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20o. DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO
“B” 1Reis
2,10-12; 3,3-14 – Eles fizeram Israel
pecar... Salmo 111
– As obras do Senhor são de verdadeira
justiça Efésios
5,15-20 – Sede sóbrios,
abandonai o êxtase João
6,51-58 – Paz e Plenitude,
alimentadas pelo Pão da Vida Algo que é muito embaraçoso nos tempos atuais é a verdade sobre a compreensão “evangélica” que torna a visão de Deus, do homem, da sociedade e do mundo, extremamente preocupante, envolvida com ganância, propósito, sacrifício financeiro em favor de dirigentes religiosos, promessas de prosperidade, politicagem rasteira, tal qual as mais incômodas apostasias e heresias dos primeiros séculos da Igreja. Apesar da confusão, esse conhecimento nos traz uma culpabilidade relativa, uma vez que aceitamos o pragmatismo propositista que nos ensinaram e que procuramos imitar nas igrejas, a qualquer custo. São absurdos, descalabros, no
caminho e na transmissão da fé bíblica. Simão, Ananias e Safira, são
perdoados e mais respeitados que Estevão, mártir da fé resistente.
Políticos representando milhões de evangélicos envolvidos em mensalão,
operação sanguessuga, propinoduto, segundo as últimas notícias que
envolvem senadores e deputados federais do Congresso Nacional, eleitos
como “homens de fé”, “homens de deus”, respondendo a processos por roubo e
corrupção, compõem os personagens da nova linguagem nos púlpitos e nos
templos transformados em palanques da nova forma cultural e política de
“ser evangélico”. Lê-se a Bíblia fundamentalista, enquanto se adestram os
fiéis para o uso da urna; enquanto se defende o senador eleito com auxílio
do crime organizado; enquanto se promove para nova eleição o deputado que
renunciou para escapar à cassação do mandato evitando a inelegibilidade. É
o fim do conceito da transparência evangélica daqueles que foram sempre
conhecidos como reserva moral da sociedade. Roubar, usar de falsidade
ideológica, enganar eleitores, não é mais pecado imperdoável. Agora
compreendemos o aforismo de Lutero, escrevendo a Melanchton: “Sê pecador e
peca forte, mas sê ainda mais forte na fé”, (esto peccator et
pecca fortiter, sed fortius fide). Só que estes evangélicos não
seguem o pensamento do grande reformador protestante, mas fazem questão de
lhe fazer o acréscimo apócrifo: ...“e crede mais fortemente na impunidade”.
Eis o complemento do antievangelho da ganância de nossos parlamentares,
representantes de seguimentos evangelicais ferrenhos, defensores da
prosperidade a qualquer custo, especialmente das igrejas que dominam,
enquanto pastores e cabos eleitorais da corrupção alimentam as campanhas
eleitorais dos sem pudor. Dietrich Bonhoeffer, mártir do
cristianismo moderno, dizia que é preciso estar atento ao fato de que Deus
entrou na história e na carne da humanidade através de Jesus Cristo; que
nossa herança difere da herança de outros povos, quanto à revelação do
Evangelho encarnado, quando prenunciava a pós-modernidade religiosa, a
secularização, vendo religiosos agindo como se Deus não existisse, e
arrogando-se de serem donos do destino histórico de cada um e da sociedade
humana em seu todo. Agrade-nos ou não, “nossos antepassados são
testemunhas do ingresso de Deus na História” (Thomas Merton).
Deus, não um movimento avivalista ou carismático. Quer admitamos ou não,
sendo protestantes, evangélicos, católicos, a revelação aponta para Jesus,
que veio para o “mundo” e o mundo não o recebeu... mas não utilizou sua
imagem para impor a hegemonia evangelical triunfalista que adotamos. Ao
menos no período apostólico da Igreja, os cristãos respeitavam o ethos
bíblico. Por que nossos concílios eclesiásticos não consideram isso?
Efésios 5,15-20 – O autor de
Efésios se dirige à comunidade de cristãos e cristãs, e não aos de fora.
