Isaías
40,21-31 – Deus é fiel, apesar de tudo
Salmo 147,
1-11;20c – O Senhor sempre amparará os pobres e humildes
1Coríntios
9,16-23 – Lutar contra a
ganância faz parte da liberdade em Cristo
Marcos
1,29-39 – Jesus cura, salva e liberta o ser inteiro
Não se
pode falar do sofrimento e da origem do mal sem tocar na jóia literária
que é o livro de Jó. O que é
o mal como problema metafísico, ou como uma constante da vida humana, e o
que é o sofrimento imposto pelo mal? Uma reflexão sapiencial sobre
problemas insolúveis, mistérios insondáveis que a Bíblia Hebraica
reconhece, como o eterno problema do mal. Um problema da “teodicéia”, como
reflexão filosófica que se esforça por demonstrar a existência de Deus.
Mas a questão tem outro enfoque, na teologia de Paulo. Se temos avançado
no plano tecnológico, científico, falta-nos a sabedoria fundamental para
percebermos com clareza o mal que nos cerca. Como no Salmo 73, com o mesmo
enfoque de Jó, a experiência de Deus nos leva à sinceridade e honestidade
(Paulo Rückert, Viver é Lutar, ed. do autor), deveríamos ser capazes de
enfrentar a inveja e a ganância que nos sobrevêm ao observarmos o sucesso
dos “perversos”: eles têm riqueza, bem-estar garantido nos níveis que
implicam em saúde, previdência social, escolaridade em todos os graus,
habitação e lazer. Os perversos têm tudo, e suscitam inveja, enquanto
desfrutam a vida como se estivessem em férias de verão permanentes, praia,
suor e cerveja...
Isaías 40,21-31 – Nesse trecho inicial do Dêutero-Isaías,
vemos a realidade da sociedade babilônica em seu apogeu e crise. Algo como se observa numa
sociedade a qual chamamos de pós-moderna, ou pós-industrial, hoje. Por
trás de um império financeiro poderoso, encontramos uma sociedade injusta
e desigual. Os mais pobres, escorraçados, excluídos, esmagados pela
miséria, enfermidades, abandonados socialmente, sofrem mais. É exatamente
sobre eles que incidem as maiores cobranças, obrigados a pagar taxas e
tributações que sustentariam a riqueza e o fausto dos palácios
governamentais, dos bem-postos e dos economicamente poderosos. A religião,
os templos, participam da espoliação geral. Isaías dirá que a vida do povo
é como “o pavio que está para se apagar...” Em seguida, em meio à
dura realidade da opressão e da miséria, a comunidade do II Isaías faz
experiências da ternura e do cuidado de Yahweh a seu lado. Mas os judaítas
se queixavam: “no tempo de Moisés, Deus se cansou do seu povo, dos seus
pecados e de sua teimosia, e o descarregou em terra estrangeira para
livrar-se de suas chatices, e desfazer-se dele”. Situação paradoxal,
sem dúvida. As experiências da fome, trabalhos forçados, violência e
confinamento, tidas como castigo de Yahweh, são retratos do sofrimento não
merecido. Porém, os capítulos seguintes corrigirão essa concepção, na
recordação da fidelidade de Deus estabelecida para sempre na
Aliança.
1Coríntios 9,16-23 –
Paulo, como Jó, entra numa discussão acalorada entre facções dentro
da igreja de Corinto. Sua autoridade está em jogo. O apóstolo é
questionado, respondendo, então, com uma defesa radical de sua missão:
declara sua absoluta liberdade diante de Deus face a toda manipulação
religiosa ou qualquer outra. Não se declara membro de qualquer movimento
ou instituição, mas sim como um homem “obrigado a cumprir uma tarefa”. A
prática comum do clientelismo, quando o benfeitor se convertia em alguém
com poder sobre outro, aquele que recebia as benesses, atingira a
comunidade. Paulo se declara livre em Cristo para pregar a pureza de sua
mensagem descomprometida, sem buscar privilégios, benefícios ou vantagens
pessoais. No entanto, é essa liberdade que o torna um servidor dos demais,
sem ser obrigado a representar os “valores” de grupos e castas que se
acham com o direito “natural” de sobreporem-se aos demais, exercitando seu
poder sócio-econômico ou religioso. Paulo anuncia que o Evangelho de Jesus
Cristo não compartilha da rigidez das hierarquias sociais, dentro ou fora
da comunidade de fé.
Marcos 1,29-39 – A prática da cura, a luta contra o mal, nas
ações de Jesus, tem a ver diretamente com a liberação do ser inteiro. Não
há dicotomias, ambivalências, duplicidades, no intento do Senhor em curar
alguém. Os evangelhos jamais falam que Jesus salvava almas separadas do
corpo (ou corpos...). Recuperar a saúde de alguém é recuperar a capacidade
de trabalhar, de produzir, de alcançar dignidade, possibilitando-se a
reintegração social do doente, considerado um peso para a sociedade. Curar
é salvar e libertar. Mas o comum, ao tempo dos apóstolos, e de Jesus, era
que os enfermos fossem considerados “possuídos por maus espíritos”. Os
alijados, excluídos, não se atreviam a aproximar-se, o mesmo ocorria com
os membros “sãos” da sociedade, também não olhavam os desgraçados. Jesus,
contrariando expectativas de ambos os lados, contrariava as regras,
dispunha-se a servir os marginalizados com dedicação e cuidado, para
curá-los.
Ser cristão, entre muitas coisas, é também lutar
contra o mal, seja o que origina a exclusão, seja o que impõe a
marginalização social. Num mundo que experimenta indicadores escabrosas
com relação à miséria, às enfermidades endêmicas e à fome, anunciar o
Reino de Deus é uma tarefa de suma importância. Torna-se importantíssimo
reagir às teologias salvacionistas que “espiritualizam” a pobreza e a
miséria. Repetem-se as atitudes dos adversários de Jesus, que recusavam-se
a ver o pecado estrutural da sociedade, gerador de insanidades,
violências, enfermidades de toda ordem, e tentavam impedi-lo de salvar e
libertar, demonstrando, Jesus, que na pessoa doente estavam cristalizados
todo os males deste mundo. Especialmente aqueles da irresponsabilidade que
vem da má consciência dos problemas humanos, negando-se suas origens; ou
dos que vêm da omissão intencional.
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Derval
Dasilio
Pastor
da Igreja Presbiteriana Unida