Esses textos cabem na forma do ecumenismo lembrado na
Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, certamente. As igrejas
ecumênicas terão celebrações em todos os dias, na semana do último domingo
da Páscoa[ss.7o.Dom.]. As Escrituras apontam que Deus quer a unidade de
seu povo. Ezequiel já dissera:
“minha morada será junto a eles” (37,15-28). O salmo lembrará aos
que vêem seus frutos: “Lembrar-se-ão do Senhor, e a ele se converterão
os confins da terra” (v.27). “Como poderei entender, se alguém não
me explicar?”, registra, hoje, Lucas em Atos. O etíope creu,
quando o Reino lhe foi apresentado: o Evangelho e os frutos que Deus
pretendia, e foi batizado. Então, como responderemos a Deus? Certamente
com gratidão, porque fomos chamados à unidade e à obediência: “Uma só
fé, um só batismo, um só Senhor”, os remanescentes de Paulo afiançam,
dirigindo-se aos cristãos em Éfeso (Ef 4,1-6).
O amor a Jesus, traduzido em
união, comunhão e sintonia com sua causa, caracteriza a unidade cristã.
Constituem uma só coisa com Cristo, raiz da fé. A Semana de Oração pela
Unidade é um tempo de crescimento na fé, na fraternidade, na comunhão e na
transformação social, como experiência concreta de comunhão entre
diferentes denominações cristãs. É uma oportunidade não só para a oração
comum e para a oração pela unidade em cada igreja, mas também para buscar
e acolher mais irmãos e irmãs para que se juntem na caminhada ecumênica.
Em sua persistente missão de acolher e partilhar, o CONIC
(Conselho Nacional de Igrejas Cristãs)
conseguiu, ao longo de seus 24 anos de existência, tecer uma consistente
rede de parceria social entre igrejas, Conselhos de Igrejas e organizações
ecumênicas. O organismo ecumênico nacional quer expandir e consolidar
ainda mais esta rede, informa a agência ALC
Notícias.
João 15,1-8 –
No início da primavera
o tempo da Páscoa, na Palestina, ocorre nessa estação, e o viticultor seleciona os
melhores ramos, podando-os e eliminando os que não serão produtivos. É a
poda seca, quando os ramos ainda não brotaram. Algum tempo depois, quando
os novos ramos já se desenvolveram razoavelmente, a ponto de mostrar os
cachos ainda pequenos, procede-se à poda verde, eliminando os brotos que
não apresentam frutos. É importante lembrar que sem a poda a videira
torna-se estéril e acaba morrendo. Podar, portanto, não é fazer a videira
sofrer, algo semelhante a um castigo ou punição. Nem mesmo tem o sentido
de “limpar” a videira, e sim de dar condições para a produção em
abundância. Poda é cuidado indispensável, porque sem poda a videira morre.
Uma poda não é uma provação, e sim a graça do renovo pretendido, uma 'denúncia' sobre impedimentos de frutificação. Deus
é extremamente zeloso, cuida da comunidade enraizada em Cristo,
aumenta-lhe a esperança para que produza frutos. Sem a comunidade
(ramos), o projeto do Pai
arrisca-se à esterilidade.
Jesus é a videira, mas os
frutos da justiça e da dignidade reconhecida brotam das comunidades
que a ele aderiram, nascem dos ramos. Mas o texto fala de “permanecer”
(ménete), porque a metáfora refere-se à videira e aos ramos. Estes
estão unidos à videira e de sua seiva se alimentam. Assim acontece com a
comunidade cristã de fé: une-se alimentada pela raiz, pela seiva que corre
pelo tronco. Fala-se do risco de esterilidade de todas as comunidades. Não
basta estar simplesmente unido a Jesus para sempre, como se diz, é preciso
demonstrar a unidade. Mais ainda: quem não produz frutos de justiça e
direito não poderá afirmar que está unido a Jesus, como o ramo à videira.
Pelo contrário, quem permanece nele produz muito fruto; o que não
permanece nele é jogado fora para secar e ser queimado. Em outras
palavras, quem não luta pelo direito e não se esforça pela justiça incorre
no julgamento, como aconteceu com a videira descrita em Isaías (Is 5,7).
