30o DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”
1Pd 2,9-10; Ap 5,9-10;20,6 –
Sacerdotes, ministros e ministras da
Igreja
Romanos 3,9-18 – Não há um
justo, sequer um... Salmo
31 – Só tu me remiste, Deus
da
verdade DA REFORMA E DO PROTESTANISMO BEM EXPLICADOS Necessitamos
do protestantismo bem identificado, porque nem todos evangélicos são
"protestantes", no rigor do termo, especialmente hoje, na oposição aberta
que alguns evangélicos dedicam aos protestantes históricos, especialmente
os que estão comprometidos com o Movimento Ecumênico, embora se dediquem
doses maiores de "ódio religioso" ao catolicismo. Duas coisas, duas
interpretações. Evangélicos, em muitos casos, abrigam tendências
religiosas bem variadas. Sou evangélico e confesso isso. Essas tendências
vêm acompanhadas de doutrinas tão variadas quanto a forma de organizar uma
denominação particular. Por tantas divergências e tendências, algumas das
doutrinas básicas da Reforma Protestante se diluíram, quando não se
fragmentaram irreparavelmente. Como um vaso de porcelana de alto valor,
quebrado em mil cacos, divergências superficiais tornaram-se profundas, na
luta pela supremacia eclesiástica ou doutrinal do evangelicalismo. Teses
da Reforma não passam de "lembranças", hoje, em várias situações.
Protestantes “não protestam mais”, ao que parece. Nem mesmo heresias
revividas e requentadas, trazidas desde a Igreja Antiga, têm merecido o
devido protesto. O corporativismo evangélico funciona como uma mordaça,
não lembra a unidade na Reforma, nem de longe. Mas, se todo mundo é
evangélico, ninguém é “evangélico” (cf.Luiz Longuini Neto, O Novo Rosto da
Missão, Ultimato, 2002). Algumas
das idéias da Reforma que não são mais observadas, em vários casos: 1.
Sacerdócio real de todos os crentes. Negado como tal, apresenta a rejeição
da unidade reclamada por Jesus na oração sacerdotal (Jo.17): "Pai, oro
para que sejam um, assim como Eu e Tu somos Um". A distorção desse pedido
do Senhor da Igreja, na defesa do particularismo de denominações e de
pessoas, bem demonstra que os reformadores foram esquecidos em seus
acordos doutrinais. Lutero, Melanchton, Zwinglio, Calvino, Bucer, John
Knox, Bullinger, Ecolampádio, e tantos outros, eram muitos, dirigiam a
Reforma na Europa Continental e nas Ilhas Britânicas no sentido de uma
popularização da fé original da Igreja. Eram unânimes: a "ecúmene" cristã
é reconhecida (a palavra grega oikumene refere-se a estar debaixo
do teto universal, o homem mora numa mesma casa, debaixo da mesma
cobertura). Nenhum reformador fundou sua denominação protestante. O
período é de Confessionalismo, grupos confessionais se acreditavam dentro
da Igreja, jamais separados da mesma. O princípio “Igreja reformada
sempre se reformando” vigia desde séculos, segundo a Patrologia cristã.
Reformava-se a Igreja dentro da Igreja. Nenhum reformador falou da criação
de outras igrejas. Dois
séculos depois a Reforma era traída pelo denominacionalismo
individualista e posteriormente
exclusivista. Resta
dizer que a ecúmene compreendia a
Igreja católica, originalmente universal, no Protestantismo
emergente. A democracia do
laós (povo) de Deus, ao que parece, ainda está por vir. Ou, se
existe em muitas comunidades reformadas, está por restringir-se, ou em
retrocesso, onde foi alcançada, creio.Quando o Segundo Testamento(1Pd
2,9-10; Ap 5,9-10;20,6) refere-se à substituição da elite sacerdotal israelita , ministros
ordenados para o culto, o serviço, o sacrifício penitencial, a
intercessão, pelo povo da fé, um por um, autorizando-se a todo cristão e
toda cristã a colocarem-se, por vocação, como sacerdotes e sacerdotisas do
Reino de Deus, alcança todas as
prerrogativas daqueles que representam ministerialmente a vontade do
governo de Deus na terra.
