SEXTO DOMINGO DA PÁSCOA - ANO “B

Atos 10,44-48 – E caiu o Espírito Santo sobre ele  

Salmo 98 – Ele vem julgar a terra com amor

1João 4,7-21 – Deus nos amou primeiro

João 15,9-17 – Amai-vos assim como eu vos amei

                      

         A última palavra sobre o amor, conforme a piedade cristã em vigor, poderia envolver considerações inspiradas nas novelas televisivas, filmes como o que está em cartaz: Terapia do Amor, ou nos romances rasteiros disponíveis nas bancas de revista: amor-cor-de-rosa, sensual, prazenteiro, edulcorado, se não é amor “abstrato”, filosófico. Seria este o amor do qual João nos fala? Os valores prioritários que invocariam, antes, a possibilidade de amar a fidelidade, a autenticidade, a honestidade, a plenitude do amor, quem sabe? Em comparação com essas virtudes e considerações tradicionais, creio, o que assistimos é uma grande inquietação sobre a “desordem amorosa” que tomou nosso tempo. Quais são as prioridades do amor?, perguntaremos insistentemente. O amor sem igual, sem medida, concreto, relacional, “full contact”, de Jesus, tem alguma coisa a ver com as imagens sentimentais da linguagem cotidiana? Pode a cruz, símbolo de morte e sofrimento, ser um símbolo de amor? Na realidade, o amor extremo de Jesus é um desafio ainda maior que aquele apresentado na parábola: “ama a teu próximo como a ti mesmo...”. Por que? Porque João vai além, acrescentando, quando escreve o que sai da boca de Jesus: “...amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Um manual de regras sobre a prática do amor poderia muito bem ser pregado numa cruz, e estaria bem posto, e escrito na capa:  “Cruz – Mandamento do Amor” (cf. Gracia, Cruz y Esperanza, Clai, 2004).

 

A cruz pode ser também a medida do ódio, da inveja e do orgulho, de emoções que transformam as pessoas. “Até os animais sentiriam isso”, explicaria o Dalai Lama, mestre budista, sobre a natureza bruta dos seres. “Enquanto a fé cristã luta por extinguir o pecado, o budismo quer suprimir o sofrimento causado por tais sentimentos”, diriam também espiritualistas cristãos e budistas, seguramente sob um falso acordo semântico. No entanto, para os cristãos, a história da cruz, escrita com o sangue dos mártires, chega até à nossa miséria profunda, nossa ignorância, denunciando a incapacidade de compreendê-la como expressão do esvaziamento de Deus em Cristo, por puro amor à justiça. A cruz de Cristo está fincada entre inumeráveis cruzes enfileiradas junto aos caminhos dos violentados e violentadores (Moltmann). Do Circo Romano ao Carandiru, Serra Pelada, Curumbiara, Eldorado dos Carajás, Catedral da Candelária, o amor revelado na cruz mostra-nos Jesus Cristo como o companheiro de sofrimento de todos os  oprimidos, massacrados, torturados e  violentados deste mundo.

 

    O amor é também juiz das consciências, do mesmo modo que é juiz dos algozes, e dos que torturam e matam os que amam a causa de Deus. O Cristo intencionalmente violentado, torturado,  crucificado por amor, lembrar-nos-á, como se fazia na antiguidade – e nos apóia a história do Brasil imperial e do autoritarismo imperialista: Tiradentes esquartejado; divulgação exaustiva e exemplar do assassinato de Che Guevara nas florestas colombianas – como demonstração pública dos cadáveres dos mártires, com intenção intimidadora. A questão está sob o juízo de Deus. Estêvão, Tiago, Pedro, Paulo, e quantos mais?, também sofreriam o martírio pela causa de Deus. A ressurreição, como nos lembramos também em todas as Páscoas, é parte significativa do amor que julga e faz ressuscitar: os mortos voltam à vida na primavera, como as flores ressurgem depois do frio inverno. A justiça de Deus vinga os torturados, os violentados, trazendo à tona o testemunho dos que foram mortos por causa da justiça. São a semente (sperma) de um mundo transformado. Os assassinados pelos poderes deste mundo têm no Cristo ressuscitado o símbolo desse amor pela justiça. A solidariedade de Deus estava no Cristo morto, crucificado, trazido à ressurreição para toda a eternidade, para que todos possam ressuscitar e gosar da justiça de Deus.

