2o DOMINGO DA QUARESMA – ANO ‘B’COMENTÁRIO AO LECIONÁRIO REFORMADO Gênesis 17.1-7 –
Cada um levará na própria carne a marca da pertença ao seu
Deus Salmo 22,23-31
– A ti me entreguei desde
o meu nascimento Romanos 4,13-25 –
Acreditar no impossível, manter a
esperança Marcos 8,31-38 – Quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la
A “aliança”,
principal tema teológico do AT, é mais promessa ou compromisso unilateral
de Deus que qualquer outra coisa, embora se imponha uma conduta especial,
no sinal da “circuncisão”. Com ela começa a terceira era da “História da
Salvação”, se assim quisermos colocar. A noção de Aliança é muito forte na
Bíblia Hebraica.
Lamentavelmente, os cristãos tendem a esquecer esse fato de alta relevância
teológica. É como esquecer a História na repetição dos antigos erros e
receber as penalidades conseqüentes. Porém, que sentido haveremos de dar
ao termo hebraico berith, que se traduz
normalmente como “aliança”? Biblistas competentes têm traduzido o termo
como “pacto”, “contrato”; “obrigação”; “compromisso”; “testamento” (trad.
extremamente imprópria: a palavra de origem latina não tem equivalência
alguma com a hebraica berith; a idéia da morte e recepção de um
legado não combina com o sentido que se dá a um acordo com o Deus da Vida,
o homem não tem um legado a oferecer, em contrapartida; só a retribuição
da fidelidade de Yahweh, Deus vivo, é importante), e insistem no
aspecto da bilateralidade, cada parte com a sua fidelidade: “eu prometo
ser fiel, tu prometes...”, e
está feita a aliança.
Por fim, Israel aprendeu a necessidade de valorizar o pacto existente, não poucas vezes com o
dilaceramento da própria “carne”, “povo infiel” que sempre foi (cf. R.
Martin-Achard, Dieu de toutes fidelités). Gênesis
17.1-7 – Na concepção do
Sacerdotal (P), esta aliança não é idêntica à do Sinai, acentua a simetria
bilateral. (17,1) Todo-poderoso: é a tradicional tradução de
Shadday, cujo significado ainda não se esclareceu (ver Ex 6,3). O
conteúdo primeiro da aliança é uma promessa de fecundidade: o mesmo das
bênçãos, como atualização individual da bênção genesíaca. O pai de um povo
é um patriarca (17,4 Rm 4,17). A mudança de nome indica a nova situação e,
sendo imposto por Deus, é penhor do futuro. Pai de povos (’ab
hamon). Nesta repetição complementar a “aliança” se estende para a
descendência. Por ora, sem estreitá-la a um povo explicitamente, mas sim
na mente do autor (17,7-8). A promessa sugere: “Serei teu Deus” –
falta a outra metade oficial desde a aliança no Sinai: “serão meu
povo” (Luís Alonso Shöekel- Bíblia do Peregrino). [Com o
prolongamento aos descendentes, aparece outro conteúdo da promessa: a
terra. Distingue entre as “andanças” de Abraão e a “posse” dos seus
descendentes. (17,9-10) Ao patriarca e seus descendentes compete “guardar”
a aliança já outorgada por Deus. O modo de “guardá-la” consiste em cada um
levar na própria carne a marca da pertença ao seu Deus (17,9-14.23-27). A
circuncisão é mais antiga que Israel (cf. Jr 9,25). Na sua origem, e
atualmente em algumas culturas, é rito de iniciação ao chegar a puberdade.
Em Israel desaparece esse aspecto]. Romanos
4,13-25 – Ter fé é jogar-se inteira e confiadamente nos braços de
Deus. Como o fez Abraão. Acreditar, especialmente quando todas as coisas
parecem impossíveis. Abraão era velho, e Sara, sua mulher, era estéril.
Foi aí, desse terreno do impossível segundo os homens, que Deus prometeu
que nasceria um grande povo. E Abraão acreditou, confiou plenamente na
promessa de Deus. “Acreditar no impossível...”, e Abraão esperou
firmemente contra toda esperança. Por isso a promessa se tornou realidade:
e nasceu Isaac, o filho da promessa. Abraão ensina que ter fé não é fazer
cálculos sobre as possibilidades, ou não, da revelação e promessa de Deus.
