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1o DOMINGO DA QUARESMA – ANO ‘B’

 

Gênesis  9, 8-17 –  E disse Deus:“... juro não irar-me contra ti nem reprovar-te”

Salmo 25,1-10 –

1Pe 3,18-22 –  Cristo desceu ao mundo dos mortos para resgatá-los

Marcos 1,9-15 – No homem Jesus reaviva-se para os oprimidos

 

Gênesis 9, 8-17 –  Examinando essa parte da intrincada colcha de retalhos documentais dos capítulos de 1 a 11, que merecerão sempre abordagens específicas (a teoria estabelece identificações dos escritos de E- “elohista”; J- “javista”; D- “deuteronomista” e P- “priest”, “sacerdotalista”[P1, P2, P3, P4], as principais fontes conhecidas), nesse primeiro bloco do livro de Gênesis. No texto deste momento o autor sacerdotal aponta a história das três grandes alianças, contratos, compromissos, de Deus, cada qual com a sua marca. A primeira, com Noé, é um sinal cósmico: para Noé é o arco-íris, com suas “cores” definidas em Isaías 54,9: “Acontece-me que no tempo de Noé jurei que as águas do dilúvio não voltariam a cobrir a terra; assim, juro não irar-me contra ti nem reprovar-te”. O homem e a humanidade são salvos do Dilúvio.

 

A segunda aliança é com Abraão, cujo sinal é a circuncisão. Trata-se de uma escolha: um povo é separado no meio de todas as nações, por gosto do divino Deus. A terceira é com Moisés: eis aí o “sábado”, sabah, dia sagrado, reservado como sinal libertário, sétimo dia (sete anos para a alforria e todos os livramentos, dos impostos até o descanso da terra; qüinquagésimo dia, cumpridos os 7x7=49 dias, do Jubileu bíblico do Primeiro Testamento; tempo da graça, cf. Is 61,1-3 e Lc 4,19ss). O cajado de Aarão, símbolo sacerdotal, no erguimento do santuário a Yahweh por parte de Moisés, consagra o sinal do perdão dos pecados. Em todos os casos, os sinais das alianças são libertários. A teologia dos escritos “sacerdotais” apresentam o sujeito que intervém na história humana, libertando o homem e a criação, muitas vezes.

 

Por que o ponto de contato com a “quaresma”, neste texto? O Dilúvio dura quarenta dias e quarenta noites... do ponto de vista sacerdotalista (Gn 7,24); cento e cinqüenta dias para “J” (Gn 8,3), porém, há evidências semelhantes de uma Tradição Primitiva que cuida também das origens da humanidade, referindo-se ao assunto (André Feullet, História da Salvação da Humanidade, Loyola, 2000). Desse modo, podemos aproximar-nos do sentido que os “sacerdotalistas” desejaram colocar para o Dilúvio e a Aliança: Yahweh não faz uma aliança bi-lateral com os homens, simplesmente toma a iniciativa de salvá-los. Está implícito que as alianças humanas são passíveis de corromperem-se ao sabor dos interesses do homem.  É graça, misericórdia, hesed, “gratuidade absoluta” de Yahweh, no Primeiro Testamento. Deus não pedirá contas do sangue do homem, nem mesmo dos assassinos, os que matam ou cultivam a morte, impondo-a a outros homens... inclusive as feras (Lev 17,10-14; 19,26; Dt 12,23).  Finalmente, a fonte “javista”, no final do capítulo 8 (21-22), em conseqüência do sacrifício de Noé, relata uma repercussão dessa aliança gratuita: “Não amaldiçoarei mais a terra por causa do homem... nunca mais castigarei os vivos como tenho feito. Enquanto durar a terra, semeaduras e messes, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não terão fim”!

