27o.DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”

 

Jó 1,1; 2,1-10  Ainda conservas tua integridade?

Salmo 26 – Faze-me justiça, Senhor, pois busco minha integridade

Hebreus1,1-4;2;5-12  O homem e a mulher, igualmente, estão sujeitos a Deus

Marcos 10, 2-12Aqueles a quem Deus deu unidade, o homem não separe!

 

UNIDADE INSEPARÁVEL: O HOMEM E A MULHER

 

Tomando emprestado quase que integralmente a tradução claretiana do comentário do evangelho, neste domingo, no sítio SERVICIOS KOINONIA/BÍBLICO, observamos a necessidade de um resumo necessário: “No princípio, Deus criou o homem e a mulher em igualdade de condições, em igualdade de direitos e obrigações de um para com o outro e com o resto da criação. Mas houve tergiversações e interpretações ajeitadas que até o próprio Moisés propiciara (Bíblia Hebraica). Pois bem, Jesus apresenta o original para resgatar a harmonia e o equilíbrio querido por Deus desde o princípio. Pode-se notar também aqui a luta de Jesus pelo mais fraco, pelo que não conta na sociedade. Para a sociedade de seu tempo, a mulher era somente um objeto que unicamente se usava para a necessária ação da procriação e o cuidado das crianças e do lar. Jesus uma vez mais denuncia este desequilíbrio na relação varão-mulher, quando toma partido em favor das mulheres”.

Este ponto é imprescindível para se entender porque, abruptamente, Marcos passa da controvérsia dos fariseus com Jesus para outra questão, agora com seus discípulos. É que  Jesus ficou indignado por ter visto seus discípulos afugentarem algumas crianças que queriam se aproximar dele. A ocasião era muito propícia para servir de exemplo para ilustrar a posição que acabara de sustentar contra os fariseus. Se a opção de Jesus é pelos fracos, pelos marginalizados, pelos sem-direitos, ninguém mais representativo do que as crianças a quem os discípulos tinham acabado de escorraçar. Expressamente, Marcos, que não tem ressalvas em revelar aspectos humanos do Mestre, diz-nos que Jesus ficou muito chateado e chamou a atenção dos discípulos severamente. A opção pelos fracos e pequenos não pode ser uma simples, vã e bela teoria. Talvez percamos cada dia mais a credibilidade precisamente porque somos muito bons para teorizar, mas nosso estilo de vida, o tipo de pessoas com as quais nos relacionamos, distam muito de ser a concretização daquilo que pregamos (Fonte: citada acima).

Tanto o homem como a mulher, rompem o equilíbrio relacional e dão rédea solta à tendência humana de dominar, de cobiçar o bem do outro e isto se transforma em “norma social”, é quando se começa a agir em contraposição do que implica ser modelado pela mão de Deus e ser portador do próprio hálito de Deus, e é como agir da maneira mais rasteira, como guiado somente pela matéria, pelo pó da terra; isto é, da maneira mais vil e vulgar. Em suma, os versículos, retirados de um conjunto tão amplo, tão rico e tão profundo, não nos podem fazer esquecer que fazem parte de uma preocupação muito mais ampla que explicar a origem do matrimônio e de sua indissolubilidade que, desde cedo poderia ser iluminada a partir daí, mas não ser reduzida somente a isso.

Marcos 10, 2-12 - Para ligar Jesus com a lei de Moisés, os sinóticos nos transmitem esta controvérsia com alguns fariseus. As pessoas vão percebendo a relação ampla e livre que demonstra Jesus pelas instituições de seu povo e muito especialmente com a Lei de Moisés. Para os israelitas, a lei de Moisés é todo o Pentateuco, uma lei, todavia, que, em alguns pontos – ou melhor: em quase todos os pontos – estava sujeita a diversas interpretações, segundo as tendências ideológicas dos diversos grupos políticos e religiosos. O judaísmo recente, nos dias apostólicos, distante do período da religião profética, tornara o Código da Aliança uma “lei religiosa”, inaugurando o legalismo que chega aos nossos dias. Alguns eram extremamente rigorosos em sua interpretação, enquanto que outros eram mais liberais, outros mais moderados. Um caso muito em voga na época de Jesus e, certamente também na época das primeiras comunidades cristãs, era a questão do divórcio.

