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4o DOMINGO DA QUARESMA – ANO ‘B’ 

4o.DOMINGO DA QUARESMA – ANO “B”

 

Números 21,4-9 –  A serpente livra da morte repentina...

Salmo 107, 1-3; 17-22 – Comunhão do Oriente ao Ocidente

Efésios 2,1-10 – A graça exige uma resposta de fé

João 3,14-21 – Na crise, um novo nascimento

  

João 3,14-21   Jesus já respondera a Nicodemos sobre os significados do seio materno, águas primordiais, ambiente de onde nascem todas as coisas (Gn 1,2: “a terra era sem forma e vazia, e o Espírito pairava sobre a face das águas...”). Segundo a tradição, a água é o elemento feminino da Criação. O Espírito, em hebraico, também é uma palavra feminina (rouah), porém usada como se fosse o elemento masculino da fecundação, Pai e Mãe, ao mesmo tempo. Em grego (pneuma), o sentido é o mesmo: um vento, alento, sopro criador. A objeção: “como pode um homem velho nascer de novo?” já havia sido respondida, à feição da tradição hebraica.  Aquele que nasce vê a luz de um novo dia (Sl 49,20; Jó 3,16); o novo nascimento permite visões, como nas noites iluminadas por utopias libertadoras.  O Reino de Deus é o raiar de um novo dia no cosmos inteiro.

 

Sentença após sentença, João encadeia os temas da fé na salvação, tudo retirado do cotidiano, das coisas terrenas, cenários obrigatórios para identificar-se a intervenção de Deus: semente (spermatos), água (‘udatos),  são palavras-chaves para se compreender a  geração do novo, da novidade de vida.  Tudo por obra do Espírito. Coisas terrenas  têm conteúdos de salvação. Coisas celestes indicam o itinerário do Filho de Deus que desceu para, no ventre da humanidade, gerado como filho da humanidade, homem, dar testemunho da Salvação. Na figura da serpente de bronze içada num estandarte, os mordidos de serpentes se curavam, em Números 21,8-9. É a imagem de Jesus exaltado na cruz, mártir da causa do Pai.  A serpente livrava de uma morte repentina, no Primeiro Testamento, Jesus crucificado dá a vida eterna.

 

Finalmente, a não-salvação pode ser entendida aqui como “julgamento” para condenação previamente anunciada, em função da incredulidade.  Ela fecha homens e mulheres para o dom do amor, por isso está condenada.  Não crer é um ato positivo de liberdade, subtrair-se da salvação é uma escolha diante da decisão requerida. Chegamos ao ápice dessa perícope: o momento de crise! No grego, krisis significa julgamento e condenação ao mesmo tempo. Mas também significa distinção e separação: “no princípio, Deus separou a luz das trevas”, polaridade inevitável (Gn 2,4). João está dizendo: Jesus, ao vir ao mundo, à luz (luz = photós, imagem bem contemporânea...), revela-se atuando com um julgamento de separação quanto aos atos humanos contrários às intenções do Deus Salvador. O tema é clássico, também apresentando a polaridade  da luz e das trevas, inversão de valores. O perverso busca a escuridão para esconder suas indignidades, injustiças, para alcançar a impunidade. A escuridão é também o refúgio de quem comete um delito.  Mas Nicodemos se expõe ao julgamento de suas questões sem reconsiderar sua realidade humana. A luz de Jesus é também uma realidade para a fé que responde à gratuidade divina, na reconciliação, na solidariedade, na busca de dignidade humana.  Nicodemos não escapa à espiritualidade simplesmente reformista, dependendo de provas, de sinais externos, para uma compreensão terrena da gratuidade divina à luz da razão. O mistério da Graça, da iniciativa de Deus na direção do homem e da mulher, dos oprimidos pelos pecados estruturais na sociedade humana, nas expressões identificados pelos sistemas de pensar, só poderá ser compreendido nas respostas  que direcionam à plenitude, vida plena e abundante, conforme a promessa do Evangelho. Plenitude é tema da teologia de Paulo, também, assim como a “largura”, a “extensão”, a “altura” e a  “profundidade”: ... “nada poderá nos separar do amor de Deus” (Rm 8,38-39).

 

Efésios 2,1-10 – Esta teria sido uma carta escrita muitas anos depois da morte de Paulo. Sua teologia, ao que tudo indica, foi preservada? Não em tudo.  Há uma mudança na escatologia, agora interpretando um tempo futuro, uma escatologia adiada, porque os crentes “estão salvos”por graça de Deus.  A eclesiologia toma forma  diferente. As igrejas locais, domésticas, começam a ser substituídas, o vocabulário denuncia a existência incipiente de “templos” cristãos; a igreja sociológica não merece tanta atenção como a “igreja universal”.  A polêmica legalista entre os judaizantes e helênicos gentílicos parece também superada. A parousia está distante.  Por isso é preciso “organizar a esperança”. Uma abordagem especial sobre a conduta dos cristãos é tomada do imaginário religioso infestado de demônios, poderes espirituais malignos, desejos impuros,  perversos, como sinais de “morte” na vida da comunidade, os quais estão sujeitos à ira divina, ou condenação (Ez 18,13-20; 33,8-10; Rm 1,18). A “salvação”  é “relativizada”, a graça exige uma resposta de fé. 

 

Cabe, aqui, uma observação: o primeiro passo para a salvação foi a passagem da morte (pecado) para a vida (graça).  Ao cristão é dado participar da esperança da ressurreição, agora. As tarefas que lhes cabe (obras) não são obrigatórias, mas devem ser executadas com espontaneidade, como conseqüência da salvação. Para a fé cristã, a morte não tem a última palavra, é preciso viver em plenitude (plerós) a dádiva da vida. O Deus gracioso deve ser lembrado, tal como no Primeiro Testamento: rab hésed (rico em misericórdia);  rab rahum (... em amor); rab ranum  (... em favor); rab tub (... em bondade). Em torno da gratuidade podemos formar uma unidade na solidariedade para a aproximação da paz; buscando sempre a reconciliação, cidadania responsável, comum na família e na comunidade, exercitamos uma resposta à salvação gratuita da parte de Deus. A graça de Deus não necessita de retribuição, também não se vende no mercado religioso. Porém, a graça exige resposta ao sim de Deus para socorrer-nos em sua infinita misericórdia. Daremos boas-vindas à iniciativa  de salvação que vêm de Deus?

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

Teólogo filiado à ASETT

 

 

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