A
última palavra sobre o amor, conforme a piedade cristã em vigor, poderia
envolver considerações inspiradas nas novelas televisivas, filmes como o
que está em cartaz: Terapia do Amor, ou nos romances rasteiros disponíveis
nas bancas de revista: amor-cor-de-rosa, sensual, prazenteiro, edulcorado,
se não é amor “abstrato”, filosófico. Seria este o amor do qual João nos
fala? Os valores prioritários que invocariam, antes, a possibilidade de
amar a fidelidade, a autenticidade, a honestidade, a plenitude do amor,
quem sabe? Em comparação com essas virtudes e considerações tradicionais,
creio, o que assistimos é uma grande inquietação sobre a “desordem
amorosa” que tomou nosso tempo. Quais são as prioridades do amor?,
perguntaremos insistentemente. O amor sem igual, sem medida, concreto,
relacional, “full contact”, de Jesus, tem alguma coisa a ver com as
imagens sentimentais da linguagem cotidiana? Pode a cruz, símbolo de morte
e sofrimento, ser um símbolo de amor? Na realidade, o amor extremo de
Jesus é um desafio ainda maior que aquele apresentado na parábola: “ama
a teu próximo como a ti mesmo...”. Por que? Porque João vai além,
acrescentando, quando escreve o que sai da boca de Jesus: “...amai-vos
uns aos outros como eu vos amei”. Um manual de regras sobre a
prática do amor poderia muito bem ser pregado numa cruz, e estaria bem
posto, e escrito na capa:
“Cruz – Mandamento do Amor” (cf. Gracia, Cruz y Esperanza,
Clai, 2004).
A cruz pode ser também a medida do ódio, da inveja e do orgulho, de emoções que transformam as
pessoas. “Até os animais sentiriam isso”, explicaria o Dalai Lama, mestre
budista, sobre a natureza bruta dos seres. “Enquanto a fé cristã luta
por extinguir o pecado, o budismo quer suprimir o sofrimento causado por
tais sentimentos”, diriam também espiritualistas cristãos e
budistas, seguramente sob um falso acordo semântico. No entanto, para
os cristãos, a história da cruz, escrita com o sangue dos mártires, chega
até à nossa miséria profunda, nossa ignorância, denunciando a incapacidade
de compreendê-la como expressão do esvaziamento de Deus em Cristo, por puro
amor à justiça. A cruz de Cristo está fincada entre inumeráveis cruzes
enfileiradas junto aos caminhos dos violentados e violentadores
(Moltmann). Do Circo Romano ao Carandiru, Serra Pelada, Curumbiara,
Eldorado dos Carajás, Catedral da Candelária, o amor revelado na cruz
mostra-nos Jesus Cristo como o companheiro de sofrimento de todos os
oprimidos, massacrados, torturados e
violentados deste mundo.
O amor é também juiz das
consciências, do mesmo modo que é juiz dos algozes, e dos que torturam e
matam os que amam a causa de Deus. O Cristo intencionalmente violentado,
torturado, crucificado por
amor, lembrar-nos-á, como se fazia na antiguidade – e nos apóia a história
do Brasil imperial e do autoritarismo imperialista: Tiradentes
esquartejado; divulgação exaustiva e exemplar do assassinato de Che
Guevara nas florestas colombianas – como demonstração pública dos
cadáveres dos mártires, com intenção intimidadora. A questão está sob o
juízo de Deus. Estêvão, Tiago, Pedro, Paulo, e quantos mais?, também
sofreriam o martírio pela causa de Deus. A ressurreição, como nos
lembramos também em todas as Páscoas, é parte significativa do amor que
julga e faz ressuscitar: os mortos voltam à vida na primavera, como as
flores ressurgem depois do frio inverno. A justiça de Deus vinga os
torturados, os violentados, trazendo à tona o testemunho dos que foram
mortos por causa da justiça. São a semente (sperma) de um mundo
transformado. Os assassinados pelos poderes deste mundo têm no Cristo
ressuscitado o símbolo desse amor pela justiça. A solidariedade de Deus
estava no Cristo morto, crucificado, trazido à ressurreição para toda a
eternidade, para que todos possam ressuscitar e gosar da justiça de
Deus.
