QUINTO DOMINGO DA PÁSCOA - ANO “B”

 

Atos 8,26-40-Como crer, se não me são claras as coisas da fé?

Salmo 22,25-31–Que sejam um, para que o mundo creia cf.Jo 17,21.

João 15,1-8 –  Eu sou a videira verdadeira, permanecei em mim.

                Esses textos cabem na forma do ecumenismo lembrado na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, certamente. As igrejas ecumênicas terão celebrações em todos os dias, na semana do último domingo da Páscoa[ss.7o.Dom.]. As Escrituras apontam que Deus quer a unidade de seu povo. Ezequiel já dissera: “minha morada será junto a eles” (37,15-28). O salmo lembrará aos que vêem seus frutos: “Lembrar-se-ão do Senhor, e a ele se converterão os confins da terra” (v.27). “Como poderei entender, se alguém não me explicar?”, registra, hoje, Lucas em Atos. O etíope creu, quando o Reino lhe foi apresentado: o Evangelho e os frutos que Deus pretendia, e foi batizado. Então, como responderemos a Deus? Certamente com gratidão, porque fomos chamados à unidade e à obediência: “Uma só fé, um só batismo, um só Senhor”, os remanescentes de Paulo afiançam, dirigindo-se aos cristãos em Éfeso (Ef 4,1-6).

 

        O amor a Jesus, traduzido em união, comunhão e sintonia com sua causa, caracteriza a unidade cristã. Constituem uma só coisa com Cristo, raiz da fé. A Semana de Oração pela Unidade é um tempo de crescimento na fé, na fraternidade, na comunhão e na transformação social, como experiência concreta de comunhão entre diferentes denominações cristãs. É uma oportunidade não só para a oração comum e para a oração pela unidade em cada igreja, mas também para buscar e acolher mais irmãos e irmãs para que se juntem na caminhada ecumênica. Em sua persistente missão de acolher e partilhar, o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) conseguiu, ao longo de seus 24 anos de existência, tecer uma consistente rede de parceria social entre igrejas, Conselhos de Igrejas e organizações ecumênicas. O organismo ecumênico nacional quer expandir e consolidar ainda mais esta rede, informa a agência ALC Notícias.

 

                    João 15,1-8No início da primavera o tempo da Páscoa, na Palestina, ocorre nessa estação,  e o viticultor seleciona os melhores ramos, podando-os e eliminando os que não serão produtivos. É a poda seca, quando os ramos ainda não brotaram. Algum tempo depois, quando os novos ramos já se desenvolveram razoavelmente, a ponto de mostrar os cachos ainda pequenos, procede-se à poda verde, eliminando os brotos que não apresentam frutos. É importante lembrar que sem a poda a videira torna-se estéril e acaba morrendo. Podar, portanto, não é fazer a videira sofrer, algo semelhante a um castigo ou punição. Nem mesmo tem o sentido de “limpar” a videira, e sim de dar condições para a produção em abundância. Poda é cuidado indispensável, porque sem poda a videira morre. Uma poda não é uma provação, e sim a graça do renovo pretendido, uma 'denúncia' sobre impedimentos de frutificação. Deus é extremamente zeloso, cuida da comunidade enraizada em Cristo, aumenta-lhe a esperança para que produza frutos. Sem a comunidade (ramos),  o projeto do Pai arrisca-se à esterilidade.

 

        Jesus é a videira, mas os frutos da justiça e da dignidade reconhecida brotam das comunidades que a ele aderiram, nascem dos ramos. Mas o texto fala de “permanecer” (ménete), porque a metáfora refere-se à videira e aos ramos. Estes estão unidos à videira e de sua seiva se alimentam. Assim acontece com a comunidade cristã de fé: une-se alimentada pela raiz, pela seiva que corre pelo tronco. Fala-se do risco de esterilidade de todas as comunidades. Não basta estar simplesmente unido a Jesus para sempre, como se diz, é preciso demonstrar a unidade. Mais ainda: quem não produz frutos de justiça e direito não poderá afirmar que está unido a Jesus, como o ramo à videira. Pelo contrário, quem permanece nele produz muito fruto; o que não permanece nele é jogado fora para secar e ser queimado. Em outras palavras, quem não luta pelo direito e não se esforça pela justiça incorre no julgamento, como aconteceu com a videira descrita em Isaías (Is 5,7).

