22o.Domingo do T.Comum.Ano B. Pão Quente.

 

Cânticos dos Cânticos 2,8-13O amor tem seus próprios caminhos

Salmo 45, 1-9  Ele ama a justiça e odeia a iniqüidade

Tiago 1,13-27  Cada um é tentado pela própria ganância

Marcos 7,1-8Por que os discípulos de Jesus não seguem uma religião de preceitos?

 

RELIGIÃO E FÉ NA JUSTIÇA DE DEUS

 

Temos aqui uma questão de suma importância: como definir a verdadeira religião. A correlação com a Carta de Tiago é evidente. Há uma questão sobre remanescentes estatutários persistentes. Uma valorização da religiosidade expressa em costumes herdados do judaísmo. Fariseus são legalistas e obedientes às tradições sanitárias, porém, convertidas agora em preceitos religiosos. A lembrança do rigorismo chega a ser alarmante. O essencial perde o lugar para o que não é importante, na prática religiosa. A vontade dos homens se sobrepõe à vontade de Deus. Isto é: o que é da religião é mais importante que as questões de fé. Os objetos sagrados vêm em primeiro lugar, o culto, a liturgia pomposa, tornando-se intocáveis e irremovíveis.

 

Marcos 7,1-8  - No outro lado, as necessidades humanas tomam outra feição, a partir da prática das relações religiosas. Vejamos: uma promessa feita a Deus terá validade somente sob a tradição do Qorban. Uma contradição, talvez para responder a uma certa rebeldia existente no meio rabínico, que discutiam esta questão a fundo. Talvez a mesma não fosse tão agressivamente religiosa, mas referente às tradições. Exigem uma resposta, e Jesus não se furta de responder citando textos como está em Ex 20,12; 21,17; Dt 15,16; Lv 20,9. Jesus responde que seu Deus não é desumano a ponto de querer para si algo que é necessário para os homens. Deus não necessita de nada que se refira ao imperativo religioso tradicional ou aos costumes. A religião, assim, sufoca, pode se tornar uma indústria de desumanidade, de exclusão, de negação ou omissão da misericórdia, valor mais alto nas relações humanas.

 

Há uma gravidade considerável, sobre o assunto religião. Quando os mandamentos de Deus são evocados para justificar tradições, dando-se a eles autoridade humana, praticamente não se evitará uma espécie de “procuração” dos céus, que ninguém têm – Lutero combatia a autoridade mater et magistra arrogada pela representante do cristianismo oficial no Ocidente, exatamente nesse ponto. Destaca-se em De Libertatis, que Richard Shaull delineou com maestria, no estudo onde afirma que Lutero foi o primeiro reformador a anunciar uma teologia de libertação. Especialmente nas questões que se referem às consciências oprimidas pela religião impositiva, doutrinaria e politicamente totalitária, no século XVI. Leonardo Boff, Rubem Alves, são outros teólogos libertários, na teologia contemporânea,  a quem Shaull se refere neste assunto (O Protestantismo e a Teologia da Libertação, Pendão Real, 1993).

 

Tiago 1,13-27  Deus não pode ser obscurecido por questões regulamentais religiosas. A preocupação de Tiago com a questão religiosa  é evidente. Uma manifestação rigorosa contra a licença de uma idéia da gratuidade originária de Deus contra a concepção humana da “graça” barata (Bonhoeffer), leva-o a um rigor que até espantou Lutero.  Chamou-a de “epístola de palha”. Mas Lutero contrapunha a fé à “salvação pelas obras”. Tiago, noutro ângulo, dirá: “a fé sem obras é morta”. Mas a questão é ética, e não doutrinal, em Tiago. A severidade de suas palavras se dirige às desigualdades sociais na comunidade cristã, o contexto é o mau testemunho dos cristãos, explicada possivelmente por seus ataques aos religiosos notáveis, ricos, insensíveis ao clamor da miséria reinante.

