21º Domingo do Tempo Comum – Ano “B”

1Reis 8,1-43 – Ele é o Grande Mistério, é livre como o vento

Salmo 84 – O meu coração e a minha carne se alegram com o Deus vivo

Efésios 6,10-20 – Todos nós, em família, somos ministros de Cristo

João 6,59-69 – O Espírito transforma o mundo

 

 

NA FORÇA DO ESPÍRITO: UM PENTECOSTES CONSTANTE  NA IGREJA

 

A Arca da Aliança, na tradição israelita, é rememorada aqui como num poema: a presença de Yahweh não está contida no Templo, tão somente. Yahweh é o grande mistério, livre, como o sol ou como os elementos. Porém, tem sua morada na terra, no meio de seu povo, que é Israel. Mais que tudo, a Arca guardada no Templo representa o lugar onde o Nome do Senhor é guardado. O povo das tribos não tinha um templo, mas tinha o santuário de Siquém. É o ponto de partida de um movimento novo que surge do Êxodo. O povo deve aceitar sua nova identidade teológica, social, cultural. É fundamental identificar o Deus do Êxodo: aquele que vê a opressão do povo, que ouve os gritos de dor e conhece seus sofrimentos, que está decidido a baixar à terra para livrá-lo do poder dos opressores (cf. Êxodo 3, 7-8). O Deus dos Pais é o Deus da História.  

As tribos procedem de diferentes origens culturais, religiosas, étnicas, mas agora se aglutinam, graças à fé neste Deus do Êxodo, num só povo: Israel. É a teologia da Aliança e da fé em Yaweh, e não o sangue, que os compacta numa aliança tribal. O coração desta aliança tribal é a fé comum neste Deus dos pobres. Mas supõe, também, identificar os deuses “estrangeiros”, os deuses cananitas e egípcios, imagens corrompidas de Deus, que geram escravidão e morte: um sistema de impostos, uma vida de escravos, uma religião opressora. Trocar esses deuses pelo Deus do Êxodo, fundamentados numa sociedade de leis para a vida, de repartição da terra, de novo culto com base na Páscoa, é o tema central desta grande assembléia de Josué em Siquém.

O texto de Efésios (6,10-20) nos levará a outra dimensão e a outras imagens: a cabeça e corpo de Cristo são a igreja. Nessa eclesiologia a igreja é sinal da vigência da nova aliança, possivelmente.Vai além da comunidade histórica ou sociológica, quando as relações entre as pessoas são comparadas às do homem e da mulher e o matrimônio que os une. Há muito que dizer sobre isso, notadamente na aplicação metafórica aos direitos da mulher na Igreja. Perguntas são feitas com justiça, sobre o assunto. Por que, no terreno dos ministérios, largamente discutidos no capítulo 4 (1-16), pode-se extrair que os ministérios especiais, diaconato, presbiterato, pastorado e magistério, todos os ministérios da Igreja serão reivindicados pela mulher em igualdade de condições – o escritor explícita a teologia paulina recebida: toda a igreja é ministerial! O texto trata aqui da família cristã, do “código familiar” aplicado à eclesiologia, também. É importante excluir a idéia como se fora aplicada somente ao matrimônio, onde estão somente um homem e uma mulher. A questão verdadeira, refere-se ao princípio da família. Todos os membros da família da fé são ministros. Anacleto Rodrigues traduz as palavras trabalho e serviço (’ergon diakonias) com propriedade: ministério é serviço (Ef 4,12). Toda a igreja é diaconal. Não se tratará de submissão, mas de entrega mútua, de todos, pais e filhos, aos ministérios e à missão de Deus na Igreja, (Miguel de Burgos).

João 6,59-69 – Eis um texto complexo, aparentemente contraditório, muitos querem levá-lo comparativamente a Paulo, e discuti-lo à luz de uma idéia gnóstica da tricotomia corpo-espírito-alma: o espírito é que dá a vida, a carne não serve para nada, só a alma é imortal. Os monges medievais, fugindo do mundo real, ingressando na introspecção espiritual, descobrindo demônios embutidos no corpo e nos desejos humanos. Pensando assim, poderiam dizer. “o espírito pertence a Deus, o corpo ao imperador” (uma idéia da vida política, cidadã, separada da vida espiritual). Afasta-se a experiência de Deus no corpo, e desse modo aproxima-se somente de uma espiritualização que tornaria essa experiência possível. Perguntaríamos, à luz do ensinamento mais recente da teologia: por que o discurso eucarístico é tão escandaloso (não tem parte comigo quem não come da minha carne), como está em João 6,53-55, se esse discurso está relacionado com a vida humana integral, onde é inseparável a experiência real da experiência de transcendência espiritual? O ser humano indivisível. A teologia entende que o corpo é uma representação multivaloral que expressa realidades físicas, sociais, políticas, jurídicas, institucionais, enquanto se exige também que o corpo seja visto como o “locus” da experiência humana. O corpo se expressa em sensações, emoções, sensibilidades, sentimentos, percepções sobre o mundo, a partir da experiência física da pessoa.

