Analisados
o lado humano e o lado divino dos sofrimentos de Cristo, chegamos ao
ponto: é hora de perguntar sobre os significados salvíficos e de nos
esforçarmos por desvendar as forças libertadoras, redentoras e
criadoras, contidas nos sofrimentos pela causa de Deus. E
perguntaremos sobre o sentido do sofrimento, no seguimento e no
discipulado do mártir do Reino de Deus. As perguntas são: Para que
Cristo morreu? Para que Cristo ressuscitou? O que se oculta
na morte e na ressurreição de Cristo, como e quando será revelado?
As respostas devem ser colocadas dentro de um espaço escatológico
aberto. Pensar escatologicamente significa pensar um assunto até o fim,
esgotando-se todas as possibilidades (J.Moltmann). Enquanto isso,
indagaremos sobre a história dos sofrimentos e sobre a ressurreição de
Cristo. Da história de Cristo resultam horizontes interessantes, como
alvo e como sentido: a fé justificadora; domínio sobre “mortos” e
“vivos”; superação da morte enquanto inauguração do novo, da nova
criação, da novidade de vida para tudo que morre; glorificação de Deus
por meio de um mundo que conheça a redenção. Os sofrimentos de Cristo
deixam de ser “sofrimento para satisfação da divindade ciumenta, ciosa
de sua autoridade soberana, enquanto irada com a desobediência humana”,
como a doutrina medieval e escolástica estabeleceu (Anselmo de
Cantuária, séc. XII), e como é ainda observada, hoje, equivocadamente.
A
justificação é um acontecimento único, como um processo que inicia uma
consciência envolvente de emoções íntimas sobre a misericórdia de
Deus (miserere + cordis), começa com o perdão dos pecados e
termina com lágrimas enxugadas, em sua totalidade: Cumpriu-se o que Isaías
dissera sobre o servo sofredor, sobre quem repousaria o pecado de toda a
nação de Israel: "Mas ele foi traspassado pelas nossas
transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz
a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados" (Is
53:5). E o profeta do Apocalipse completará: "Ele enxugará de
seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais
pranto, nem lamento, nem dor..." (Ap 21:4). Eis os extremos da
solidariedade. Inverte-se a concepção fundamentalista sobre a “satisfação”
de Deus no sofrimento do Cristo. A justificação deixa de ser um ato de
poder para ser um ato solidário de entrega. Cristo é o Deus fraco,
esvaziado de poder, para solidarizar-se na fraqueza de todo homem e de
toda mulher.
Os
sofrimentos de Cristo mostram-nos Deus humano e solidário: é Deus que
está conosco! Caminha e sofre conosco. Solidariedade, vicariedade,
renascimento, são dimensões divinas que se devem observar, aqui. Pecados
estruturais, assim, são um grande desafio para as comunidades cristãs,
hoje e sempre. A Igreja é também pecadora, diriam Calvino e Karl Barth,
comentando o Credo Apostólico (The Faith of the Church, Meridian Books,
1965). As conseqüências dos pecados da sociedade, impondo a opressão,
mancomunando-se com poderes rebeldes e escravizantes, como a
economia, a política e a religião, unidas no pecado solidário contra os
direitos fundamentais da pessoa humana, mostram-nos as razões do
sofrimento do Cristo solidário com os oprimidos, sem dignidade e paz. A
mensagem fundamental do evangelho é a graça, e não o pecado individual,
finalmente.
João
20,19-31 – Há medo na comunidade, depois da morte de Jesus. Como o povo
israelita no deserto, e antes disso, na forte perseguição que o faraó
egípcio lhe movera (Ex 14,10). Vulnerável, insegura, indefesa, sente
impotência sob ameaças de represália da parte dos que condenaram
e crucificaram seu líder. A mensagem de Maria Madalena, sem dúvida, não
aliviara os discípulos, ainda sentiam temor. A notícia do sepulcro vazio
não era bastante... o sepulcro não continha mais ninguém. A “ausência”
de Jesus, diante das hostilidades aguardadas, atemorizavam os discípulos.
A causa corria o risco do fracasso.
Ocorre,
então, o socorro. Jesus lhes comunica o Espírito que dá força para
enfrentar as adversidades, rejeições, represálias, diante das cobranças
proféticas de justiça; o Espírito alimentará os discípulos para
libertá-los dos pecados do mundo, e dos seus próprios pecados. Quando se
submetem, ou se aquietam, diante dos males estruturais, ou quando se
solidarizam com os próprios opressores, no intento de serem “deixados
em paz”, politicamente eqüidistantes. A missão da comunidade não será
outra coisa senão a de anunciar o perdão dos pecados para afirmar a
vida, salvar da morte, e pôr fim a todas as formas de opressão e
culpa.
O
efeito do encontro com Jesus é a alegria. A festa da Páscoa, festa de
todas as ressurreições possíveis (Páscoa é pesah=passagem).
O “exterminador”(mashit)
passará ao largo, a alegria já começou; a festa da vida, da nova
criação, do novo ser humano, festa de libertação, teve início. Este
Cristo que se dá oferece também o exemplo de sua vida ressurreta. A Páscoa
renovada, festa de libertação, prossegue. Jesus saúda os discípulos e
discípulas, devolve-lhes a paz perdida: eles e elas não estão entregues
à própria sorte, ao sabor do acaso. O fato concreto da presença do
Senhor é constatado nas marcas da paixão e da morte. Estes sinais de
amor, de entrega, de obediência a Deus, são agora visíveis. Jesus
venceu a morte, está vivo diante dos olhos de todos. As marcas da cruz,
contudo, não foram apagadas. Atenção, pois. Há um sinal de alerta: o
sofrimento pela causa de Deus faz sentido, porque a ressurreição
acontecerá, sempre, na obediência até a morte (“sê fiel até a
morte, e dar-te-ei por coroa a vida” - Ap
2:10b). O medo da morte, aqui, não pode mais afligir os
discípulos. A prova cabal da vitória de Deus sobre o império da morte
está diante deles, que têm agora como testemunhar.
Nem
todos crêem, porém. Tomé duvida, embora tenha sido dos mais corajosos,
antes, e se prontificado a acompanhá-lo na morte (Jo 11,16). Seu problema
reside em não crer, embora veja a comunidade transformada pelo Espírito.
Exige provas. Jesus as exibe, mas adverte: “tens a possibilidade de
poder ver para crer... benditos aqueles que não viram e creram” –
cf. Jo 20,29. A morte é sinal de uma tragédia que, com base
no Cristo morto e na ressurreição do Senhor, transforma-se em uma
esperança universal por nova criação em glória (Rm 8,19ss).
Jesus, nas palavras de Paulo, morre como todos os viventes, em
solidariedade com toda a criação que geme no parto de uma nova vida para
todos. Tomé não chega a tocar em Jesus, diante das marcas da cruz
apresentadas, mas pode arrepender-se, e o faz: “Senhor, meu Deus!”
Essa confissão é fundamental, e se redime da incredulidade inicial
numa afirmação significativa: para Tomé, em Jesus Cristo realizou-se a
humanidade de Deus. Jesus viveu solidariamente a morte de todos os seres
viventes, e ressuscitou para que todos e tudo pudessem também
ressuscitar.
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Derval
Dasilio
Pastor
da Igreja Presbiteriana Unida