28o. DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”

 

Jó 23,1-9;16-17  Quem me livrará do meu Juiz?

Salmo 22,1-5 – Nossos pais confiaram e nós também confiamos no Senhor

Hebreus 4,12-16 – A palavra de Deus corta como uma espada de dois gumes

Marcos 10,17-30  A riqueza é iníqua, quando não serve a todos

 

DEIXA TUDO, VEM E SEGUE-ME!

 

Será que o rico se salva? Sobre o “significado” das riquezas na perspectiva do evangelho, o texto generaliza: não só o que tem muitas propriedades, mas todos os que possuem fortunas, bens abundantes, correm sério perigo de não se salvar. Que é ser afortunado? Ser bem-posto, bem remunerado, proprietário de bens essenciais sem nada lhe faltar, não é ser rico? Estar longe do desemprego, da fome, da miséria, da falta de previdência social, do atendimento à saúde, da educação de qualidade, não é ser bem-posto socialmente, portanto, rico? José Bortolini nos lembra que a afirmação de Jesus “como é difícil entrarem os ricos no Reino de Deus!” assusta os discípulos em escala crescente até ao “espanto” (Mc 10,24-26). O abismo entre pobres e ricos, no tempo apostólico, era ainda maior que o dos nossos dias. É preciso lembrar também os países ricos e as profundas diferenças existentes abaixo da Linha do Equador.  A ONU informa que em termos comerciais, tecnológicos e financeiros, os países do mundo estão cada vez mais próximos, numa rede de interdependência. Em termos de desenvolvimento humano, no entanto, há um fosso entre as nações ricas e as pobres, destaca o IDH 2005/ONU (Índice de Desenvolvimento Humano), que dedica um capítulo inteiro ao estudo da desigualdade no planeta: “Em alguns casos, as diferenças de renda e condições de vida estão aumentando”, alerta. O rei da Noruega, fazendo turismo no Brasil, há pouco tempo, disse que os escandinavos tinham tanto dinheiro que não sabiam o que fazer com o mesmo. Ele, que também homenageou Pelé, na ocasião, é também considerado o principal acionista da Aracruz Celulose, a maior empresa do gênero na América Latina.

 

É fácil, também, falar da opção pelos desfavorecidos, sem dignidade social e econômica, quando não temos que nos preocupar com o dia de amanhã. É cômodo especular sobre a fome e a miséria no mundo quando nossa geladeira e nossos armários guardam o necessário para a semana, ou o mês. Quando o bom salário permite morar bem, educar os filhos nas melhores escolas, ter lazer de alto custo, e havendo no banco saldo suficiente para cobrir nossas necessidades. Atacar os desequilíbrios sociais da boca pra fora,  eleger representantes das elites econômicas, que se acham herdeiras do patrimônio nacional, para os cargos públicos, é o que mais fazemos, virando as costas para o Evangelho. Não nos iludamos, o discurso liberal é anti-evangélico, fala de acumulação de riqueza, de capitalização,  de desenvolvimento econômico sem desenvolvimento social - o tal bolo que precisa crescer, no forno deles, para depois ser repartido... ouvimos desde criancinha. Quem está falando de promoção humana? Quem busca o desenvolvimento humano?  Parece ser somente o Filho de Deus. Então, quem vai botar a boca no mundo? Se não falarmos, “as pedras clamarão” (Lc 19,40). 

 

O que é “possível” para Deus: salvar o rico apesar do acúmulo de riquezas, ou “tocá-lo” para que se abra à nova justiça, venda tudo e, depois, siga Jesus? “A riqueza que não é posta a serviço da sociedade é ‘dinheiro iníquo’ e, por isso, não é sinal de justiça, mas de pecado” (R.Pesch, cit./José Bortolini). Trata-se do pecado das estruturas, especialmente. O imperativo não é “vender e jogar fora o resultado da venda”. O “tesouro no céu” da economia pode ser associado à distributividade da riqueza alcançada, mas na aplicação sustentável que resulta em produção e trabalho para o desenvolvimento, que o evangelho jamais nega. Faz o mesmo com o a palavra dinheiro. Howard Dayton (Seu Dinheiro, Bless Editora)  informa que há 2.350 citações sobre a posse do dinheiro, na Bíblia (gr. Argúpia; heb. Miqnê; lat. pecúnia). 