 

A fala de Tiago é exigente de partilha e solidariedade. Todos proclamam ter fé, no entanto, e Tiago afunda a lâmina na alma religiosa do rico que acentua as diferenças sociais, e do pobre conformado com a injustiça. Aos ricos: “Vós privastes o pobre de sua dignidade”. Aos pobres: “Não são os ricos que vos oprimem? Eles que também vos arrastam diante dos tribunais? Não são eles que difamam o bom nome (cristão)  que recebestes?” Sem justificar o judaísmo, firmado em preceitos religiosos, ligados também ao sentido de “fé religiosa”,  o combate prossegue sobre e no campo da “fé”: “Crês em Deus? Ótimo, está certo. Os demônios também crêem e tremem nas bases” (cf.2,14-19). Ao suposto contraditor faz uma intimação: prove a sua fé religiosa com obras de justiça. As Escrituras apontam: “misericórdia quero” (Os 6,6), e não demonstrações arrogantes de alguma “fé”, sem prova alguma, sem frutos, como Paulo já sugerira (cf.Rm 2,1-6;5-16): “és indesculpável... pois praticas as coisas que condenas”(vs.2,1a e 1c), apesar da verbalização da fé sem profundidade; “tribulação e angústia virão sobre qualquer um que fizer o mal (v.9a)” .

 

Esta afirmação é claramente protestante, no entanto. Aponta o perigo de afirmar-se uma religião, como “imagem de Deus”. Daí os interesses humanos, guetos de autoritarismo, suplantando a fé em nome da religião, os quais se interessam por suprimir o que há de mais belo na religião: a dimensão da felicidade, do equilíbrio, da comunhão. Um sentido de inconformidade existe também, em relação aos sistemas que engaiolam o bem supremo enquanto o coração perverso, egoísta, ganancioso e totalitário.

 

Tudo isso compõe os mandamentos de Deus em torno do eixo da religião verdadeira e suas obras testemunhais. A constante busca do apoio de uma lei divina para as leis humanas ferem a concepção da religião original do povo bíblico: “Os meus mandamentos, juízos, sairão como a luz. Pois lealdade quero, e não sacrifícios cultuais; conhecimento de Deus, e não holocaustos”(Os 6,6). [Outras formas introduzem hesed=xáris=gratuidade, na tradução; porém, o texto hebraico está reclamando fidelidade à “religião profética” revelada. Mateus 9,13 passa a ser determinantemente e incisivo, no Segundo Testamento: “... ide estudar o que significa ‘misericórdia quero’, e não sacrifícios (cultuais)” ; a palavra holocausto é drástica. Sempre associada a “extermínio”. Aqui, poderia significar a anulação da consciência, impedimento para a liberdade de pensar. O termo tem sua origem na palavra greco-latina holocaustum, e significa "totalmente queimado" ou "vítima de um incêndio"; mas até hoje é utilizado o termo hebraico Shoah, na Bíblia Hebraica. Significa catástrofe].

 

O autor certamente conhece a doutrina de Paulo sobre a fé e as obras. Mas reconhece o uso abusivo e as conseqüências da “fé-da-boca-pra-fora”, na religiosidade superficial e sem compromisso. Tiago refere-se às obras que um cristão realiza já no contexto da fé. A chave hermenêutica é a distinção que se deve fazer. Atenção! As obras da Lei como meios de assegurar egoisticamente a justiça perante Deus não funciona, diz Tiago. São desejáveis as obras dos que alcançaram a liberdade como conseqüência da fé? Sim. Não se pode ter uma palavra final sobre as afirmações de Tiago, mas não poderemos nunca acusá-lo de ambigüidade. Serve ao crente  o exame das muitas formas e sentidos da palavra fé. Fé supersticiosa em símbolos, amuletos, relíquias; fé em orações de “cura” ou de “libertação”; como a fé religiosa substituindo a gratuidade divina, por exemplo. A fé bíblica, de fato, como lembrada em Hebreus 11, compreende-se como fé na intervenção de Deus na História.  É a história da salvação.  Não é discutida aqui.  Também a fé na justificação dos pecados, e na conseqüente ressurreição, para uma nova vida, não está aqui. Mas, não há dúvida alguma de que a fé ética na justiça de Deus é a grande afirmação epistolar de Tiago. O barateamento da Graça; a inconseqüência de quem afirma a inexistência de um chamado ao serviço e ao testemunho da fé, não encontra eco em seus escritos.

 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

*Leituras bíblicas: Bíblia em Linguagem de Hoje, preferencialmente

 

 
 
 
 
 

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