 

            É a Palavra que põe em contato com Jesus, estabelecendo comunhão e unidade no mesmo tronco. Somos sustentados pela raiz, como os ramos de uma videira.A credencial é apresentada pela palavra “permanecer” (ménete)  que aparece sete vezes no trecho dos vs. de 4-7 (cf./cmp. Jo 1,39). O amor é o alimento e ao mesmo tempo o sentido para se “permanecer em Cristo”. Contrariando a mentalidade do tempo, segundo a qual as pessoas se tornavam puras à custa de ritos de purificação, como sinal de pertença, Jesus garante que a verdadeira pureza de uma comunidade consiste em acolher a Palavra que ele comunica. É ela quem purifica, liberta e capacita para a missão. Assim, nenhum 'ramo' se achará como 'raiz', ou 'tronco' da videira. A principal credencial da comunidade de fé é ter ouvido a Palavra. Ela é privilegiada por ter ouvido (do verbo akuo) a Jesus e de exercitar a 'acuidade', no sentido completo da atenção e da obediência: “Vocês já estão purificados por causa da Palavra que eu lhes falei” ... e vocês ouviram! Está implícito (v.3).  

                        

            Portanto, o critério para sabermos se a comunidade de fé permanece ou não em Cristo são os frutos da justiça e do direito que ela produz, resposta concreta à Palavra: frutos do amor (misericórdia, cuidado, compaixão, fraternidade, solidariedade). São os frutos que identificam uma comunidade cristã, inclusive. Porque estes também a levarão à indignação, à não-tolerância, se não existe justiça e os direitos à dignidade das pessoas não são observados no meio em que a comunidade se manifesta (que é a poda saneadora...). Nesse clima, nenhum pedido ficará sem resposta, nenhum esforço será inútil. A alegria do agricultor (Deus) é ver a videira carregada de bons frutos. A glória do Pai é a comunidade comprometida com sua causa (o Reino); uma comunidade fortemente unida a Jesus, raiz da nova vida, cujos frutos são justiça, direito, solidariedade, fraternidade e amor, reflete a glória do Pai. Isso é a síntese do legado de Jesus à comunidade; essas são as condições para que a comunidade cresça e desenvolva sua missão, alimentada em fé e esperança. Jesus se declara a videira verdadeira, o agricultor é o Pai. No passado, Israel fora  comparado à vinha (cf. Jr 2,21; Is 5,1; 5,7) que não correspondera às expectativas de Yahaweh, na esperança de vê-la produzir frutos do direito e justiça, a plantara. Mas os frutos dessa vinha foram a transgressão dos direitos humanos e a violência contra a pessoa. Como videira de Deus, Israel é renovada, "podada" para a produtividade dos frutos que glorificam o Agricultor que a plantara.

 

                Jesus, agora, denomina-se a si mesmo como “a verdadeira videira”. Só ele é capaz de produzir os frutos que Deus espera (direitos fundamentais e justiça social); só nele uma comunidade pode realizar o que o Pai anseia. Ele se apresenta como a única alternativa para a realização do direito e da justiça. Nesse sentido ele é verdadeiro, isto é, autêntico e fiel: a verdadeira videira. Por isso orar pela unidade reflete um tempo de crescimento na fé, na fraternidade para a transformação social. Como experiência concreta de comunhão entre diferentes denominações cristãs, renovaremos nossa consciência: estaremos unidos, somos um no amor de Jesus: “Disse Jesus, eu sou a videira, vós sois os ramos.. permanecei em mim”. É esse o sentido que interessa à Igreja de Cristo. A única alternativa para a autenticidade é a produção dos frutos esperados pelo Agricultor que plantou a videira. “Conheceis a árvore pelos frutos”,  diz o Evangelho.  E Jesus também reclama dos cristãos a unidade com Deus, que ele representa quando ora: “Pai, que eles sejam um, como eu e tu somos um”... para que o mundo creia no evangelho do Reino de Deus, na salvação e na libertação.  

                                                                                                                     

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

www.paoquente.org

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