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TERCEIRO
DOMINGO DA PÁSCOA – ANO “B”
Atos
3,10-19 – Arrependei-vos, sejam cancelados os vossos pecados
Salmo
4 – O Senhor distingue o piedoso do justo
Lucas
24,36b-48 – O ressurreto está no meio de nós!
Muitos
se perguntam, hoje, sobre as desgraças de nosso Continente, de nosso país,
de nossas comunidades mais próximas, morros, favelas, e se perguntam
sobre o tempo da intervenção de Deus, kayrós, e os milagres que
se esperam num mundo permeado pela des-graça; por sinais de morte
em toda parte; por desesperança e por entrega à fatalidade, enquanto
outros ensinam submissão a um destino inevitável, ao mal irreversível
(pecados estruturais da sociedade e dos sistemas políticos, econômicos e
religiosos). Fazem parte de um seguimento deste planeta 2 bilhões de
seres humanos entregues à fome, às doenças, ao abandono social, à
marginalização econômica. Sem possibilidades de ressurreição,
entregues às várias mortes sociais, como vivem esses seres humanos?
Cristãos e cristãs, ou adeptos de outras religiões, filhos do mesmo
Criador, Deus!?, encontram-se na mesma situação. Suas comunidades lhes
apontam o saneamento e a salvação, enquanto a anti-graça se lhes é
apresentada sem futuro aqui na terra? Muitos chegam às igrejas, mesmo nos
morros e favelas, centenas delas, e perguntam: vocês nos deram a sopa,
vestimentas, calçado; provavelmente continuarão a dar-nos, mas, o que
vem depois disso?
Evidentemente,
estamos falando de um testemunho valente e corajoso sobre as transformações
possíveis às pessoas e às comunidades ressuscitadas. Na cultura do
conformismo à morte há estruturas feudais ainda vigorando nos tempos
modernos, aristocracias econômicas e elites acentuando profundas
desigualdades. Numa mesma sociedade, profundos contrastes são vistos a
olho nú; há sistemas de pensar de dominação, recalcitrantes,
persistentes, que exigem adaptação, submissão, como se fossem
definitivos, irrefutáveis em si mesmos, sem opção para os que ficam à
margem; há o cultivo de privilégios sociais, racistas, classistas,
funcionalistas; há politicagem e corrupção incorporadas à cultura
nacional, regional ou local (...como a dos políticos que “roubam mas
fazem!”); há a domesticação da mídia para o consumismo sem
sentido e o desperdício de recursos (você deve ter visto no Fantástico!:
pais e crianças receptores e transmissores dessa cultura; enquanto os
apresentadores e entrevistados lavam as mãos, hipocritamente: – “isso
é com os outros...”); há a religião de mercado que vende a "graça
barata" em cada esquina.
Se
há impotência, o desespero pode ser aproveitado no instilar de falsas
esperanças, de religiosidade conformista; de espiritualização da miséria,
do medo, do sofrimento na direção de realidades sobrenaturais distantes
do mundo dos homens e das mulheres, os oprimidos deste mundo sem esperança
de transformação. O Ressuscitado, porém, saúda a fé das suas
comunidades, suas mãos e o lado do peito conservam os sinais da crucificação,
provas de sua paixão, morte... e ressurreição: vitória sobre a morte.
Aquele que está vivo diante de seus olhos é o mesmo que foi pregado na
cruz, o mártir da causa de Deus; o Reino da vida tem um símbolo irrefutável
de vitória. Começou a Páscoa, a nova criação, o novo ser humano
ressuscitado para a vida plena.
Lucas 24,36b-48 – O cerne da fé cristã é a morte e a ressurreição
de Jesus. As mais profundas raízes de nossa existência, o eixo da vida,
sabem expressar esses significados. O fato de todos os viventes caminharem
em direção à morte, cumprindo as curvas de ascendência e descendência,
biologicamente, são observados histórica e existencialmente. O que
significa um grande terror pode também simbolizar uma resposta que desfaz
o medo e alimenta a esperança. Seguindo a Jesus, andando com ele nos seus
caminhos, descobrem-se os sentidos da ressurreição. Quando o salmo diz: “a
memória do justo dura para sempre”, passamos a compreender melhor
porque Jesus foi chamado de o Justo, o ressuscitado que está vivo porque
Deus restaura a vida na memória dos homens e das mulheres, por causa da
justiça, dando continuidade à Palavra criadora que nos resgata de todas
as mortes. Desaparece o Jesus pietista:“Os
dias da ressurreição foram, provavelmente, vivenciados pelo círculo dos
discípulos (e discípulas) de Jesus, não só posteriormente, mas
originalmente, como sinal do
dia do Senhor; como começo da ressurreição universal”, (A.Shilatter,
cit. J.Jeremias, in: Teologia do Novo Testamento). Necessitamos
compreender isso.