É a
Palavra que põe em contato com Jesus, estabelecendo comunhão e unidade no
mesmo tronco. Somos sustentados pela raiz, como os ramos de uma
videira.A credencial é apresentada pela palavra “permanecer”
(ménete) que aparece
sete vezes no trecho dos vs. de 4-7 (cf./cmp. Jo 1,39). O amor é o
alimento e ao mesmo tempo o sentido para se “permanecer em Cristo”.
Contrariando a mentalidade do tempo, segundo a qual as pessoas se tornavam
puras à custa de ritos de purificação, como sinal de pertença, Jesus
garante que a verdadeira pureza de uma comunidade consiste em acolher a
Palavra que ele comunica. É ela quem purifica, liberta e capacita para a
missão. Assim, nenhum 'ramo' se achará como 'raiz', ou 'tronco' da
videira. A principal credencial da comunidade de fé é ter ouvido a
Palavra. Ela é privilegiada por ter ouvido (do verbo akuo) a Jesus
e de exercitar a 'acuidade', no sentido completo da atenção e da
obediência: “Vocês já estão purificados por causa da Palavra que eu
lhes falei” ... e vocês ouviram! Está implícito (v.3).
Portanto,
o critério para sabermos se a comunidade de fé permanece ou não em Cristo
são os frutos da justiça e do direito que ela produz, resposta concreta à
Palavra: frutos do amor (misericórdia, cuidado, compaixão, fraternidade,
solidariedade). São os frutos que identificam uma
comunidade cristã, inclusive. Porque estes também a levarão à indignação,
à não-tolerância, se não existe justiça e os direitos à dignidade das
pessoas não são observados no meio em que a comunidade se manifesta (que é
a poda saneadora...). Nesse
clima, nenhum pedido ficará sem resposta, nenhum esforço será inútil. A
alegria do agricultor (Deus) é ver a videira carregada de bons frutos. A
glória do Pai é a comunidade comprometida com sua causa (o Reino); uma comunidade fortemente unida a
Jesus, raiz da nova vida, cujos frutos são justiça, direito,
solidariedade, fraternidade e amor, reflete a glória do Pai. Isso é a
síntese do legado de Jesus à comunidade; essas são as condições para que a
comunidade cresça e desenvolva sua missão, alimentada em fé e esperança.
Jesus se declara a videira verdadeira, o agricultor é o Pai. No passado,
Israel fora comparado à vinha
(cf. Jr 2,21; Is 5,1; 5,7) que não correspondera às expectativas de
Yahaweh, na esperança de vê-la produzir frutos do direito e justiça, a
plantara. Mas os frutos dessa vinha foram a transgressão dos direitos
humanos e a violência contra a pessoa. Como videira de Deus, Israel é
renovada, "podada" para a produtividade dos frutos que glorificam o
Agricultor que a plantara.
Jesus, agora, denomina-se a si mesmo como “a
verdadeira videira”. Só ele é capaz de produzir os frutos que Deus
espera (direitos fundamentais e justiça social); só nele uma comunidade
pode realizar o que o Pai anseia. Ele se apresenta como a única
alternativa para a realização do direito e da justiça. Nesse sentido ele é
verdadeiro, isto é, autêntico e fiel: a verdadeira videira. Por isso orar
pela unidade reflete um tempo de crescimento na fé, na fraternidade para a
transformação social. Como experiência concreta de comunhão entre
diferentes denominações cristãs, renovaremos nossa consciência: estaremos
unidos, somos um no amor de Jesus: “Disse Jesus, eu sou a videira, vós
sois os ramos.. permanecei em mim”. É esse o sentido que interessa à
Igreja de Cristo. A única alternativa para a autenticidade é a produção
dos frutos esperados pelo Agricultor que plantou a videira. “Conheceis
a árvore pelos frutos”,
diz o Evangelho. E
Jesus também reclama dos cristãos a unidade com Deus, que ele representa
quando ora: “Pai, que eles sejam um, como eu e tu somos um”... para que o mundo creia no evangelho
do Reino de Deus, na salvação e na
libertação.