COMENTÁRIO AO LECIONÁRIO REFORMADO
                   3o.DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”
    
             
Jonas 3, 1-5.10 – Os ninivitas converteram-se a contra-gosto do profeta...
Salmo 62,5-11 – Minha alma espera em silêncio
1Coríntios 7, 29-31 – As coisas passam, neste mundo
Marcos 1,14-20 – Convertei-vos e crede no Evangelho!
 

Perguntas: quando se trata de pregar o evangelho a outro que não é cristão, a conversão consiste em mudar de religião e ou simplesmente adotar a causa de Jesus? O conceito de conversão necessita também alguma reformulação entre os próprios cristãos? As leituras de hoje podem lançar alguma luz sobre isso. O evangelho de hoje é, por assim dizer, “o primeiro sermão de Jesus”. Marcos o coloca ao início de seu evangelho como um manifesto programático. Possui todos os elementos centrais do que vem a ser a pregação  de Jesus. Todo o evangelho põe em relevo a importância central do Reino de Deus na missão de Jesus. O Reino não é mais um elemento, mas o centro do mesmo. Se não se entende isto, não se entende a Jesus, nem se entende o que é ser cristão.

 
Jonas 3, 1-5.10 - Esta leitura do livro do profeta Jonas, quer preparar a leitura do evangelho de Marcos que começamos hoje e que continuaremos ao longo de todos os domingos do tempo comum deste ano. Como Jesus, Jonas também é enviado por Deus a proclamar sua salvação, a chamar os seres humanos à conversão. Como Jesus, Jonas também experimenta a fragilidade humana, a tentação de fugir, de não carregar o peso da vontade de Deus que se lhe oferece. Finalmente Jonas vai à cidade pagã de Nínive, a grande capital do império assírio, e proclama, como Jesus, mais tarde, a vinda salvadora de Deus, ante a qual não resta outra atitude que a de converter-se.
Jonas é uma denúncia contra todo nacionalismo, centralismo, fundamentalismo, anti-ecumenismo, integrismo, racismo, que pretenda excluir a qualquer ser humano da Graça amorosa de Deus Pai. O pequeno livro de Jonas foi escrito numa época difícil para o povo judeu, quando se sentia a tentação de fecharem-se privilégios, considerando-os como escolhidos exclusivos. Também, a tentação de condenarem todos os demais povos, os quais não partilhavam de sua cultura, de sua fé religiosa e de sua história. Através de Jonas, Deus está dizendo aos judeus que sua salvação há de ser partilhada com todas as nações, inclusive com as nações opressoras, como era a nação dos assírios. Lição de universalismo, de máxima tolerância, de ecumenismo e de abertura amorosa aos braços de Deus, que deseja acolher a todos os seres humanos em sua casa. Algo tão válido em nossos tempos de exclusivismos e fundamentalismos, como nos velhos tempos do Antigo Testamento.
Coríntios 7, 29-31 também pode se iluminar hoje com a do Evangelho de Marcos: diante do reinado de Deus que se instaurou pela atuação de Jesus – sua pregação, seus milagres, suas controvérsias, especialmente as de sua morte e ressurreição – todas as realidades humanas adquirem um novo sentido: comprar, vender, chorar, rir, casar ou permanecer celibatário, tudo é diferente e tem um valor distinto. O absolutamente definitivo é o exercício da vontade salvífica de Deus, que Jesus veio pôr em prática. Por isso, Paulo pode afirmar que “a apresentação (a vez...) deste mundo termina”, ou seja: que Deus faz novas todas as coisas realizando a utopia de seu Reino, onde pobres e tristes, enfermos e condenados, excluídos e ofendidos, são resgatados e acolhidos; onde ricos, bem-postos e poderosos, são chamados urgentemente à conversão.
Marcos 1, 14-20 - Depois de narrar o início do evangelho com João Batista batizando a Jesus, com a unção messiânica de Jesus no rio Jordão e com suas tentações no deserto, Marcos relata o início da atividade pública de Jesus: é o humilde carpinteiro de Nazaré que agora percorre sua região, a próspera, mas mal falada Galiléia, pregando nas aldeias e cidades, nas encruzilhadas do caminho, nas sinagogas e nas praças. Sua voz chega a quem quer ouvi-lo, sem exigir nada em troca. Uma voz clara e vibrante como a dos antigos profetas. Marcos resume todo o conteúdo da pregação de Jesus nestes dois momentos: o reinado de Deus começou – pois terminou o prazo de sua espera ; perante o reinado de Deus só cabe converter-se à causa de Jesus, o Reino de Deus, acolher e aceitá-lo com fé.

         Os judeus que escutavam a Jesus recordavam muitos governos: o mui recente reinado de Herodes, o Grande, sanguinário e ambicioso; o governo dos asmoneus, descendentes dos libertadores Macabeus, reis que haviam exercido simultaneamente o sumo sacerdócio e haviam oprimido o povo, tanto ou mais que os invasores gregos, selêucidas. Recordavam também os antigos reis do remoto passado, convertidos em figuras de lendas douradas. Davi e seu filho Salomão, e a longa lista de seus descendentes que por quase 500 anos haviam exercido sobre o povo um poder totalitário, governando pela violência. Foram quase sempre tiranos e exploradores, os reis de Israel. De que rei falava agora Jesus? Daquele anunciado pelos profetas e esperado com ânsias pelos justos. Um rei divino que garantiria aos pobres e aos humildes a justiça e o direito, e excluiria de sua vista os violentos e opressores. Um rei universal que anularia as fronteiras entre os povos e faria confluir a seu monte santo a todas as nações, inclusive as mais bárbaras e sanguinárias, para instaurar no mundo uma era de paz e fraternidade, só comparável à era paradisíaca anterior ao pecado na Queda.
 
Este reinado de Deus que Jesus anunciava há 2000 anos pela Galiléia, continua sendo a esperança de todos os pobres e oprimidos da terra, e está em andamento desde que Jesus o proclamara Os que o seguem anunciando seus discípulos, os que Ele chamou em seu seguimento para confiar-lhes a tarefa de pescar, trazendo às redes do Reino os seres humanos de boa vontade. É o reino que a Igreja deveria proclamar e que todos os cristãos do mundo se empenham em construir de mil maneiras, reflexos da vontade amorosa de Deus: curando os enfermos, dando pão aos famintos, acalmando a sede dos sedentos, ensinando aos que não sabem, perdoando aos ofensores e acolhendo-os na mesa fraterna da comunhão; denunciando com palavras e atitudes os violentos, opressores e injustos. A nós corresponde, como Jonas, Paulo, retomar as bandeiras do reinado de Deus e anunciá-lo em nosso tempo.
[Pesquisa e texto adaptado do www.servicioskoinonia.org - data válida: 17.jan.2005; Fonte das leituras: Manual do Culto – Igreja Presbiteriana Independente: Lecionário para o Tempo Comum]
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Derval Dasilio
Pastor da Igreja Presbiteriana Unida
          
 
 
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