23o DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B” - 2006

 

 

Provérbios 22,1-3; 8-9; 22-23"O que semeia injustiça colherá males".

Salmo 125 – " O Senhor faz o bem aos retos de coração".

Tiago 2,1-17"Não tenhais a fé em acepção de outros".

Marcos 7,24-37Ele fez os surdos ouvirem, e fez  os mudos falarem”.

 

Há alguns anos, várias igrejas evangélicas e uma católica reuniram-se para estudar alguma possibilidade concreta de serviço diaconal ecumênico. A continuidade e regularidade nos encontros anuais da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, as duas Campanhas Ecumênicas CF-2000 e CF-2005, refletem desejos e sentimentos que inspiraram cristãos paroquiais ao serviço e testemunho da fé cristã. Exatamente neste momento.

Há uma concepção sobre a “diaconia ecumênica”, em nível nacional, funcionando há cerca de 30 anos.  É a Coordenadoria Ecumênica de Serviço - CESE. A inspiração é a mesma, serviço cristão ecumênico, portanto. Mas, no caso, fazem falta projetos no âmbito paroquial das igrejas locais. Agora, cristãos ecumênicos aproximam-se da comunhão comunitária em várias atividades  que apresentam uma resposta cristã às necessidades da sociedade civil. A concepção de ecumenismo, espiritualidade e ação, apoiada e estimulada pelas igrejas nacionais ecumênicas, vem exigindo ações concretas em favor dos pobres e necessitados, os quais chamamos de excluídos do mundo competitivo de hoje e de sempre. À margem da economia e do bem-estar social recomendável para toda a sociedade. Assim nascem projetos como a ADE - Ação Diaconal Ecumênica, como o projeto Salve a sua Pele, com a mesma finalidade de acolhida, abrigo, atendimento médico ambulatorial, acompanhamento e encaminhamento hospitalar, conforme as situações e prioridades. E há tantas outras expressões visíveis, em diaconias sociais honestas e sinceramente testemunhais.

Marcos 7,24-37 Os cristãos palestinenses experimentavam a dignidade extraordinária da pregação sobre a missão de Deus nos atos e curas praticados por Jesus, trazendo dignidade no caminhar pedregoso e espinhoso do cotidiano marcado por desigualdades e desassistência à saúde e bem-estar social. Chamavam Jesus de Senhor, reconheciam o senhorio de algo que se tornava real na vida dos seguidores, em termos de uma salvação escatológica já em realização, embora a irrupção plena ainda estivesse por manifestar-se no futuro (W.G.Kümmel). Portanto, uma salvação  para o “final dos tempos” não se sustenta teologicamente, nos evangelhos. A fidedignidade em relação às palavras de Jesus referentes ao presente é bem mais fácil de constatar-se que a discussão do possível futuro ainda por realizar-se. Os sinais da Graça são visíveis, é a primeira reivindicação de Jesus, em relação à sua atividade milagrosa.  Jesus caracteriza suas curas como sinais do tempo da Graça, e sua atividade se torna visível: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus (cf. Mateus 12,28, que diz: pelo Espírito), o Reino de Deus já chegou entre vós” (Lc 11,20). Goppelt acrescenta: quando João Batista manda seus discípulos perguntarem sobre isso, Jesus lhe manda a resposta: “Relatai a João o que ouvis e vedes: cegos vêem, coxos andam, surdos ouvem, leprosos são purificados, mortos são ressuscitados...” (Lc 7, 22; cf. Mt 11,4).

