SEGUNDO DOMINGO DE PÁSCOA - ANO "B" 

Atos 4,32-35 – Com grande poder, davam testemunho da ressurreição

Salmo 133 – Como é gostoso que os irmãos vivam em união!

1João 1; 1-2; 2,1-6  – Ele proporciona o perdão dos pecados, nossos e do mundo

João 20,19-31 – Eu creio, Senhor e Deus meu!

 

Analisados o lado humano e o lado divino dos sofrimentos de Cristo, chegamos ao ponto: é hora de perguntar sobre os significados salvíficos e de nos esforçarmos por desvendar as forças libertadoras, redentoras e criadoras,  contidas nos sofrimentos pela causa de Deus. E perguntaremos sobre o sentido do sofrimento, no seguimento e no discipulado do mártir do Reino de Deus. As perguntas são: Para que Cristo morreu? Para que Cristo ressuscitou? O que  se oculta   na morte e na ressurreição de Cristo, como e quando será revelado?

 

            As respostas devem ser colocadas dentro de um espaço  escatológico aberto. Pensar escatologicamente significa pensar um assunto até o fim, esgotando-se todas as possibilidades (J.Moltmann). Enquanto isso, indagaremos sobre a história dos sofrimentos e sobre a ressurreição de Cristo. Da história de Cristo resultam horizontes interessantes, como alvo e como sentido: a fé justificadora; domínio sobre “mortos” e “vivos”; superação da morte enquanto inauguração do novo, da nova criação, da novidade de vida para tudo que morre; glorificação de Deus por meio de um mundo que conheça a redenção. Os sofrimentos de Cristo deixam de ser “sofrimento para satisfação da divindade ciumenta, ciosa de sua autoridade soberana, enquanto irada com a desobediência humana”, como a doutrina  medieval e escolástica estabeleceu (Anselmo de Cantuária, séc. XII), e como é ainda observada, hoje, equivocadamente.

 

A justificação é um acontecimento único, como um processo que inicia uma consciência envolvente de emoções íntimas sobre a misericórdia de Deus (miserere + cordis), começa com o perdão dos pecados  e termina com lágrimas enxugadas, em sua totalidade: Cumpriu-se o que Isaías dissera sobre o servo sofredor, sobre quem repousaria o pecado de toda a nação de Israel: "Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados" (Is 53:5). E o profeta do Apocalipse completará: "Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor..." (Ap 21:4). Eis os extremos da solidariedade. Inverte-se a concepção fundamentalista sobre a “satisfação” de Deus no sofrimento do Cristo. A justificação deixa de ser um ato de poder para ser um ato solidário de entrega. Cristo é  o Deus fraco, esvaziado de poder, para solidarizar-se na fraqueza de todo homem e de toda mulher.

 

Os sofrimentos de Cristo mostram-nos Deus humano e solidário: é Deus que está conosco! Caminha e sofre conosco. Solidariedade, vicariedade, renascimento, são dimensões divinas que se devem observar, aqui. Pecados estruturais, assim, são um grande desafio para as comunidades cristãs, hoje e sempre. A Igreja é também pecadora, diriam Calvino e Karl Barth, comentando o Credo Apostólico (The Faith of the Church, Meridian Books, 1965). As conseqüências dos pecados da sociedade, impondo a opressão, mancomunando-se com poderes  rebeldes e escravizantes, como a economia, a política e a religião, unidas no pecado solidário contra os direitos fundamentais da pessoa humana, mostram-nos as razões do sofrimento do Cristo solidário com os oprimidos, sem dignidade e paz. A mensagem fundamental do evangelho é a graça, e não o pecado individual, finalmente.

 

João 20,19-31 – Há medo na comunidade, depois da morte de Jesus. Como o povo israelita no deserto, e antes disso, na forte perseguição que o faraó egípcio lhe movera (Ex 14,10). Vulnerável, insegura, indefesa, sente impotência sob ameaças de represália da parte dos que condenaram  e crucificaram seu líder. A mensagem de Maria Madalena, sem dúvida, não aliviara os discípulos, ainda sentiam temor. A notícia do sepulcro vazio  não era bastante... o sepulcro não continha mais ninguém. A “ausência” de Jesus, diante das hostilidades aguardadas,  atemorizavam os discípulos. A causa corria o risco do fracasso.

 

Ocorre, então, o socorro. Jesus lhes comunica o Espírito que dá força para enfrentar as adversidades, rejeições, represálias, diante das cobranças proféticas de justiça; o Espírito alimentará os discípulos  para libertá-los dos pecados do mundo, e dos seus próprios pecados. Quando se submetem, ou se aquietam, diante dos males estruturais, ou quando se solidarizam com os próprios opressores, no intento de serem “deixados em paz”, politicamente eqüidistantes. A missão da comunidade não será outra coisa senão a de anunciar o perdão dos pecados para afirmar a vida, salvar da morte, e pôr fim  a todas as formas de opressão e culpa.

 

O efeito do encontro com Jesus é a alegria. A festa da Páscoa, festa de todas as ressurreições possíveis (Páscoa é pesah=passagem). O “exterminador”(mashit) passará ao largo, a alegria já começou; a festa  da vida, da nova criação, do novo ser humano, festa de libertação, teve início. Este Cristo que se dá oferece também o exemplo de sua vida ressurreta. A Páscoa renovada, festa de libertação, prossegue. Jesus saúda os discípulos e discípulas, devolve-lhes a paz perdida: eles e elas não estão entregues à própria sorte, ao sabor do acaso. O fato concreto da presença do Senhor é constatado nas marcas da paixão e da morte. Estes sinais de amor, de entrega, de obediência a Deus, são agora visíveis. Jesus venceu a morte, está vivo diante dos olhos de todos. As marcas da cruz, contudo, não foram apagadas. Atenção, pois. Há um sinal de alerta: o sofrimento pela causa de Deus faz sentido, porque a ressurreição acontecerá, sempre, na obediência até a morte (“sê fiel até a morte, e dar-te-ei por coroa a vida” - Ap 2:10b). O medo da morte, aqui, não pode mais afligir os discípulos. A prova cabal da vitória de Deus sobre o império da morte está diante deles, que têm agora como testemunhar.

 

Nem todos crêem, porém. Tomé duvida, embora tenha sido dos mais corajosos, antes, e se prontificado a acompanhá-lo na morte (Jo 11,16). Seu problema reside em não crer, embora veja a comunidade transformada pelo Espírito. Exige provas. Jesus as exibe, mas adverte: “tens a possibilidade de poder ver para crer... benditos aqueles que não viram e creram” – cf. Jo 20,29. A morte  é sinal de uma tragédia  que, com base no Cristo morto e na ressurreição do Senhor, transforma-se em uma esperança universal por nova criação em glória (Rm 8,19ss).  Jesus, nas palavras de Paulo, morre como todos os viventes, em solidariedade com toda a criação que geme no parto de uma nova vida para todos. Tomé não chega a tocar em Jesus, diante das marcas da cruz apresentadas, mas pode arrepender-se, e o faz: “Senhor, meu Deus!” Essa confissão é fundamental, e  se redime da incredulidade inicial numa afirmação significativa: para Tomé, em Jesus Cristo realizou-se a humanidade de Deus. Jesus viveu solidariamente a morte de todos os seres viventes, e ressuscitou para que todos e tudo pudessem também ressuscitar. 

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

         

         

 
 
 
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