente.
Todas as nossas
atividades envolvem as relações com os outros e as outras, e todos estamos
envolvidos por tarefas e preocupações humanas que alcançam o “corpo” social indissociável da nossa
condição de indivíduos em comunidade. Não é possível conceber a existência
de “profissionais da santidade”, pessoas destacadas e separadas para a
busca pessoal do “estado de perfeição espiritual” onde as preocupações
humanas desaparecem e se dissolvem na busca do espiritual fora da
realidade dos homens e das mulheres deste mundo. Compreenderemos que somos
espirituais enquanto envolvidos pela misericórdia de Deus que dá solidez
ao corpo de Cristo, enquanto somos convidados a “materializar” a prática
libertadora do Evangelho, no testemunho do Reino de Deus e sua justiça.
Por outro lado, como diria Paulo Freire: “ninguém se liberta sozinho,
nós nos libertamos em comunhão”.
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Derval Dasilio
Pastor da Igreja
Presbiteriana Unida