COMENTÁRIO AO LECIONÁRIO REFORMADO
Por Derval Dasilio
         4o.Domingo do Tempo Comum – Ano “B”

 

Deuteronômio 18,15-20 – A Lei é  dádiva  em nome  da misericórdia de Deus

Salmo 111  As obras do Senhor são a verdade e a justiça

1Coríntios 8,1-13 – “... pecam golpeando a consciência fraca dos irmãos”

Marcos 1,21-28 – “Que temos contigo, Jesus Nazareno”?

 

Quem não quer um “deus” domesticado, preso e alimentado em gaiolas religiosas, cada uma mais certa de sua segurança doutrinal? Gaiolas de arame, de prata ou de ouro, não importa, têm uma finalidade: impedir os vôos do pássaro livre que chamamos Deus. O pássaro preso chora, achamos que está cantando. Até as crianças sabem que não podem prender Deus sem lhe tirar a beleza essencial que, vista em liberdade, inspira os melhores valores do “éthos divino”, transcendências onde se observam o cuidado, a misericórdia, o respeito e a exigência de dignidade humana para todos os homens e mulheres. Por que a tentação da gente religiosa em forçar e manipular a divindade? Por que eu preciso para minha vida de um “deus” doméstico e domesticado, imagem e semelhança do que fazemos uns com os outros, de acordo com nossas conveniências pessoais, ou institucionais?  Voltaire disse, irreverentemente: “Se é verdade que o homem é imagem e semelhança de Deus, é também verdade que (seu) Deus é imagem e semelhança do homem”, referindo-se ao teísmo religioso tão a gosto de tantas lideranças políticas ou religiosas.

Chavões muito ouvidos, ultimamente, “encontro tremendo”, “quebra-de-maldição”, “modelo dos 12 (G12)”, “Igreja-com-propósito”, “avivamento-gospel”, “Diante do Trono”, e alguma coisa mais, sempre em torno de números e dados financeiros (arrecada-se bilhões de reais sem impostos, nesse meio...; fundam-se partidos políticos para defender esses interesses “religosos” no Congresso Nacional), refletem essa realidade que invade nossas comunidades. Pior ainda, os outros cristãos, para eles, fora desse movimento, são de crentes de segunda classe.  Eles, os envolvidos, constituem uma aristocracia espiritual, não mais “amaldiçoados pelo pecado dos pais, das igrejas e da sociedade”; candidatos à prosperidade física e financeira, quanto à saúde e quanto à conta bancária, “tesouros na terra”, na pedagogia da ganância. Precisamos de Lutero, novamente: indulgências são reintroduzidas para o perdão dos pecados e a salvação da almas.

 

Deuteronômio 18,15-20 – A palavra que identifica este livro provém, talvez, do uso encontrado na Bíblia dos Setenta (Septuaginta), escrita em grego (os livros dêuterocanônicos, confundidos com apócrifos, são outra coisa importante, nessa versão de 250 aC.), mas também das traduções da Bíblia Hebraica (que identifica apenas o início da série de sermões: “... estas palavras”). Deuteros  e nomos significam, respectivamente, “segundo(a)”  e  “lei”. Este livro foi elaborado dentro de um movimento profético de reconstrução religiosa do “javismo”, numa série de compilações documentais ao largo de uns 600 anos, provavelmente. A origem dos materiais é diversa, mas a preservação da “tradição oral” transmitida desde a confederação das tribos de Israel (1250 aC, aproximadamente) reflete o tempo dos Juízes, antes da monarquia que se instalou por volta de 1050 aC.. Outra parte provém da “reforma de Josias”, elaborada por sacerdotes fiéis ao javismo, até alcançar a forma que hoje conhecemos, tempo do extermínio dos sacerdotes contaminados com a religião Cananéia.

De que tratam os vários sermões do profeta deuteronômico?  São mensagens que insistem em fortalecer relações inter-humanas baseadas na justiça; a Lei não é um compêndio de decretos isolados, cada preceito defende a vida e a dignidade de cada pessoa da comunidade; a Lei expressa a vida íntima da comunidade, no sentido de que cada pessoa tenha  o mínimo para sobreviver e ninguém viva em situação de opróbrio  e miséria (“Não existirá pobres entre vós” - Dt 15,4-5). A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora, uma outorga de Yahweh para todo o povo. Envolve terra, moradia, trabalho, responsabilidade social para com os deserdados. O profeta está preocupado com coisas com manter vivo o espírito da Lei, tema recorrente no Deuteronômio. Para que? Para que a Lei não se transforme  em formalidade e sim em meio para atender às necessidades vitais da comunidade de fé e de cada ser humano.

 

Marcos 1,21-28 – A capacidade de discernir cada situação particular foi uma das coisas que as multidões mais admiravam em Jesus. Enquanto os mestres da religião respondiam com explicações detalhadas, exaustivas, citando códigos, leis, regulamentos, preceitos e doutrinas, Jesus respondia com a verdade simples e cristalina. Estava interessado em cada situação particular do ser humano, especialmente aquelas sobre o tolhimento da liberdade, no tormento do controle das consciências que impediam a espontaneidade da fé. Este interesse não encobria uma ideologia política ou religiosa. Muitos movimentos e grupos religiosos mostram interesse pelo indivíduo enquanto servem como prosélitos de causas materialistas, mercadológicas, sem comunhão (koinonia) e sem diaconia (serviço). Jesus declarou-se abertamente contra  a idolatria da letra morta, ou seja: a Lei; contra o sábado e suas exigências cultuais legalistas; contra os costumes, prescrições, que engessam a misericórdia, o cuidado, o serviço ao próximo.  Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião sem misericórdia e solidariedade.

            Precisamente por isso, a luta de Jesus contra os demônios (sistemas de pensar) foi uma luta contra as ideologias instaladas nas sinagogas e no Templo. Jesus não se identificou com “propósitos religiosos”, especialmente os de ganhar dinheiro; não aprovou oportunistas e exploradores da credulidade popular, invadidos por “espíritos imundos”. O povo simples se encantava com a ousadia de Jesus expondo à luz do dia a ideologia religiosa reinante, a mesma que sustenta pessoas e grupos até nos dias de hoje, propondo “ajuntar tesouros na terra”.

            Que faremos, para seguir Jesus? Ouviremos suas propostas ou ouviremos os encantadores de multidões fascinadas com o brilho grosseiro das ideologias de prosperidade, igreja-com-propósito-de-arrecadar-dinheiro-e-poder, avivamento-gospel, e outras modas desse tempo? O caráter normativo do Evangelho há de nos lembrar: o Reino de Deus está diante nós. Aos pobres, desfavorecidos, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado... e “bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc 7,23). Expressa-se ai o centro vital da mensagem de Jesus. É esse o sentido que Jesus dará à sua hermenêutica fundamental: preservar a vida, a dignidade das pessoas, a intimidade e liberdade de cada ser humano. Isso significa que Jesus sabia das palavras de Jeremias: “... quando cada um levará a Lei  no coração”. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo. Envolve terra, moradia, trabalho, responsabilidade social para com os esmagados deste mundo. O seguimento de Jesus envolve a Salvação sem intermediações humanas ou religiosas.

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 
 
 
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