QUARTO DOMINGO DA PÁSCOA – ANO “B”

 

Atos 4,5-12 – Da obediência cega que não pergunta.

Salmo 23 –  O meu pastor nada deixa faltar.

1João 3,16-24 –  Aprender com o amor de Deus.

João 10,11-18 –  O Bom Pastor ‘dá vida’ às suas ovelhas.

 

        Não podemos pronunciar a palavra “pastor” sem que a memória histórica, ou o imaginário coletivo, nos obrigue a evocar os rostos patriarcais de Abraão, Isaac e Jacó, primeiros pais da nossa fé. Precisamos de condutores que nos transportem em segurança pelos caminhos do tempo e da vida de fé. A imagem idealizada do pastor, bíblica, evoca a vida no deserto, nômade, substituída pela proximidade dos grupamentos pastoris, acampamentos ou vilas com população sedentária. Na Palestina há duas épocas bem definidas influenciando a movimentação pastoril. Uma de umidade abundante, depois do inverno, outra de intenso calor, secura, quando o verdor desaparece dos campos, reina uma implacável seca. Dois paralelos: um de vida calma para o pastor, respeitando-se o cotidiano, outro de incertezas, no rareamento alimentar. No segundo plano estão as dificuldades, o pastor é tudo para suas ovelhas. É guia, companheiro de  destino, garantia de sobrevivência.

 

        O Evangelho deste domingo, segundo João, aponta o que Jesus significa para as suas ovelhas: pastor modelo, ego eimi poiemen ‘o kalós, uma imagem compacta de segurança diante de uma realidade concreta no enfrentamento do cotidiano. Não se trata de uma abstração, ou mera representação poética. Estamos diante de fatos concretos. Sobretudo quando o evangelista lembra: “Ele é o pastor a caráter, agente do bem, capaz de dar a vida por suas ovelhas”. As evocações da tradição, quando compreendemos o que significa a frase “dar a vida por...”, não nos permitem pensar no suicídio de uma liderança que se coloca como vítima exemplar, heróica, enquanto o rebanho é devorado pelos lobos. Mas, se exigirá sacrifícios e enfrentamentos dolorosos, necessários às vezes, com exigência de se correr risco de vida lutando contra feras que ameaçam o rebanho, para defendê-lo e protegê-lo. Clarear a imagem de Jesus é uma exigência para os discípulos de todos os tempos, para o rebanho de Deus e cada pastor, hoje.

 

Certamente, no contexto atual, há tantas e tantas imagens de Jesus que não se exclui o risco de confundi-lo com um fantasma, ou com uma imagem neutra, distante da realidade humana. Aprecia-se consideravelmente a figura piedosa, sofrida, mas sem eficácia espiritual, no Cristo de Deus. Mas os discípulos tinham em suas mentes o rosto, a identidade do Cristo com quem haviam compartilhado sua luta. Conhecem-no como um profeta combativo, contestador da teologia fatalista. Lembram-se do Mestre que questiona o legalismo escriturístico na Torah; o culto religioso sem o sentido verdadeiro de aproximação do Pai, em liturgia emocional e intimista; o orientador espiritual que lamenta o afastamento “pentecostalista” da shekinah, ou dos essênios, esquecidos de seus profetas e  quanto às propostas do Reino; o homem ético que denuncia a falsa moral e  o desprezo ou omissão da solidariedade.

 

É verdade que os discípulos tinham expectativas sobre ele e por isso sentem que têm de segui-lo, inclusive. Instruídos, contudo, sob configurações completamente confusas, como nas imagens que sustentam  ganância da “religião do consumo” e do  “mercado religioso”, apresentados cada vez mais, e com maior intensidade, aqui estará o desafio de hoje para se clarificar a imagem de Jesus como o Pastor fiel que não abandona suas ovelhas, mesmo as desorientadas pelos lobos disfarçados de pastores. As feras estão soltas, têm "propósito", são ganaciosas, insaciáveis, não se importam de ter-sem-ser.

 

O texto mantém duas expressões fortes, cada uma com sua importância, por vez: - Jesus é categórico e incisivo quando diz que “dá a  vida por” e que “dá vida às suas ovelhas”.  Há diferenças marcantes para a hermenêutica (Jo 10,10-11;17).  A soteriologia indicará: Jesus “dá a sua vida” voluntariamente, sacrifica-se; enfrentando o legalismo, a rejeição às propostas de justiça e paz, bem como o reinado do Pai,  Jesus morre para a salvação de todos. Sua relação com as ovelhas é  real, pessoal, presencial, situacional, íntima. Ele “conhece” as suas ovelhas. Essa relação também representa o que o Pai significa para todos nós: ele, Jesus, faz tudo isso como executor fiel das tarefas designadas pelo Pai. Sua relação pessoal com as ovelhas equivale às relações que todos temos com  Deus. Sem tirar nem por.

 

        Segundo paralelo: Jesus “dá vida às suas ovelhas”. Não se trata de submissão, heroísmo pessoal, aqui, mas de condições de sobrevivência. As referências à denúncia dos lobos vorazes, politiqueiros, interesseiros, manipuladores da religião, equivalem às que se fazem dos descuidados, desinteressados, omissos, como aponta Ezequiel: “Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos!(...) À ovelha fraca não fortalecestes, à doente não curastes, não aplicastes curativos nas suas feridas, não buscastes as desgarradas, não procurastes as perdidas e oprimistes as que resistiam ao teu comando” (cf. Ez 34,2-4, TEB, BJ; BP; BLH - comparadas).

 

Por fim, como Ezequiel, João trata dos indivíduos e dos dirigentes dos rebanhos de Deus. O texto de Ezequiel é praticamente parafraseado por João, em alguns pontos. Deve-se ler também Jeremias, capítulo 21. Os esquemas mostram os pontos nevrálgicos da questão: o pastoreio infiel polarizado com o pastorado do “Bom Pastor”, articulados na admoestação joanina.  Há um julgamento para situações entre pastores e rebanho. Os exploradores e as vítimas estão sob observação. Mesmo na condução do rebanho, caracterizadas na permissividade e  no desarvoramento do rebanho desencaminhado, há esperança de reação e salvação.

 

      Nas leituras iniciadas com Atos dos Apóstolos encontramos de novo Pedro, que se dirige ao povo de Israel, que o segue. Está convidando à conversão. Pedro tranqüiliza os seus ouvintes, faze-os ver que tudo têm sido fruto da ignorância, da obediência cega que não pergunta, e ao mesmo tempo convida-os a acolherem o Ressuscitado como o  último e definitivo dom de Deus. A última palavra pertence ao crucificado e ressuscitado. A morte de Jesus representa para o crente o sacrifício expiatório suficiente para o perdão dos pecados. Não existem mais  ressentimentos nem vingança, apenas o convite ao arrependimento para se receber a plenitude do amor e da misericórdia do Pai, que se realiza em confiança e segurança, enquanto se  recupera a filiação perdida na desobediência (Atos 4,5-12). A Páscoa é também um tempo de Salvação.

 

 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

www.paoquente.org

V-I-S-I-T-E!

 


 
 
PARA ACESSAR ARQUIVO DE MENSAGENS ANTERIORES
CLIC ABAIXO:
 
 

  Página Principal      Indique este site             Imprimir