 

O texto diz que os pagãos também foram destinatários do anúncio do reino de Deus por parte de Jesus. Que saindo Jesus de novo da região de Tiro, dirigiu-se por Sidônia ao mar da Galiléia, nos limites da Decápole, tudo em território pagão. E lhe trouxeram um surdo-mudo e lhe pediram que impusesse as mãos sobre ele. Com efeito, vemos em primeiro lugar que Jesus não fica entre os gentios ou pagãos com uma atitude “apostólica”. Não o vemos preocupado em catequizá-los. Tampouco parece preocupado em fazer entre eles proselitismo religioso: não tenta converter ninguém para sua religião, para a fé israelita no Deus de Abraão. E tampouco vemos Jesus aproveitar sua viagem para “difundir uma doutrina”, “ensinar e divulgar as santas máximas de sua religião matricial”. Mais ainda: observemos que nem sequer prega, não faz discursos religiosos. Simplesmente “cura”. Quer dizer, nada de teoria, mas sim o todo da prática. Fatos, não palavras (cf. Servicios Koinonia: Bíblico, Portugues, 23o.Dom. do TC, Ano B). 

 

Mas não podemos dizer que Jesus tenha passado pelo território pagão, estrangeiro, com indiferença, ou com os olhos fechados, como se lá não tivesse nada para fazer, fora do judaísmo, tão familiar em sua pregação. Há o pluralismo religioso, sim. Melhor diríamos que o que considera é não ter muito a dizer sobre tantas diferenças. Não o vemos discursando, nem oferecendo seu “serviço da palavra”, mas cuidando das pessoas e curando-as. Não fala diretamente do Reino (sua “obsessão” dentro dos limites de Israel); fora de seu território religioso “cala” sobre o Reino, mas “faz” o Reino. Ou, como diz o povo, ao vê-lo: “faz o bem”, não fala sobre o bem que faz,  sua ação é concreta. O cuidado do Pai é visível nos atos de cura de Jesus.

Excelente lição para nossos tempos de pluralismo religioso e de diálogo inter-religioso. Serve, inclusive, para o diálogo inter-cristão ou evangelical. Talvez nosso zelo histórico pela “conversão”, pela “chamada dos não-evangélicos à conversão”, pela “cristianização dos não-evangélicos”; ou pela expansão da igreja evangélica; ou pela implantação da fé evangélica em outras áreas geográficas do mundo, em concorrência denominacional esteja sob colapso, quem sabe em cheque. Radicalmente, à imitação de Cristo, talvez nos coubesse evangelizarnos no próprio cristianismo, no todo, e antes de tudo. Estaríamos lançando um olhar para Jesus e tomando nota de sua peculiar conduta missionária. Hoje, é possível que necessitemos, como Jesus exemplificou, “calar mais e agir ainda mais”. Ou seja, dialogar inter-religiosamente, dentro do ambiente evangélico, e do ambiente cristão mais amplo, começando com um “diálogo de vida”. Juntar-nos uns com os “outros”, conjugar esforços na construção da Vida, pode ser a mais concreta experiência de Deus que possamos observar, no sentido da auto evangelização necessária. O cântico nos ensina: “Juntos, somos mais”.

 

Ele fez bem, todas as coisas”. “Ele fez os surdos ouvirem”; Ele fez os mudos falarem”; pode ser até uma tradução pouco fiel ao original (v.37), ou uma derivação da exclamação que, mais provavelmente, brotou nos observadores da conduta de Jesus (“Tudo ele tem feito esplendidamente bem: não somente  fez todo o bem, até fez ouvir os surdos e falar os mudos”). Ou seja, Jesus terá pregado aos gentios com eficácia, mas com “a linguagem dos fatos”, e não impondo uma conversão para sua religião pessoal ou para uma conversão particular. Uma nova vida, sim; decisão, sim; respostas concretas, testemunhais da fé, sim (cf.Servicios Koinonia:Bíblico,Portugues, 23o.Dom. do TC, Ano B). Cabe-nos orar, no entanto:

"Pai, converte o nosso coração para acolhermos todos e todas com amor fraterno, de maneira especial as pessoas enfermas, ou as portadoras de deficiências; as pessoas travadas e impedidas de caminhar em direção à vida plena que nos ensinastes a conquistar em luta contra as potestades da exclusão que obstaculizam a presença do Reino neste mundo. Amém".    

                                                   -

Derval Dasilio

 Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 
 
 

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