31° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”

 

Rute 1,1-18 – “Não seja a morte a separar-nos...”

Salmo 146    O Senhor faz justiça aos oprimidos.

Hebreus 9,11-14 –  Sacrifícios são ineficazes, a misericórdia é que vale.

Marcos 12,28-34 –“...porque eles desconhecem as Escrituras e o projeto de Deus”

 

 

                                        NÃO CONHECEIS AS ESCRITURAS?

 

A seguir, mais um capítulo dentro da série de armadilhas que as autoridades religiosas de Jerusalém preparam contra Jesus, vamos encontrar um doutor da Lei, um teólogo que é honesto e que reconhece a integridade de Jesus, ao passo que os outros o estão condenando. Esse episódio é importante porque se trata da questão central na lei judaica: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” (12,28). Ajuntando dois trechos da Bíblia (Dt 6,4-5; Lv 19,18), Jesus responde: “O primeiro mandamento é este: Ouve, ó Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor! E ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento e com toda a sua força. O segundo mandamento é este: Ame ao seu próximo como a si mesmo. Não existe outro mandamento mais importante do que esses dois” (Bíblia Pastoral) .

 

As perguntas que despontam, a partir do conhecimento das Escrituras, levar-nos-ão imediatamente ao plano social nacional. Lembrarão que há “democracias” mais importantes que a eleitoral (que, por sinal, vai muito bem... elegemos nossos representantes para o Congresso Nacional e os governos da Federação, enquanto elegemos o Presidente da República). Que têm a ver as prioridades proféticas do amor e dedicação ao projeto de Deus e  “ao próximo”, sob a ótica evangélica? As distâncias e os abismos existentes têm uma ponte construída e tornada disponível por Jesus Cristo. Quando  compreendemos os significados escriturísticos, na boa leitura da Bíblia para a abordagem dos problemas nossos e do “próximo”, na luta contra a fome e a miséria; a favor da educação básica de qualidade para todos, e não só para os membros da elite nacional; na promoção da igualdade entre os sexos e na erradicação da violência contra a mulher e a criança, na redução da mortalidade infantil, ainda muito expressiva nos bolsões de miséria; no combate à Aids e endemias não erradicadas, ou ameaçando retornar; para a seguridade e proteção da saúde, desde os mais necessitados e desprotegidos; na qualidade de vida ambiental apontada no sentido da humanização do habitat do homem e da mulher, e das criaturas da natureza, onde o ar, a terra, a água, alcancem o tratamento e o respeito adequados para a sobrevivência do mundo humano e do mundo natural;  por instaurar meios e processos para que toda a sociedade, todos os seguimentos econômicos, trabalhe para o desenvolvimento de todos, enquanto se desenvolve uma economia (oikonomia) para todos.

 

Jesus reduz a hierarquia dos mandamentos ao núcleo do amor a Deus e ao próximo, chamando a esse centro todas as outras leis e tradições. Sem o amor a Deus que se concretiza no amor ao próximo, as leis e “tradições” se tornam “traições” do projeto de Deus. O doutor da Lei reconheceu esse núcleo central da fé, do qual depende todo o resto: “amar a Deus e o próximo é melhor do que todos os holocaustos e do que todos os sacrifícios” (Mc 12,33). E Jesus diz: “Não estás longe do Reino de Deus”. Com isso Jesus mostra o seguinte: nem todas as leis e tradições abrigam por igual que esse mandamento que é o centro da Aliança.  Não é uma opinião, é o único que corresponde ao núcleo da fé, e da vida de fé no testemunho do Reino de Deus. O culto, os sacrifícios, as liturgias, valem muito pouco, ou quase nada. Assim, Jesus abre uma alternativa de vida que a multidão de leis, e a tradição sobre o puro e impuro, tinham estabelecido para o povo israelita. O Reino de Deus se torna acessível para o povo simples, excluídos, despoderados, marginalizados quanto à dignidade e ao bem-estar social, pois o importante para entrar e  dele participar pode ser reconhecido e cumprido por todos, sem necessidade de grandes estudos e sem precisar pertencer a um grupo religioso privilegiado.  Religiosos fieis à Lei e aos preceitos, os quais garantiriam a retribuição sacrificial e cultual conforme os ditames da tradição, não são privilegiados pelo conhecimento ou por sua obediência legal aos regulamentos da religião oficial.

 

A formulação dessas antíteses revela, pois, claramente, que cada proibição veterotestamentária é vista como parte da tradição. Na perspectiva da tradição profética. Além disso, evidencia-se que, para a “sua” compreensão particular da vontade de Deus, a Palavra de Deus,  Jesus não recorre a termos das Escrituras. Nem a qualquer tradição, mas com um enfático “eu” (a  Palavra em carne e osso) ele contrapõe autoritariamente a sua interpretação à compreensão tradicional da vontade da Palavra de Deus. Jesus está dizendo: “Eu sou a Palavra” (E a Palavra se fez carne e habitou no meio dos homens, como João afirmará textualmente: Jo 1,14).  Conseqüentemente, Jesus entendeu ser sua a tarefa de dar sentido verdadeiro à revelação transmitida até então: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, mas para cumprir a mesma [através de ‘minha’ interpretação da Lei e dos Profetas]": Mt 5.17).

 

[ Nota: O profeta Miquéias, um dos modelos proféticos citados por Jesus, atuou no reino do Sul. Os israelitas o conheciam muito bem. Experimentou pessoalmente as várias incursões assírias – a Assíria era a grande potência dominadora internacional, da política e da economia mundial desse período – influenciando nos problemas de ordem política e social nacionais. Dá-nos uma visão pessimista da sociedade elitizada, poucos ricos, muitos pobres: maquinações dos grandes proprietários e controladores da economia (2,1-5); situação das viúvas e dos órfãos, símbolos dos desamparados socialmente (2,8-10); ambição desmedida dos dirigentes políticos e  a conseqüente exploração e exclusão do pobre (3,1-4); juízes corruptos (3,9-11) e “profetas” (parlamentares da época?) subornados pelo mercado e pela religião “conformadora” (3,5.11); desconfiança generalizada,  por causa da corrupção endêmica, mesmo no interior das famílias israelitas (7,5-6)].

 

Contudo, Jesus quebra a ideologia daqueles que pensam que são os únicos que sabem e que podem determinar o que se pode e o que não se pode fazer para agradar a Deus. Jesus desbloqueia o acesso ao Reino e diz que ele não está disponível para as castas privilegiadas com o saber, na elite  israelita. O Reino de Deus é prioritariamente dos pobres e excluídos, vítimas da fome, da miséria, da dignidade sonegada. O Reino não é reservado aos “sábios e racionais”, homens (ou mulheres) de conhecimento, os que sabem usar recursos legais para proteger seus bens, culturais ou econômicos. Os desprotegidos não têm um tribunal para defenderem sua causa (Mq 3,9-11); um “procom”; um “centro de defesa dos direitos humanos e cidadania”; não têm políticos nem câmaras legislativas para defenderem seus interesses. 

 

Cada mandamento do Antigo Testamento é introduzido por Jesus com as palavras "Ouvistes o que foi dito aos antigos”, ou "Ouvistes o que foi dito”. Ao que ele contrapõe sua interpretação da vontade de Deus, introduzida com as palavras: “Eu, porém, vos digo". É uma voz profética; é a Palavra de Deus, na voz de Jesus Cristo (G.Kümmel). Não conheceis as Escrituras?  Elas dão testemunho de mim...

 

 

                                                                Derval Dasílio

                                            Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 

 

 
 

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