3o. DOMINGO DA QUARESMA – ANO ‘B’

COMENTÁRIO AO LECIONÁRIO REFORMADO

Êxodo 20,1-17 – A Palavra está firmada na Aliança

Salmo 19 – Os preceitos do Senhor são retos

1Coríntios 1,18-25 – Só a ignorância desculpa o erro

João 2,13-22 – Fizestes da casa de meu Pai um mercado...

 

A Quaresma prepara para a Páscoa, a festa mais importante do Primeiro Testamento, pois recordava a libertação da escravidão no Egito. Celebrá-la significava continuar o processo de libertação do povo em novos tempos e circunstâncias. Jesus sobe a Jerusalém, mas não como piedoso peregrino que oferece sacrifícios de animais e paga os impostos. Sua ação contra o Templo, símbolo centralizado da religião, é radical, pois a Páscoa que aí se celebra não é festa de liberdade e vida para o povo, mas festa da opressão e da exploração. Essa era a situação do Templo na época de Jesus: um grande banco, controlado pelo poder econômico, político e religioso (que também impunham as ideologias, ou sistemas de pensar, ao povo).  De fato, o que Jesus encontra no Templo é a religião transformada em comércio. A religião de mercado se impõe. Propositistas imaginam que são empresa e mercadores, mandam e orientam (como nas igrejas-com-propósito). Há “banqueiros”, financeiras, comerciantes e compradores desse produto. Tributaristas religiosos cuidariam dos aspectos “legais” da exploração.

 

O Templo era ao mesmo tempo uma secretaria fazendária, agência bancária e shoping religioso com clientela cativa (emporion), sem outra alternativa senão consumir obrigatoriamente sob indução religiosa. [Neste tempo da Quaresma, em Vitória-ES, diante das câmeras, um líder da ADHONEP – Associação de Homens de Negócios Evangélicos, cuja sede se encontra numa igreja evangélica batista, segundo consta, foi preso pela Polícia Federal, juntamente com o suplente do senador Magno Malta, do bloco evangélico no Congresso Nacional, também pastor evangélico. Era trancafiado enquanto exibia um exemplar da Bíblia diante das câmeras. A acusação era de roubo ao erário e formação de quadrilha. “Usam-se igrejas evangélicas como fachadas, como ‘negócios religiosos’”, sugere a imprensa - Cf. Jornal A Gazeta; Rede Globo de Televisão: 8.março.2006].

 

João 2,13-22 – Três semanas antes da Páscoa (greg.pásca/heb.pessah) os arredores do Templo de Jerusalém se tornavam um grande mercado. A organização sacerdotal enriquecia com o aluguel dos espaços para as barracas dos vendedores e cambistas. Os animais criados nos latifúndios eram conduzidos a Jerusalém e vendidos a preços que, nessas ocasiões, aumentavam assustadoramente. Todo religioso maior de idade devia ir a essa festa e pagar os impostos previstos para o Templo (hiero = raiz de hierarquia). O Templo adotara a moeda “tíria” como moeda oficial (cunhada em Tiro, cidade pagã), pois ela não desvalorizava com a inflação que, na época de Jesus, era muito alta. A ironia disso está no fato que a Lei proibia o ingresso no Templo de “moedas pagãs”. Mas os gananciosos dirigentes religiosos burlavam a Lei em vista de seus privilégios. Os cambistas faziam a troca.

 

Abrigados no centro da opressão e da exploração, o Templo, em nome da religião, os dirigentes sabiam muito bem manipular em vista da preservação de seus lucros e privilégios. Jesus fica irado, furiosamente expulsa a todos do Templo. Com isso mostra que chegaram tempos novos, tempo da intervenção de Deus (kayrós), tempos em que a religião não pode ser misturada com comércio. Ao expulsar todos do Templo, Jesus diz aos que vendiam pombas: “Não transformem a casa de meu Pai num mercado (emporion)”. As pombas eram o sacrifício dos pobres, tinham de pagar muito caro para “ter acesso a Deus”(cf. 1,17).

 

Os dirigentes religiosos reagem com energia diante do que Jesus faz. De fato, de que modo reagem os que, como a nobreza sacerdotal daquele tempo, mancomunada com as elites políticas, vêem se desfazer qual fumaça sua fonte de lucro baseada na religião? Por isso os dirigentes querem saber com que autoridade (sinal?) Jesus está fazendo isso. Quem o autorizaria? Em vez de lhes dar uma resposta direta, Jesus acrescenta uma denúncia velada: “Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei” (versículo 19). Nessa afirmação misteriosa está presente a denúncia de que o poder religioso será responsável pela destruição do corpo de Jesus (morte), mas Jesus irá ressuscitar, destruindo o poder religioso que gera morte. As lideranças religiosas, bem como os discípulos de Jesus, entendem esse gesto como uma reforma do sistema religioso. De fato, os discípulos pensam que Jesus tenha feito isso por seu zelo pelo Templo. Isso demonstra que para aderir a Jesus é necessário longo aprendizado. Só depois da ressurreição é que os discípulos tiveram a compreensão exata do fato: Jesus estava falando do seu próprio corpo (21-22). Por isso acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus (José Bortolini, Evangelho de João, Paulus, 1994).

 

1Coríntios 1,18-25 – O mistério de Deus, antes mencionado, e  um projeto antigo que hoje se realiza e se manifesta, mas sua finalidade é comunicar aos homens a glória de Deus. Os chefes deste mundo são pessoas que devem contar na sociedade (não os demônios). Deveriam ter credibilidade. A ignorância os desculpa em parte. Os “maduros”seriam iluminados? O termo parece ser um qualificativo irônico. Só o Espírito comunica a linguagem iluminada de Deus! Só ele tem intimidade com  a “luz”("... à tua luz vemos a luz" - Sl 36,9).

 

Êxodo 20,1-17 - Moisés e os sacerdotes devem esperar com o povo. Como que reclamando sua função numa ação litúrgica, Yahweh não tolera a proximidade de qualquer impureza cultual. O “círculo” é como um muro que delimita o recinto de um Templo, porque a montanha agora é Templo. A introdução é solene e desusada (20,1). “Palavras”: termo preferido a outros sinônimos freqüentes. São mandamentos, preceitos, decretos, prescrições, ordens (cf. i.e. - Sl 119). Deus fala e empregará a primeira pessoa nos primeiros preceitos. O Decálogo é peça capital no Pentateuco e em todo o AT. O termo grego significa “Dez Palavras” e é tradução do hebraico em Dt 4,13.  Do Decálogo em bloco deve-se considerar: o texto em si, seu lugar atual, seu lugar na tradição. Embora cada mandamento tenha algum paralelo no AT, incluindo textos sapienciais, e alguns tenham paralelos em outras culturas, como bloco unitário e articulado o Decálogo é único. O tom é categórico (apodíctico), os preceitos são breves e gerais, repartidos em deveres para com Deus e para com o próximo, em forma negativa e positiva. Embora breve e seletiva, a série abrange um campo amplíssimo de conduta. Deve considerar-se a articulação do texto hebraico: os preceitos referentes a Yahweh são quatro: o Deus exclusivo, as imagens, o nome e o sábado (A.Shöeckel, Êxodo, Com. Bíblia do Peregrino, p.146). O sexto mandamento não confere com o  nosso, traduzido para o cristianismo como sétimo: trata-se do sábado. Por fim, o decálogo está firmemente travado na Aliança (cf. D.Dasilio, 2o.Dom.Quaresma; Moshe Grylak, Reflexões sobre a Torá, Sefer, 1998).

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

Teólogo filiado à ASET

Professor no Centro de Formação Teológica R. Shaull

 
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