 

    "Pesadelo" é o nome de uma canção que nos acompanha, tanto quanto o Matthäus Passion, oratório de Johannes Sebastian Bach, profundo e transcendente, com destaque para o mote recorrente tão conhecido: “Oh, Cruz Ensangüentada”. Desde o autoritarismo militar dos “anos de chumbo” nós a ouvíamos, embalados também pela Paixão do Cristo crucificado: “Quando o muro separa uma ponte une./ Se a vingança encara o remorso pune./ Você vem me agarra, alguém vem, me solta./ Você vai na marra, ela um dia volta./ E se a força é tua, ela um dia é nossa./ Olha o muro, olha a ponte,/ olha o dia de ontem chegando.../ Que medo você tem de nós,/ olha aí!/Você corta um verso, eu escrevo outro;/ você me prende vivo, eu escapo morto./ De repente, olha eu de novo /perturbando a paz, exigindo o troco,/ vamos por aí, eu e meu cachorro./ Olha o verso, olha o outro;/ olha o velho... olha o moço chegando,/ que medo você tem de nós:/ olha aí! ” (Pesadelo: Paulo César Pinheiro/Maurício Tapajós).

 

    João 15,9-17  Um paradoxo, o texto joanino.  Sua síntese poderia levar-nos à idéia mestra de que nada existe mais “escravizante” que o amor, seja para quem dá ou para quem o recebe. Podemos imaginar um precedente em Isaías 5, que coloca a ação concreta no campo do amor justo (ahavah = amor que palpita no peito de cada um) e misericordioso de Yahweh; que o fruto esperado seria a prática da justiça para o exercício dos direitos fundamentais do homem e da mulher, igualitariamente, sem considerar ódios raciais, preconceitos religiosos e classificações sociais, sob o ethos principialista que organiza a justiça. Isaías aponta o amor que julga: “Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo ” (Is 5,20). Esse amor (agape e phileo são empregados aqui; reclama-se atenção, na exegese e  na hermenêutica: não esquecer ahavah e seu sentido no hebraico), segundo a perpectiva joanina, não é humano, porque a seiva que recebe vem da raiz e do tronco que sustenta a fé no Cristo de Deus. Jesus funda e engloba tudo que abrange a justiça e o direito (Bíblia do Peregrino, Shöekel, p.2600). O modelo desse amor é o Pai, e se estende aos “amigos”  da causa do Reino, força viva na mensagem de Jesus.

 

Trata-se de um amor libertador, o de Cristo, e ele o leva ao extremo, porque visa a libertação de homens e mulheres das injunções estruturais, poderes opressores (políticos, econômicos, religiosos), sistemas de pensar que “eternizam” a injustiça e desviam seus direitos fundamentais para  fins de dominação e servidão: “Eu vos ordeno: amai-vos [’agapâte]  uns aos outros”.  Há um mandamento que requer obediência, e o amor filial de Jesus, por fidelidade, leva-o a cumprir e exigir obediência ao imperativo divino, ao mesmo tempo (Divine Imperative, E. Brunner).

 

Este amor escrito com o apoio de verbos dinâmicos exige a práxis, está provado. Não cuida somente das nossas relações cotidianas. Ultrapassa em muito o trivial. Não há mística ou abstração que possa esconder a prática do imperativo de Jesus, pois o amor não se refere aqui a uma “felicidade” amorosa que se busca em boa vizinhança, ou na estabilidade familiar ou  conjugal.  Não se trata aqui de “amor à virtude”, e sim de colocar-se em prontidão para a ação concreta no campo do amor justo e misericordioso, como é o amor de Jesus Cristo, nosso Senhor. O escravo (doulos) do amor serve à justiça de Deus, acima de tudo. Deus é amor, disse João. O evangelista nos lembra para amar-nos uns aos outros com o amor sem medida de Jesus. Não há amor maior que este. Amor que liberta, destrava, deslancha cada um de nós para o exercício da liberdade, estrutural e sistematicamente.  

                 

Oração: "Senhor, que o amor seja em nós como o raiar do Sol da justiça, um acontecimento que suscite uma solene música nas profundezas de nossa natureza humana; um acontecimento em que o nosso ser inteiro, corpo e alma, se ponha em harmonia com os cosmos, para que possamos louvarte a cada dia, libertados e agradecidos.  Amém".

 

                                                                                                                    

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

www.paoquente.org 

V-I-S-I-T-E!

 

 
 
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