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29o.DOMINGO
DO TEMPO COMUM – ANO “B” Jó
38,1-7 (34-41) – Quem é
este que obscurece os meus desígnio.
Salmo 104,1-9
(24 e 35c) – Colocastes um divisor de águas à nossa frente.
Hebreus 5,1-10 –
O Sumo Sacerdote é rodeado de homens cheios de
fraquezas. Marcos 10,35-45 –
“Poder...vocês sabem o que estão
pedindo?
PODER E
CORRUPÇÃO Somos
agradecidos aos céus, porque existem pessoas que sempre resistiram e
sempre resistirão à corrupção (cor + ruptio quer dizer “coração
rompido”, literalmente; o coração é a sede de sentimentos éticos sobre a
vida; “coração rompido” é quebra da ética). O “centro” dos valores
essenciais à sustentação da vida desfibra, perde a consistência, em
qualquer lugar ou situação de corrupção. A mais simples eleição numa
comunidade eclesiástica está sujeita a esses “rompimentos”. Quem resiste
às tentações de usufruir as vantagens do poder, vender influência,
negociar com adversários insuportáveis, históricos, para chegar a ter
poder sobre alguma ou qualquer coisa que é desejável? A corrupção está na
religião organizada, nas igrejas cristãs, na economia de mercado, nas
câmaras legislativas, no Congresso Nacional e nos partidos políticos, sem
dúvida. Há quem não hesite em usar meios escusos, mesmo quando se trata de
dividir comunidades tradicionais, alcançando milhares de membros. O nome
“cristão”, “evangélico”, já não é garantia de invulnerabilidade ética. Que
são os que estarão dispostos a aprender com as crises das instituições a
que pertencem, dessacralizando toda e qualquer forma de poder para um
certo e “necessário” controle de fatos políticos, inclusive em situações
eclesiásticas? Sim, porque somente Deus tem “poder”, o próprio Senhor
Jesus o afirmou, reconhecendo a existência desse impulso espúrio entre
seus primeiros seguidores, e acrescentando: “..não será assim entre
vós” (Mt 20,25-27). Então,
vamos contar fábulas, ou parábolas, como Jesus gostava de fazer, e dessas
que o Millor Fernandes (re)escreve com tanta habilidade. Na capa de seu
livro “100 Fábulas
Fabulosas”, obra de fino humor e grande inteligência, se lê: “Muito tempo
antes do homem se organizar em Estados (homo
politicus), já
existiam lobos ferozes proibindo carneiros de beber sua água. O homem não
tinha pensado em construir cidades, quando raposas finórias e sem
escrúpulo arrancavam queijos do bico de corvos ingênuos. E quando o último
homem apertar o botão (no apocalipse nuclear), haverá sapos coaxando nos
pântanos cantando a glória e a sedução do lodo pantanoso” (cit. “Sobre
Lobos, Demônios e Anjos”, Derval Dasilio – em preparo). Em tempo: a
mistura de lideranças políticas com lideranças religiosas trouxe
dissabores e vergonha incalculável para o protestantismo evangélico, nos
últimos anos. Alvíssaras, porém, dos 60 parlamentares “evangélicos” da
atual legislatura, somente 26 obtiveram novo mandato, ou foram eleitos
pela primeira vez... outros ainda poderão ser cassados institucionalmente,
encontrando-se em processo de julgamento. Inclusive alguns dos reeleitos.
Marcos
10,35-45
- Hoje, o evangelho de Marcos apresenta um detalhe que se encaixa à
realidade do ensinamento de Jesus sobre a vida pública, no ministério para
o qual foi enviado, que é reconhecido por nós como revelação do projeto de
Deus. Muitas reações vão aparecendo, entre os discípulos, seus ouvintes
preferenciais. Marcos tem uma intenção transparente: é preciso tomar
decisões; há um caminho a ser trilhado para se chegar ao Reino, roteiro
para o qual também não há atalhos; é preciso conversão, metanóia
(mudança
nos rumos tradicionais da moralidade, da religião e da política); é
necessário adotar um espírito novo, crítico das realidades no entorno, no
quotidiano, na vida política e “cidadã”; é preciso tornar-se puro como a
criança, descontaminada e ainda não contagiada pela inclinação à
corrupção, homens e mulheres maduros corruptores ou corrompidos, para
“entrar” no Reino de Deus e participar de seu reinado; a missão integral
de Deus, que alcança o ser, as instituições humanas, as ideologias, não se
confunde com a sede de poder ou com propostas políticas de
dominação. O
projeto de Jesus, no seguimento da missão de Deus, não está sujeito às
inclinações e ideologias do momento.
