Por Derval Dasilio24º DOMINGO DO TEMPO COMUMANO "B"
O cientista político Luis Gonzaga de Souza Lima há anos
trabalha essa hipótese interpretativa, com a qual compartilhamos:“Nosso
país seria melhor entendido historicamente se partíssemos da constatação
de que desde seus primórdios foi e continua sendo uma empresa privada
multinacional, das mais bem sucedidas que se tem notícia no Ocidente. Épocas houve em que sua moeda era
de longe a mais valorizada do mundo. Pelo fato de ser empresa privada
nunca pôde construir realmente uma sociedade organizada nem criar um
estado que realizasse um projeto coletivo. Elites portuguesas, espanholas
e inglesas articuladas com elites crioulas ocuparam o ensaio de Estado em
benefício próprio mantendo entre 50-60% da população escravizada ou
empobrecida. Espírito privatista das capitanias hereditarias, do
escravagismo, da posse de terras por compra em dinheiro, o assalto
organizado aos bens do arremedo de Estado, confusão do público com o
privado, o patrimonialismo, os compadrios, a falsificação de documento e a
corrupção mais deslavada, pertencem à lógica desta empresa”.
Cada geração lhe deu uma moldagem,
mas sua estrutura de base permaneceu inalterada até os dias de hoje, disse
mais Leonardo Boff, há pouco. Imaginamos que as dificuldades dessas elites
sejam muitas, levando-se em conta o projeto político recente,
transformador. Este ameaça afundar nas causas mais profundas da corrupção
que domina a política, em nosso país, e não como exceção no restante do
mundo, abaixo da superfície que mal se tocou nos últimos meses, no
“mensalão”, na “operação sanguessuga” e outros quetais do cotidiano do
Congresso Nacional. Por que não se entende o Estado como poderes
independentes: Judiciário, Legislativo e Executivo, que é dali que se
distribuem os recursos financeiros para o
desenvolvimento?
Uma classe política que controla
nosso país há séculos se formou com este tipo de salteadores. Hoje,
consideram a república como propriedade privada, sua. Chegando lá, no
poder, sentem o direito de loteá-la para si. O botim tem uma legião de
participantes. Mostram-se irados, agora, porque a pior das corrupções, a
dos bons, passou a concorrer com ela. Corruptio optimi pessima est,
diz o ditado. Ela existe, sim. Calvino falava da “depravação total do homem”. Paulo já dissera,
citando o AT: “Não há justo, sequer um...” (cf.Rm 3,9-10). No entanto, existem pessoas que
sempre resistirão às tentações das benesses do poder, que não negociaram
com as "más companhias", que sempre alimentaram uma relação orgânica com a
justiça e a transparência. Estes voltarão a
governar.
Políticos mais jovens, ou mais
recentes, mal percebem que manejam velhos esquemas. Políticos sem sentido
de responsabilidade, quando
perdem o poder, sempre buscarão o retorno às velhas fórmulas. A
outra estratégia já foi enunciada por ícones da política do retrocesso às
oligarquias, às fórmulas carcomidas, escondendo sua corrupção proverbial.
Políticos mais jovens assumem os palanques, para simular a novidade,
enquanto oligarcas corruptos de sempre escondem-se nos bastidores. Frases
como essa aparecem na boca dos mesmos: “Não queremos o empeachment,
queremos desmoralizá-lo, sangrá-lo e liquidá-lo para que seja envergonhado
publicamente e derrotado, para desaparecer para sempre do cenário
político”. Claro e muito evidente que se trata do projeto de governo
Marcos 8,27-38 - Um episódio importante é o centro desta perícope.
Trata-se da ruptura de Jesus com seus surpresos seguidores. Para eles, em
desacordo com seu líder,
embora o Mestre estivesse cumprindo a vontade do Pai: “não vale a
pena contestar a injustiça, ninguém pode mudar essa realidade; não convém
abordar as desigualdades; é perigoso mexer com as velhas heranças das
elites dominantes de Israel”.
No meio dessa crise do grupo de discípulos, Jesus decide continuar
o caminho e tratar de redirecionar a mentalidade de seus discípulos,
torcida pelas ideologias religiosas sectárias e triunfalistas dos
sacerdotes, fariseus e saduceus, seus contemporâneos. Enfim, todo o grupo
que controlava os israelitas, desde a religião ao governo, no tempo de
Jesus e dos apóstolos. Quando os discípulos entenderam a mensagem de
Jesus, pelo julgamento da causa do Reino que nela estava implícita:
“buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça”, e pela
crucificação do Cordeiro de Deus, decidiram pela transformação do mundo
desumano e violento imposto pelo poder político do império romano
mancomunado com a geração que deu moldura, de bom grado, à dominação
política e econômica imposta.
Seu ideário, sua estrutura de base,
permaneceu inalterado até os dias de hoje, não começaram seu trabalho
apelando somente para o atendimento de necessidades superficiais, ou
abstratas, nem para seu desejo de “acabar com os opressores romanos”.
Conheciam um evangelho firmado na palavra effatah (Mc 7,32-35), um
surdo-mudo impedido de ouvir e de falar ouve essa palavra – que não é
uma palavra mágica, secreta, proferida por um curandeiro. Esta palavra significa
que há um poder divino originado do Cristo de Deus que pode curar da
surdez e do impedimento de falar. Inclusive, refere-se à consciência.
Jesus profere: effatah, enquanto está
libertando consciências.
Ocorre isso quando o desejo de
derrubar os poderosos, comandantes políticos, não passa de populismo, ou
oportunismo falso moralista sobre a corrupção endêmica? Em pouco tempo os
líderes voltam com as mesmas ambições e se convertem em tiranos
implacáveis da política e da economia. Os discursos conservadores, quase
religiosos, prometem remediar as desigualdades, mas somente são eficientes
na medida em que a carência e o desamparo são considerados como injustiças
estruturais. Pecados estruturais segundo o Evangelho! Do contrário, não
passarão da busca de satisfações imediatas e pouco duradouras. A mesma
história, no canto popular: A mesma praça, o mesmo banco, o mesmo
jardim./Tudo é igual, tudo é tão triste... Quem se lembra?
Derval
Dasilio Pastor
da Igreja Presbiteriana Unida |
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