Ter fé é aceitar com ternura a revelação de Deus, confiando e
entregando-se plenamente a Deus. Como um filho que confia nos braços do
pai (Mauro Strabeli – Carta aos Romanos,
Paulus). Marcos
8,31-38 – Marcos nos conduziu até aqui para aprendermos a prática de
Jesus, a fim de provocar nossa adesão à pessoa de Jesus e ao Evangelho do
Reino de Deus, a Boa Notícia. Não basta ficar ao lado dele, como
espectador descomprometido, admirando seus feitos e suas palavras. A
palavra de ordem é “adesão” ao Evangelho, causa essencial da missão de
Deus. Agora somos convidados explicitamente a nos empenharmos na sua
causa. Muitas personagens que encontramos pelo caminho do Evangelho
começaram a se “envergonhar” de Jesus, não aceitando o que ele fazia: os
fariseus fazem um plano para matá-lo (3,6); os doutores da Lei o
consideram possuído pelo demônio (3,22); as pessoas de Gerasa querem que
ele vá embora quanto antes (5,17); seus parentes ficam escandalizados
(6,3); Pedro o repreende, não aceitando o caminho que Jesus vai percorrer
(8,32). E nós, diante das exigências agora colocadas, será que na hora
“do vamos ver” não nos envergonharemos de Jesus? Ele, porém, deixa
bem claro: aceitar a participação nos riscos e na luta sem negar Jesus e a
sua causa é condição para participar de sua glória: “Se alguém se
envergonhar de mim e das minhas palavras diante dessa geração adúltera e
pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na
glória do seu Pai com seus santos anjos”
(8,38). Renunciar a si mesmo, portanto, não é uma atitude passiva, mas espiritualidade que nos leva ao dinamismo da construção de novas relações dentro das quais não há lugar para os instintos egoístas. O seguimento de Jesus se dá dentro da história de uma sociedade sem compaixão que se pauta pela ambição do poder, de “ter” a qualquer custo, enquanto vai gerando relações injustas e opressoras. Os discípulos terão de enfrentar situações adversas e perseguições (tomar a sua cruz!). Jesus vai além na sua instrução, para deixar bem claro em que implica segui-lo em plena consciência: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”(8,35). Podemos ver isso, hoje em dia, no campo, onde pessoas são mortas porque procuram organizar os despoderados para que lutem e obtenham seu pedaço de chão; ou mortas enquanto procuram impedir a devastação ambiental. Do mesmo modo, pessoas sem-teto são mortas nas calçadas e nas ruas de nossas cidades, solução cruel de exterminar a miséria... e nem nos comovemos? Por que, como maioria, dizemos “não” ao desarmamento e “sim” ao incremento da indústria armamentista? Por que nos recusamos a jogar luz nos porões do nosso mundo, nossa sociedade, lá onde estão os desesperançados, des-graçados, vítimas de todas as violências, sociais, legais, criminais, necessitados de gestos concretos que expressam a Graça de Jesus Cristo? Sem cuidarmos dos
pecados estruturais da sociedade onde nos encontramos, atentos às nossas
responsabilidades cidadãs (não vos conformeis, dirá o Apóstolo);
sem diminuir esse lado difícil do seguimento, buscar “salvar a
vida” significará também colocar a própria segurança naquilo que não
pode fornecer essa segurança: o bem-estar egocêntrico entre as riquezas
deste mundo (Euclides Balancin). Nem grades nem muros nos salvarão da
violência existente, sinais de morte que não respeitam a privacidade de
ninguém – a mídia se encarrega da tarefa de impor nos acontecimentos
diários essa correlação. As falsas seguranças que escondem a realidade não
podem salvar ninguém... nem mesmo a sociedade da qual somos parte
responsável. Contudo, o martírio seria uma escolha suicida se fosse visado
como uma finalidade de vida. Buscar a morte pela morte não tem nada de
evangélico. Quem quiser salvar a sua vida de falsas seguranças, vai
perdê-la... Ao contrário, ganhará sua vida quem se entrega às
conseqüências de um testemunho (marturya) e de uma prática que
busca a justiça e a fraternidade, como princípio de fidelidade a Deus,
enquanto se valoriza a solidariedade entre homens e mulheres, oprimidos e
bem-postos, pontua de muitas maneiras as renúncias exigidas do compromisso
com a Graça salvadora de
nosso senhor Jesus Cristo, Deus fiel
salvador. ---------- Derval Dasilio Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil |
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