Essa
convicção é o alicerce da tradição. Os discípulos estavam certos de
serem testemunhas da irrupção do novo éon (tempo cósmico = um
tempo que não é “tempo”, que na verdade é a eternidade): os mortos
ressuscitam, a reviravolta está acontecendo no kosmos (L.Goppelt,
Teologia do Novo Testamento). Tudo acontecia não isoladamente, mas em
ligação com muitas ressurreições. No caminho dos homens e das
mulheres, contudo, outras possibilidades despontam, e se destacam, porque
são testemunhos do Senhor Ressurreto, aquele que também nos oferece a
possibilidade de testemunhar a ressurreição universal: a restauração
da vida no mundo.
Os
discípulos voltam de Jerusalém desconsolados, frustrados, os
fundamentos da fé estão abalados, um “estranho” homem caminha com
eles. No declinar da tarde, a noite já chega, nos mesmos gestos da
primeira eucaristia (eucaristein), antes da morte e da ressurreição,
o Senhor é reconhecido no partir do pão: “ele está entre nós”. A
eucaristia tem agora o sentido do anúncio escatológico no futuro,
enquanto o presente já a realiza na comunhão (koinonia). Ela, a
eucaristia, a Ceia do Senhor, é o sinal do mundo novo, os poderes
deste mundo não têm ingerência sobre ela. Ao contrário, há uma
substituição de relações. O fraternal, comunitário, equalitário, são
dominados pelo novo espírito relacional, norteado pelo Espírito do
Ressuscitado. O acumulativo de riqueza, de força e de poder, gerador
das desigualdades, cede lugar à partilha e ao compartilhar das mesmas
oportunidades. A solidariedade é a chave hermenêutica desse fato eucarístico
de suma importância no Segundo Testamento.
E
aqui cuidaremos de não confundir a bondade, a generosidade dos que detém
poder econômico, político, religioso. Não fazem o que é justo, senão
a sua obrigação, quando agem. Trata-se de uma questão de justiça (dikaiosune).
Justiça social, justiça política, justiça econômica, em todas as suas
implicações. Já não se pode abordar este assunto para interpretá-la
no sentido alegórico ou moral, ou segundo o esquema de uma evolução
histórico-salvífica de promessa e de cumprimento (Ernst Käsemann). Isso
é simplesmente ater-se à “letra”, como diria Paulo apontando a incrível
Graça salvadora (Amazing Grace, do extraordinário hino). O resultado,
descobrindo-se a justiça em função da fé, e não nas obras de
“piedade”, “misericórdia,” “espiritualidade penitencial”; do
“moralismo legalista”, mas no modo de reinar daquele Cristo que
reconheceu também nos ímpios a capacidade dessas obras. A afirmação,
de fato, é esta: celebrar a eucaristia é realizar concretamente a
“fraternidade do partir do pão”, concretamente. A gratuidade
divina nos lembrará disso tudo.
Desse
gesto de partilha nasce o mundo novo, começa a nova história; desse
gesto novas relações entre homens e mulheres se iniciam, superam-se as
desigualdades, as mútuas opressões dos ódios e das intolerâncias;
desse gesto virá o combate à indignidade na marginalização que
retiram os direitos cidadãos, enquanto se reafirmam os direitos humanos,
em toda parte. O dom de Deus
é para todos, sem exclusão. O
círculo completa-se: desse modo Jesus se manifesta no caminho dos homens
e mulheres, “parte com eles o pão”, em ação de graças, eucaristein,
porque ele próprio experimentou esses caminhos, a partir do sofrimento
cruciante de todos os homens e mulheres que padecem sob os poderes deste
mundo. E agradeceu ao Pai. Não
só pelo sofrimento comprometido nas lutas por libertação, mas pela
solidariedade dos discípulos na grande causa do Reino de Deus.
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Derval
Dasilio
Pastor
da Igreja Presbiteriana Unida
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