A resposta do evangelho joanino chama a atenção para a necessária flexibilidade da fé. Não é a inteligência ou a racionalidade que conta aqui. A carne é um dos princípios existenciais da vida. Ainda que orgânica, sem o princípio vital do alento espiritual, está morta e não se apercebe disso. Sendo “limitado à carne”, o homem e a mulher não vão além das realidades que os cercam, aceitam a limitação de seu espaço. Não sonham e não agem para transformar a morte em vida: e Jesus fala de vida plena e abundante! Assim é nascer no Espírito. Nascer  para a vida.

No diálogo com Nicodemos (Jo 3,5-8), Jesus aponta o novo nascimento no Espírito: “Não entrará no Reino de Deus quem não nascer da água e do Espírito. Da carne nasce a carne, do Espírito nasce o espírito”. No grego, pneuma é o Espírito de Deus; nous é a forma humana de transcendência espiritual. A função do Espírito é primordial, precisa ser reconhecida nos tempos imemoriais da Criação, desde a experiência humana  no “princípio”. No mundo ainda por ser criado, a terra era sem forma (tohu) e vazia (va-bohu). “E o Espírito de Deus (ruah = um vento constantemente em movimento; brisa, fôlego, sopro da vida) agitava a superfície das águas” (Gen 1,1c; cf. BJ e C.V.Shwambach, Vox Scripture,Volume XIII,n.1). Os paralelismos entre os elementos da realidade física, por exemplo: o fogo, a água e o vento devem ser considerados, para se entender os princípios da vida. Quem nasce do Espírito/vento move-se sem limitações num espaço livre e criativo, afeito às construções utópicas.

A água, contudo, evoca o seio materno, o ventre da terra; a tradição da Bíblia Hebraica evoca a mulher como “poço”, “manancial”; a água é um elemento físico, mineral, cristalino, límpido, inclusive, onde a vida é gerada. O fogo junta-se às palavras cósmicas, palavras que levam o homem ao ser das coisas; desde a aurora dos tempos o homem entende seu corpo como o mundo onde agem os elementos que sobem dos abismos e descem das alturas. O mundo é o corpo humano – corpo do ser-homem e do ser-mulher – sujeito a uma espécie de cosmos interno e externo. Desse fogo, que brota a vida imemorial, um poder é evocado, como uma chama que revela as regiões mais profundas da alma da humanidade, aquém do tempo, dos limites e dos horizontes.

O homem e a mulher também não podem ser explicados enquanto prisioneiros em quadrantes e horizontes limitados, física e socialmente. São seres que fazem cultura e são aculturados ao mesmo tempo; homens e mulheres transcendem constantemente os horizontes históricos, chamados a “liberdade no Espírito” que sopra onde lhe apraz (Jo 3,8), na busca de novos horizontes, cavalgando sonhos e utopias que transformam suas realidades. São livres do fatalismo religioso ou ideológico, e dos determinismos. Sejam sociais, políticos, ou biológicos. Construindo novas vidas, pois o dom do Espírito procede de Deus.

Finalmente, a confissão de Pedro, diante da pergunta, após a debandada dos discípulos que não entendiam as palavras de Jesus, e talvez fossem as mentalidades do pragmatismo, da necessidade dos milagres imediatistas, exigentes de uma intervenção direta na natureza, como a produção do maná no deserto (Ex 16,4). O Pão da Vida é também o Pão do Céu: “A quem iremos, se  tens palavras de vida eterna”? Quem adere a Jesus, sugere Pedro, não pode mais fugir dos ensinamentos salvadores do Consagrado de Deus. Novas realidades são construídas pela força do Espírito de Deus em Jesus Cristo. O crente não tem o direito de duvidar.

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 

 

 
 
 
 
 

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