"Pesadelo" é o nome de uma canção
que nos acompanha, tanto quanto o Matthäus Passion, oratório
de Johannes Sebastian Bach, profundo e transcendente, com destaque
para o mote recorrente tão conhecido: “Oh, Cruz Ensangüentada”. Desde o
autoritarismo militar dos “anos de chumbo” nós a ouvíamos, embalados
também pela Paixão do Cristo crucificado: “Quando o muro separa uma ponte une./ Se a
vingança encara o remorso pune./ Você vem me agarra, alguém vem, me
solta./ Você vai na marra, ela um dia volta./ E se a força é tua, ela um
dia é nossa./ Olha o muro, olha a ponte,/ olha o dia de ontem chegando.../
Que medo você tem de nós,/ olha aí!/Você corta um verso, eu escrevo
outro;/ você me prende vivo, eu escapo morto./ De repente, olha eu de novo
/perturbando a paz, exigindo o troco,/ vamos por aí, eu e meu cachorro./
Olha o verso, olha o outro;/ olha o velho... olha o moço chegando,/ que
medo você tem de nós:/ olha aí! ” (Pesadelo: Paulo César Pinheiro/Maurício
Tapajós).
João 15,9-17 – Um paradoxo,
o texto joanino. Sua síntese
poderia levar-nos à idéia mestra de que nada existe mais “escravizante”
que o amor, seja para quem dá ou para quem o recebe. Podemos imaginar um
precedente em Isaías 5, que coloca a ação concreta no campo do amor justo
(ahavah = amor que palpita no peito de cada um) e misericordioso de
Yahweh; que o fruto esperado seria a prática da
justiça para o exercício dos direitos fundamentais do homem e da mulher,
igualitariamente, sem considerar ódios raciais, preconceitos
religiosos e classificações sociais, sob o ethos
principialista que organiza a justiça. Isaías aponta o amor que julga:
“Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz
escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo ” (Is 5,20).
Esse amor (agape e phileo são empregados aqui; reclama-se
atenção, na exegese e na
hermenêutica: não esquecer ahavah e seu sentido no hebraico),
segundo a perpectiva joanina, não é humano, porque a seiva que recebe vem
da raiz e do tronco que sustenta a fé no Cristo de Deus. Jesus funda e
engloba tudo que abrange a justiça e o direito (Bíblia do Peregrino,
Shöekel, p.2600). O modelo desse amor é o Pai, e se estende aos
“amigos” da causa do Reino,
força viva na mensagem de Jesus.
Trata-se de um amor libertador, o de Cristo, e ele o
leva ao extremo, porque visa a libertação de homens e mulheres das
injunções estruturais, poderes opressores (políticos, econômicos,
religiosos), sistemas de pensar que “eternizam” a injustiça e desviam seus
direitos fundamentais para
fins de dominação e servidão: “Eu vos ordeno: amai-vos
[’agapâte] uns aos
outros”. Há um mandamento
que requer obediência, e o amor filial de Jesus, por fidelidade, leva-o a
cumprir e exigir obediência ao imperativo divino, ao mesmo tempo (Divine
Imperative, E. Brunner).
Este amor escrito com o apoio de verbos dinâmicos
exige a práxis, está provado. Não cuida somente das nossas relações
cotidianas. Ultrapassa em muito o trivial. Não há mística ou abstração que
possa esconder a prática do imperativo de Jesus, pois o amor não se refere
aqui a uma “felicidade” amorosa que se busca em boa vizinhança, ou na
estabilidade familiar ou
conjugal. Não se trata
aqui de “amor à virtude”, e sim de colocar-se em prontidão para a ação
concreta no campo do amor justo e misericordioso, como é o amor de Jesus
Cristo, nosso Senhor. O escravo (doulos) do amor serve à justiça de
Deus, acima de tudo. Deus é amor, disse João. O evangelista nos lembra
para amar-nos uns aos outros com o amor sem medida de Jesus. Não há amor
maior que este. Amor que liberta, destrava, deslancha cada um de nós para
o exercício da liberdade, estrutural e
sistematicamente.
Oração: "Senhor, que o amor seja em nós como o raiar do
Sol da justiça, um acontecimento que suscite uma solene música nas
profundezas de nossa natureza humana; um acontecimento em que o nosso ser
inteiro, corpo e alma, se ponha em harmonia com os cosmos, para que
possamos louvarte a cada dia, libertados e agradecidos.
Amém".