33° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”

 

1Samuel 2,1-10 – “...os que andavam famintos não sofrem mais fome

Hebreus 10,11-14; 19-25 – É inútil repetir  sacrifÍcios cultuais

Marcos 13,1-8 – Sereis perseguidos por causa do nome...

 

PERSEGUIÇÃO EM TEMPOS ESCATOLÓGICOS

 

Reconhecemos que a religiosidade milenarista ou apocalipsista sobrevive a duras penas diante do surto urbanizador de nossos dias. Enquanto as metrópoles incham e cresce a vida subumana nas periferias, uma religiosidade mais “prática”, propositista ou retributivista (prosperidade, igreja em células, etc.) inaugura nova espiritualidade. Do alto dos arranha-céus -- até o termo saiu da moda... -- muitos observam: essa religiosidade atenderia melhor e mais eficientemente às exigências de sobrevivência religiosa no mundo impiedoso e sem solidariedade de nossas cidades. Proliferam novas igrejas, cresce a religião sacrificial retributiva.

 

Os sinais dos tempos sempre têm sido um critério profético de como crer, de como viver, como esperar por Deus. Qual seria a razão? Por que os profetas pensavam que Deus não havia abandonado a história, não entregara homens e mulheres à desumanização, à indignidade, à impiedade, à maldade e às maldições próprias do reinado adverso do “mundo do malígno”? Está na mesa, inclusive, uma grande questão: por que Deus abandonaria à sua própria sorte o mundo que ele criou com tanto desvelo, como se vê na abóboda da capela Sistina: fiat lux? Por que estariam descartadas a salvação e a liberação daqueles que ele havia criado, do Oriente ao Ocidente? A  proposta de reinado e governo de Deus sobre o mundo e sobre os homens é a resposta.

 

E a resposta apocalíptica reveladora vem no bojo da conjuntura política mundial, inclusive: Deus intervirá na história “por nós”, nunca “contra nós”. A mensagem de Jesus: “observem os sinais dos tempos”, “vê esse Templo: não ficará pedra sobre pedra...” A religião alienada e alienante está em cheque.Tudo isso traz a convicção fundamental que ele, Jesus, transporta a providência divina, em absoluta fidelidade aos “homens” que participam como atores e coadjuvantes da história da salvação. Jesus Cristo representa a libertação alcançada através do reinado de Deus (Miguel de Burgos).

 

Uma obra de arte é sempre maior que seu intérprete, já ouvimos isso. Ouvimos também que a obra de um bom autor é melhor que o melhor artigo escrito por qualquer crítico literário. Carlos Mesters diz que o assunto “apocalipsismo” merece essa analogia: os escritos são mais importantes que seus intérpretes. A nós agrada a idéia de Mircea Eliade: monstros e fenômenos sísmicos e climáticos povoam o passado mitológico da humanidade, onde elementos cósmicos catastróficos são evocados em situações extremamente críticas, através de uma linguagem reveladora, como a desorganização cósmica onde o poder sagrado se oculta. Uma forma de castigo como o retorno ao caos vem e identifica forças naturais descontroladas operando contra a vida humana enquanto tsunamis, terremotos, transformam a geografia social do mundo. O israelita participava da experiência comparativa de grandes fenômenos sísmicos e de referências a abalos catastróficos nos fundamentos da vida religiosa, política, econômica e social, enquanto afetam sobremaneira a cultura e a vida social. Através da experiência do sagrado, como em todos os povos, simbolismos religiosos interferem na interpretação da catástrofe e do caos. É a crise. O Deus-redentor de Israel, nos primeiros tempos, fazia-se acompanhar de manifestações grandiosas na natureza: Yahweh! Quando saíste de Seir, quando avançaste nas planícies de Edom, a terra tremeu, os céus trovejaram, as nuvens desaguaram em tormentas. Os montes deslizaram na presença de Yahweh, o Deus de Israel (Jz 5,4-5, cf. C.Westwermann, Fundamentos da Teologia do AT, Academia Cristã, 2005).

 

Um certo tipo de mentalidade religiosa sempre propagou o final do mundo. Este virá com uma grande catástrofe na qual todo o mundo criado será aniquilado, pulverizado pelo juízo divino. Somos obrigados a refutar o literalismo existente e dizer: “não é bem assim”... a que mundo, que homem, que Deus, estamos nos referindo (Juan Luis Segundo)? Algo está muito claro nas Escrituras, Deus tem seus próprios caminhos e suas próprias maneiras de levar a cabo suas intenções ao “revelar-se” na história do mundo e do homem. Apocalipse é revelação (apokalipse). A vida humana, se inclui na revelação bíblica. O discurso de Daniel 7,13-14 refere-se à vinda do Filho do Homem. É uma fala pós-exílica, intertestamentária, portanto. Tanto o Judaísmo palestino quanto o alexandrino conheciam esse discurso. Trata-se de um convite para uma olhada no “tempo”, observar as estações, o clima, o brotar dos renovos, porque Deus está presente na história dos homens, como “o Homem” histórico! Ali se observará o triunfo do Bem sobre o Mal; nenhum tirano, nenhum governante insensível à dignidade humana, alcançará o intento da “desumanização” da obra de Deus.