Para começar, e apesar das divergências, em uma coisa estavam todos de acordo: o único que podia pensar em divórcio ou apresentar carta de divórcio era o homem, à mulher era proibido, e também isso era atribuído a Moisés (Deuteronômio 24, 1.3). O ponto em que havia divergência era sobre o quando e o porquê; isto é, na casuística como tal.

A pergunta dos fariseus a Jesus não é tanto para ajudá-los a formar sua própria opinião, mas para pô-lo em dificuldades. Desejam de todas as maneiras jogá-lo contra o povo, ou por ser avançado, ou por ser retrógrado. O que os fariseus não esperavam era a saída de Jesus. Qualquer rabino, qualquer mestre da época,  podia ter pontos de vista diferentes, mas todos estavam decididamente de acordo com Moisés. E justamente foi nisso que Jesus surpreendeu, ao censurar a legislação mosaica a qual aponta como provisória. A Lei não é absoluta como todos pensavam. Só a dureza de coração a justifica assim. Jesus passa ultrapassa o próprio Moisés e apela para o desígnio divino original: homem e mulher possuem igual dignidade (dignitatis, direito que é próprio de alguém). Diante de Deus, homem e mulher têm direitos e deveres iguais.

Na realidade, Jesus continua sustentando a igual dignidade da mulher, uma vez que o costume  reivindicava dignidade somente para o varão. Os discípulos, machistas por formação cultural, atônitos, perplexos, sorvem a lição evangélica para a vida do homem e da mulher no Reino de Deus. A mulher vai-se libertando numa luta específica de anos e de séculos para superar a herança infernal de humilhação e desvalorização a qual foi submetida. A triste herança da nossa cultura biblicista, influenciada pela moral judaico-cristã-muçulmana, é um fardo que vai exigir séculos para ser superada. A visão que tornou a mulher  objeto de uso do macho, para seu deleite e aproveitamento, está enraizada em nossa sociedade e só será varrida do mapa com luta explícita, positiva, afirmativa, das mulheres e dos homens que se disponham a levar esta luta conjuntamente. Dignidade do homem, dignidade da mulher, uma só questão onde a reciprocidade é convocada por Jesus.

Mas, não é só nossa herança judaico-cristã-muçulmana que determinou a atual situação. O que era na Grécia antiga, confinada ao gineceu - cuidado maternal, espaço educativo que pretende apoiar os jovens na sua vida escolar, no projeto da democracia ateniense -, não difere muito do que acontecia no cristianismo inicial. O que significava para ela tal democracia? Elas votavam, discutiam, influenciavam alguma coisa? Não. “Atrás de um grande homem tem uma mulher...” Duplo equívoco, nesse aforismo repetido inconseqüentemente. Prevalece a injustificada hegemonia do macho.

Nesse campo, o da democracia com o exercício dos direitos humanos, tão recente, pode estar a chave do igualitarismo pregado por Jesus. A sociedade contemporânea, apesar de ser sensível à igualdade de direitos da mulher, não consegue superar completamente as atitudes de machismo tão antigas como o próprio homem... e a própria mulher. Machismo que em muitos casos é favorecido pela mesma mulher que não conhece, ou não quer conhecer, seus direitos. Não os quer exercitar em liberdade. Às vezes tem-se a impressão de que as relações de propriedade privada, base fundamental do capitalismo, chegou também à relação matrimonial. A sociedade civil já a consagrou assim, esperamos que não em definitivo. Há uma longa jornada pela frente...                                                                     

                                                                                                      

 Comentários adicionais: Derval Dasilio

 

 
 
 
 

Clic para ler comentários anteriores

 

                         Webdesigner: Eveline

                    Coordenador: Derval Dasílio

                    Respeite os direitos autorais

PRESBITÉRIO RIO NOVO - PRNV
 

 Página Principal          Indique este site             Imprimir 

 

Hospede seu domínio no J.Jiré, e contribua para a divulgação do Reino.