Homens e mulheres, nos ministérios da Igreja, ordenados ou comuns, são o laós
sacerdotal
do reinado de Deus. Algo que será interpretado teologicamente na carta aos
Efésios (4,9-16): Lutero diria que todo o povo da Igreja é
sacerdotal. Calvino dirá:
toda a Igreja é ministerial (Karl Barth). Como
ficamos? 2. Salvos pela Graça de Deus. Todos pecam e necessitam da Graça de Deus, para a libertação e salvação, acrescenta Lutero. Era rejeitada como doutrina salvação por obras, ou por autojustificação, como quer a teologia da retribuição e da penitência para o livramento das culpas. Obras espirituais, devocionais, morais ou materiais, garantiriam, na Igreja visível, a salvação e um lugar no céu. Os reformadores recusaram essa tese originada do dirigente máximo da Igreja, no Ocidente medieval (Eduardo Galasso). Estabeleceram que um homem ou uma mulher, por obra ou atitude alguma, alcançaria a salvação. Continuaríamos corrompidos, todos, irremediavelmente destinados a viver conforme nossas próprias tendências, se acreditássemos nisso. Calvino não dá tréguas: o homem é por sua natureza um ser corrompido. Afirmava, como Paulo, o apóstolo: "...não há justos, um sequer" ; "...todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus". Não estão credenciados para representarem a Deus ou suas intenções divinas. Todos dependem da vontade exclusiva de Deus para a salvação. Deus salva homens e mulheres gratuitamente, sem qualquer necessidade de retribuição. A não ser por uma dedicação a uma vida de fé, são sinais de salvação na vida humana. Sem fé nos desígnios salvadores de Deus, não há salvação. Frases
religiosas como "eu serei piedoso", "eu serei santificado", "eu dou, pago
o preço para minha libertação", "minha prosperidade, meu sucesso, alcanço
com orações, ofertas, auto-purificação"; empenho religioso, esforço
espiritual, atitudes morais, penitências, são inteiramente inúteis para
sinalizar salvação. Dessa maneira, ninguém pode justificar-se. A corrupção
implícita no pensar e no agir humano não se anula com sacrifícios
espirituais. É Deus quem oferece a Salvação para a degeneração que está
nos modos de pensar do homem sobre si mesmo, diziam os reformadores.
Individual e estruturalmente, por si, e dependendo de si, o homem não se
livra da corrupção, pois todos pecam (Rm 3,21).
Pascal,
um século depois dos reformadores, diria: "O homem é só um caniço açoitado
pelo vento. Não é preciso o universo inteiro armar-se para esmagá-lo: um
jato, um vapor, uma gota d´água, podem matá-lo". Ainda Pascal: "A grandeza
do homem é saber-se miserável. Sobre a presunção da salvação pelo
conhecimento, ou pela razão, diria mais: "Humilhai-vos, razão impotente;
calai-vos, natureza imbecil (que se justifica a si mesma). Sabei que o
homem se supera infinitamente (reconhecendo sua miséria). Escutai Deus"
(cit.:Robert Feullet, A História da Salvação da Humanidade).
A
misericórdia de Deus se apresenta
aos homens e mulheres pecadores presos aos sistemas de pensar; sua
compaixão pelos pecadores presos à sua religião e doutrinas, como a do
particularismo denominacional, ou religioso, se manifesta. Porque os
homens e as mulheres, além de
não encontrarem salvação em suas obras, não se salvam nem de si
mesmos e nem da corrupção ou depravação que os
acompanham (Calvino).
Comentando o Catecismo de Calvino, Karl Barth diz mais: "É Deus quem toma a iniciativa de
salvação; é Deus que vem ao encontro do homem para salvá-lo". A Salvação é por Graça, ato
espontâneo e divino do Pai que ama os filhos que fogem e se afastam do
roteiro oferecido inicialmente para o caminhar na fé. A Salvação nunca
ocorrerá por qualquer manifestação ou procura de santidade, de nossa
parte, em penitência, em esforço espiritual para o pagamento das nossas
dívidas. Nada levará à salvação, libertação material ou espiritual; nada
se assemelha à gratuidade divina. Lutero diria mais, escrevendo a
Melanchton angustiado por sentir que não podia livrar-se por si mesmo do
pecado:“Seja
um pecador, e peca
fortemente,
mas creia ainda mais firmemente (Esto peccator et pecca fortiteter, sed
fortius fide)”.
É preciso crer que a justificação só é alcançada pela fé na
gratuidade divina. Mas quem não conhece a pregação que desmente e
desqualifica a doutrina da Salvação defendida pelos reformadores do século
XVI, quando se nega até mesmo a unidade da Igreja de Cristo na
diversidade? Cabe-nos, apenas, reconhecer que a Graça de Deus é destinada
a todos, homens e mulheres, todos necessitamos dela. A Igreja, por ser pecadora, também
depende da misericórdia de Deus (Áureo Bispo). Há pecado maior que negar a
comunhão da mesma fé aos irmãos de outras
tradições? --------
Pastor da Igreja Presbiteriana
Unida
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