 

O Filho do Homem equivale à imagem e semelhança de Deus, no projeto criador. Os homens e as mulheres são “divinos” como imagem de Deus (Rubem Alves sugere a questão da beleza de Deus, como ética e como estética: “fora da beleza não há salvação”; a beleza de Deus se revela na arte, na vida, na ética, e seus valores são imprescindíveis para a “salvação” do humano e da criação; uma nova linguagem teológica é exigida, para se comunicar a beleza dos valores proféticos, valores mais que sapienciais, ou virtuosos). É assim que a história transformará a vida humana, e se estabelecerá de uma vez por todas como modelo (logotipo), “imagem”, do Reino de Deus. A imagem de Deus, para se fugir do Deus horroroso, cruel, insensível, sem misericórdia e compaixão pelos homens, apocalíptico-literalista, combina com o perdão e a reconciliação da humanidade que se agarra a Deus através dos abismos profundos do sofrimento moral, e também concreto, em razão das injustiças.

 

Marcos 13,1-8 – Devemos reconhecer o apocalipse sinótico nesta perícope. Presta-se a muitas interpretações, sem dúvida. O Templo reconstruído seguidas vezes no sentido de representar a unidade nacional, enquanto representa o centro do culto de Israel, gerador de comportamentos, naquele momento, alienante, intimista, disperso, desconcentrado da originalidade, abriga a idolatria pagã convivente com a “idolatria” da Lei. Toda a precariedade da idolatria, ou do culto idolátrico, manifesta-se em tempos de desgraça (Claus Westermann). Os ídolos como também a própria Lei, impõem pesadas cargas, necessitam de “bestas” para transportar seu peso. Uma analogia é construída sobre a incrível debilidade dos mesmos, diante de um Deus que é independente dos estatutos religiosos: o Deus de Jesus é diferente, é ele quem carrega as pesadas cargas impostas sobre seu povo, e as transportará até o fim (cf.Is 46,1-4). A história se resolve ao pé da letra? É certo que  ante a tirania, de um ou de todos os homens (a sociedade ou a nação), em qualquer seguimento social ou político, em qualquer religião, existirá o chamado “apocalíptico” onde Deus revelará como se deverá resistir (M.Burgos).

 

Evoca-se o profeta Daniel, não sem motivo; a resistência dos macabeus aos helênicos, ao mesmo tempo [ricos comerciantes acabaram por comprar terras, surgindo uma classe de grandes latifundiários e outra de desempregados e mendigos, causando descrença na política atuante e fomentando a divisão ideológica. O helenismo se implantava, enquanto as tradições centradas no Templo eram cultivadas. Surgiram então três grupos, de características sociais religiosas e políticas distintas: Tzedukim (Saduceus), Prushim (Fariseus) e os Issiim (Essênios); ocorria o desaparecimento dos movimentos proféticos (tão a gosto do povo), enquanto sacerdotes da religião oficial, hierárquica, tomam seu lugar; a liturgia, do Templo e da sinagoga reflete a submissão]. Isso indicaria a leitura, a escuta, a aplicação da Palavra no testemunho (marturia) para unificar a comunidade na luta contra a injustiça. Mas a resistência é substituída pelo quietismo, ou fatalismo, ou pela eqüidistância na religião. Pior ainda, o sincretismo cultual  idolátrico, mais uma vez, é admitido sem protesto.

 

O perfil sinótico apocalíptico reconhece quem são os seguidores de Jesus diante da crise avassaladora; diante da guerra em andamento, da perseguição, do novo exílio (Jerusalém cairá mais uma vez, no ano 70 d.C., resultado da crise na província da Síria, envolvendo o imperador romano Calígula e o legado comandado por Petrônio, 30 anos antes). Os cristãos estão envolvidos, agora: o dia do Senhor (kuriaquê ’emera) "virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas" (2Pedro 3:10). A estátua do imperador é levada ao templo para que este seja adorado como deus. As opiniões são variadas, e diferentes, sobre isso, no entanto  (cf.simbologia apocalíptica). Mas não há dúvida do envolvimento dos primeiros cristãos, também influenciados pela corrente apocalíptica e sua linguagem de resistência profética. É preciso observar os sinais dos tempos...

 

 

                                                    Derval Dasílio

                                  Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 

 

 
 
 

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