A reação de Pedro, que precisa ser entendido como porta-voz do
grupo todo de discípulos, diante do anúncio da Paixão (Mc,8,31-33), que
resultaria na entrega total do homem Jesus à causa; que o levaria ao
despojamento total de atributos e capacidades divinais
– as quais lhe garantiriam “poder” sobre seus perseguidores e algozes (cf.
Fl 2,5-8; kenosis,
esvaziamento
em favor da solidariedade humana); que poderiam livrá-lo de todo e
qualquer sofrimento e angústia; que impediria o derramamento de sangue,
evitando-se o martírio em favor da “grande causa” ensinada desde os Céus,
demonstra muito bem o pensamento dos discípulos. A incapacidade dos
discípulos de entenderem que a exorcização de demônios, espíritos imundos
contidos nos sistemas de pensar, é também uma missão compartilhada na
pluralidade cultural e religiosa dos que fazem o bem sem serem do grupo
oficial de seguidores do Cristo (Mc 9,38-50) – quando
os apóstolos proíbem utilizar o nome de Jesus e curar, alguém que “não é
dos nossos”, num primeiro momento, Jesus, com a visão ecumênica ultra
aguçada, impede que se proíba de fazer o bem a quem e por quem não seja do
próprio grupo religioso, porque “quem
não está contra nós está a nosso favor”).
Tudo isso é parte das dificuldades no seguimento do Evangelho de Deus. E o
pior acontece quando a perplexidade toma o pensar discipular favorável à
disputa de posições de mando, reivindicando “poder” sobre outros (Mc
10,37). Têm que ouvir: “Vocês
sabem o que estão pedindo? Estarão vocês também dispostos a beber o cálice
que eu vou beber?”
Refere-se
Jesus ao martírio testemunhal
inevitável em andamento, como conseqüência da fidelidade radical ao
evangelho. Há
bastantes evidências, neste texto, que Jesus preparava seus discípulos
para os sofrimentos da Causa. Apesar das tradições mais sutis se
esforçarem por interpretarem-no como “sofrimento espiritual”, simbólico, o
que os discípulos ouvem refere-se a realidades concretas, inevitáveis
(martureo,
testemunhar,
é
o verbo adequado aqui) para quem se disponha a seguir as orientações de Jesus (cf. Joaquim Jeremias,
Teologia do Novo Testamento). Que ensinamentos são estes? Desaprender o
que se lhes ensinavam sobre o mal irreversível nos governos políticos,
especialmente quando esse
ensino exclui de sua esfera o
mal da religião de regulamentos e leis auto-sustentáveis; esvaziar a
consciência do fatalismo e dos determinismos históricos, os quais negam a liberdade da fé nas
transformações e esperanças de um mundo novo possível; mudar o rumo,
converter-se à Causa do Reino,
para cumprir, como Jesus, a missão salvadora e libertadora de Deus.
Pensar
em vantagens, benesses, partilhar do poder, são incongruências no seguimento de Jesus. Renunciar
ao “poder”, negando o fortalecimento ou a legitimidade de estruturas e
instâncias de poder e domínio iníquo, injusto, absolutista, é a primeira
exigência do discipulado do Cristo de Deus. Mas não nos confundamos com o
paradoxo: “Dai
a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”,
as palavras de Jesus, biblicamente, permite-nos exercer nossa cidadania
com segurança. Para manter-se o Estado de direito, a exigência para que
afirmemos nossos posicionamentos face aos processos democráticos,
notadamente o da escolha daqueles que deverão dirigir a nação, torna-se
numa oportunidade de obediência evangélica. Jesus disse também:
“meu
reino não é deste mundo”,
isso implica em que “o reino de César é deste mundo”. Mas Deus ama o mundo
humano (Jo 3,16), e entregou o Filho para assumir essa humanidade às
últimas conseqüências. E João (3,19-21) não ignora a krisys
permanente
do mundo, em seu verdadeiro sentido: julgamento, condenação,
separação... “o
mundo está sob julgamento...” “Deus
separou luz e trevas...”
“Deus amou o mundo...”
são parte da teologia evangélica sobre a polaridade entre a luz e as
trevas, que também afirma: “eles
amaram as trevas...” “o
perverso busca as trevas para agir impunemente...” “ não peço que os tireis do mundo, mas
livra-os do mal...” O serviço ao mundo amado por Deus é
diaconia voltada para as desigualdades sociais e políticas, para as
transformações que contemplarão os famintos, em todos os sentidos,
excluídos, marginalizados, despoderados, sem cidadania e sem dignidade,
dominados pelos falsos determinismos da miséria e da fome, todas!, apontam à obediência a
Jesus: “Íde,
fazei discípulos em todas as nações...”(Mt
28,18-20).
Derval
Dasilio Pastor
da Igreja Presbiteriana Unida
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