 

A experiência das comunidades cristãs iniciais revela que a busca do poder e da riqueza, não produz segurança e não realiza o cristão e a cristã, enquanto seres humanos. Ao contrário, gera dependência cada vez maior no consumismo costumeiro, enquanto estimula a ganância, que se confunde com a pedagogia do sucesso e da prosperidade, a qualquer custo. Comparadas com a sabedoria sálmica e a espiritualidade da Bíblia Hebraica, essas falsas seguranças não têm valor, são como punhado de areia, como a lama, e iluminam tanto quanto luzes negras na escuridão. Isso porque geram dependência e brutalizam as pessoas, tornando-as gananciosas. A ganância não está distante da opressão. Quando valorizam falsas seguranças, os seres humanos não só acabam tornando-se “insensatos”, “brutais”, “desumanos” e “tiranos”, informam as Escrituras. Os livros sapienciais pretendem ser uma síntese das experiências que realizam as pessoas. Reforçam as relações de gratuidade (hesed), de cuidado, compaixão e misericórdia pelo outro e pela outra (rahamin). O povo bíblico passou por momentos de grave opressão econômica, submetido a dominações poderosas, ao largo de sua história. Ele que fora chamado a ser um povo livre, interpreta os fatos passados que construíram a liberdade e a vida do povo firmada na solidariedade em comunhão. 

 

No Segundo Testamento, o ambiente humano inicial é rememorado nas liturgias dominicais aguçando a dignidade de cada homem e de cada mulher, estimulando o debate contínuo sobre a humanização pela responsabilidade que os envolve, nas escolhas que se devem fazer. A família, o lar, o direito aos bens sociais e econômicos, confundem-se com o cuidado para com todos, quando a comunhão de interesses cristalizar-se-á na oferta socializada de emprego, cuidado com a saúde mental e física, previdência e salários justos, repouso e lazer, uma constelação infindável que lembra o que é viver em dignidade sob os “céus” do Altíssimo, como Mateus gosta de afirmar em seu evangelho.

Marcos 10,17-30 - A resposta do homem rico, perguntado sobre a obediência aos mandamentos, é surpreendente: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (v. 20). O interlocutor de Jesus é o que se poderia chamar de “justo” na vivência da Lei e da religião. Tem consciência de não haver cometido injustiças ao acumular riquezas. Sua fortuna e boa posição social é vista como bênção retributiva de Deus, pois se julga justo, e ele crê não ser necessário fazer mais nada para ser discípulo de Jesus e possuir a herança do Reino. Jesus lhe mostra que não basta “não ter feito nada de mal, não ter prejudicado pessoa alguma”. É preciso ir além, porque a riqueza não é bênção, e sim impedimento, falsa segurança. Falta misericórdia e compaixão pelos esmagados socialmente: “Só uma coisa lhe falta: vá, venda tudo o que tem e dê aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois venha e siga-me!” (v. 21).

 

Aí está a novidade na mensagem de Jesus, que é a mesma novidade do ser cristão. Para o rico, não basta não ter prejudicado as pessoas ao acumular riquezas; não basta ter devolvido o que pudesse ter roubado: será necessário vender tudo e dar aos pobres, numa partilha total. Alcança-se aqui o novo conceito de justiça: ela não nasce do cálculo legal, mas do exercício da misericórdia em relação aos pobres (José Bortolini). A rigor, só depois disso é que se poderá seguir a Jesus: “Em seguida, venha e siga-me!” Nem os próprios discípulos entendem esta colocação; eles estão esperando de alguma forma alguma palavra a respeito de alguma retribuição, uma recompensa; mas ao ouvi-lo falar como falou se surpreendem, e por isso  perguntam: Então, quem escapa?,  bem melhor que a tradução: “Quem pode salvar-se?”.                                 

 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 

 

 
 
 
 
 

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