Uma segunda exortação é direta: “não vos embriagueis...”, uma passagem que reflete os perigos
da embriaguez comum no meio e no culto pagão (e por que não uma paráfrase
ou metáfora da embriaguez do poder e do triunfalismo?). Os cultos pagãos
estão presentes no cristianismo prático, cultural, remontando ao culto
paralelo a Dionísio: o vinho era um dos meios cultuais para o êxtase
religioso, visava unir o crente à divindade. O jeito evangélico
pentecostal-gospel-carismático ajuda a entender tudo isso. Por
último, vem a exortação à temperança que indicará ao crente que deve
dirigir-se sempre a Deus Pai com sobriedade, não sob êxtase, em nome do
Filho, sob a inspiração do Espírito Santo, com sentimentos de gratidão
pela sabedoria alcançada na transcendência. A sobriedade e a sabedoria
modelam a mente, não as drogas, metafóricas ou químicas, que levam ao
êxtase (cf.Aldous Huxley). Vale para os nossos dias, enquanto adeptos da
sociedade consumista do
“evangelho” predominante? Muitos seriam infiéis à
revelação recebida. Gerando confusão, rebelião, fermentação, e até mesmo
desespero, pregando um antievangelho sem sal e sem fermento, mas coberto
de ouro e prata, ou embriagado por ênfases pseudocarismáticas (cf. 1Cor
12,28-31: os melhores dons, carísmata ta mêizona, estão muito acima
da exuberâncias do paroxismo carismático, ruidoso, exibicionista,
narcisista, tão apreciados, ensinados no capítulo 13, integralmente,
lembram que, sem a força transformadora de Deus (dynamis tou Theou),
agape, os carismas são apenas ensurdecedores, vazios de sentido, sem
proveito (1Cor 13,1-3). Seriam apóstatas do evangelho de Deus, enquanto
religiosamente declaram-se crentes? Enquanto afirmam-se portadores
verdadeiros de uma “certa” revelação particular que estimula a religião
com propósito, o sucesso, o sacrifício exigente de retribuição, há “uma
mão invisível” a comandar o mundo religioso que não mais precisa de Deus;
a mão que rege o mundo cultural que elegeu Adam Smith como seu profeta e
reformador (Teoria dos
Sentimentos Morais no Capitalismo: uma teoria de espiritualização do
lucro, da propriedade privada e da livre iniciativa...) e abandonou o
pensamento dos reformadores originais, luteranos e
calvinistas? João 6,51-58 – O texto nos faz reavivar Provérbios,
livro da literatura sapiencial da Bíblia Hebraica (Pr9,1-6), um convite à
Sabedoria da revelação encarnada. Há um banquete preparado para os
discípulos de Jesus, mesclado com vinho. Está posta a mesa eucarística, e
os evangelizadores, testemunhas da Revelação, são despachados a todos os
lugares para convidar as gentes à Eucaristia. Que venham a “comer do pão
da vida”. Mateus reproduz a
mesma idéia do chamado à comunhão: “venham, meu banquete está
preparado” (22,4). Não há
restrições, é o Senhor que convida a todos, sábios e ignorantes, prudentes
e imprudentes, pobres e bem-postos. Bernardo (XII séc.) avisa sobre a
prudência: “Se és prudente, acerca-te da Fonte de toda Sabedoria, ela
te dirá de qual sabedoria necessitas”. Essa advertência está bem
delineada em Efésios (5,15-20). O que deve ocupar as testemunhas de Cristo
é, em realidade, “saber” em cada momento, no meio da ausência de
solidariedade e compaixão dominantes, enquanto impera a maldade, o que
Deus quer realmente dos crentes. Por fim, João aborda o termo
“incompreensão” (pisteúonousin =“sem capacidade de crer”),
tão obstruídos e formatados doutrinariamente estavam os ouvintes que
contestavam Jesus. A eucaristia plena, hospitalidade do Reino, admitindo à
comunhão todos os desgraçados (destituídos de xáris), abandonados
pela religião dominante, levantava suspeitas razoavelmente justificáveis.
Descartes e Comte tomam conta da mente religiosa, ainda hoje. O pensamento
racionalista e positivista dirá que não há inteligência capaz de aceitar
tal afirmação: “Eu sou o pão da vida... aquele que não come da minha
carne não faz parte de mim” (cf. João 6,53-56). Jesus se apresenta
como o pão vivo que mata todas as nossas fomes, pão que veio de Deus; pão
que alimenta a uma multidão esperançosa de Paz e Plenitude (Claude E.Labrunie). Para fundamentalistas israelitas ou cristãos a equivalência
existe: a verdade reside na abstração, ou na lógica doutrinária e
ideológica, pragmática, que não alcança os sonhos, as utopias de
libertação e salvação, onde o Deus da Vida habita e chama os homens e as
mulheres. Para nós, cristãos escatológicos que sonham o Reino, é um
convite para a comunhão e hospitalidade eucarísticas. Mergulhados na
comunhão, podemos experimentar a proposta libertadora de Jesus. Ela não
passa pela religião propositista dos meios, da concepção sacrificial –
obras humanas – para a (ou uma) salvação. Está distante da aceitação
hegemônica do evangelicalismo,
através de seus integrismos fundamentalistas. Também não combina
com as desigualdades, o caos das violências reagentes/conseqüentes que
impedem a unidade harmônica da cultura da fé compartilhada para que o
Reino de Deus se estabeleça. A comunhão dos fiéis continuará seu protesto
contra o pensamento dominante: só Jesus é o Pão da Vida. Pão escatológico
que alimenta homens e mulheres... até que o Senhor venha!
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Derval Dasilio Pastor da Igreja Presbiteriana Unida |