 

1Pe 3,18-22 – Trata-se de uma instrução batismal, um texto enigmático. Está entre os mais complexos  do NT. Parece referir-se à questão crucial do sofrimento do inocente, no entanto. O que está claro no texto são questões como  “a morte redentora de Cristo, de alcance universal e definitivo... e irrepetível” (Hb 6,6;9,26); a morte redentora conduz o homem para Deus, e consuma-se em sua reconciliação (2Cor 5,20), Jesus morre por sua condição humana, mas ressuscita por obra do Espírito Santo. O enigma ainda não foi resolvido pela teologia: a pregação de Jesus às “almas encarceradas” de antepassados.  A leitura do texto, porém, condicionada à mentalidade do AT sobre a existência além-túmulo, será elucidatória. Aqui está: quando o homem morre “desce” pelo sepulcro ao Xeól, mundo subterrâneo tenebroso onde estão os mortos.  Estes possuem uma existência fantasmagórica, umbrática, como a dos fantasmas folclóricos a que estamos acostumados (cf. Is 14; Ez 32 e etc), conforme analisa a Bíblia do Peregrino, de Shöekel. Aqui, não faz sentido a concepção de que o corpo fica inerte no sepulcro enquanto a alma se separa e “desce ao inferno”, como quereriam pensadores gregos da antiguidade.

 

Por fim, este escrito procura mostrar que “nesse mundo dos mortos” encontram-se os contemporâneos  de Noé, os quais não o ouviram. Porque não deram atenção, morreram (Ez 33).  A família de Noé, no entanto, foi salva porque ouviu e creu em Deus. Jesus Cristo, agora partilhando da sorte de todos os homens, desce ao mundo dos mortos (Credo Apostólico), não para permanecer ali, mas para proclamar a “libertação” (Is 61,1).  Pois bem, a imagem construída aqui refere-se ao Batismo.  É uma imagem antitípica da realidade que se apresenta na imersão batismal na água (batismós). Não é um banho físico, mas transformação da consciência que se orientará para Deus e para a salvação que ele oferta, sem exigir retribuição. Mais uma vez aflora o tema da gratuidade divina, xáris, sempre apontada na iniciativa de Deus para salvar homens e mulheres de todos os tempos.

 

Marcos 1,9-15 – Jesus é o Filho de Deus. Nada de bom se poderia esperar desse homem, vindo da obscura Nazaré, uma localidade insignificante ao Norte. Jesus é  alguém sem nenhuma carta de apresentação. No entanto, é com ele que acontece algo de inesperado: “Logo que Jesus saiu da água, viu o céu se rasgando, e o Espírito, como pomba, desceu sobre ele. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho amado; em ti encontro o meu agrado’ ” (1,10-11). A manifestação do inesperado, do novo, é descrita pelo evangelista através de um rasgão do céu e de uma voz que de lá veio. O céu se rasgou – Marcos diz que em Jesus se realiza outra profecia. De fato, o desejo do profeta Isaías era: “Estamos como outrora, quando ainda não governavas, quando o teu nome nunca fora invocado. Quem dera rasgasses o céu para descer!” (Is 63,19). Pois bem, esse desejo agora acontece. O céu se rasga para que Deus esteja presente entre os homens. O que é que faz com que o céu se rasgue e o Espírito de Deus desça sobre Jesus? O livro do Êxodo mostra claramente por que Deus desce: “Yahweh disse: Eu vi bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios e para fazê-lo subir para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel...” (Ex 3,7-8).

 

No homem Jesus, portanto, reaviva-se para os oprimidos a experiência de Deus agindo na história para libertá-los. A presença do Espírito em Jesus é muito importante porque indica a presença do divino no homem de Nazaré. Mais uma vez, são as Sagradas Escrituras que ajudam a entender o texto de Marcos. A voz vinda do céu, ao declarar Jesus como Filho amado, no qual o Pai encontra o seu agrado, nos faz lembrar duas passagens do Antigo Testamento: Salmo 2,7 e Isaías 42,1. Marcos, portanto, já confessa a sua fé: Jesus é o Messias, o Filho de Deus, que reinará sobre os homens. No entanto, esse rei é servo escolhido por Deus Pai, a serviço da justiça (“promover o direito entre as nações”). O Filho do Homem veio para servir e não para ser servido (cf. 10,42-45). O batismo de Jesus não é apenas um exemplo de humildade de Jesus, mas a revelação de que ele é o Messias esperado, o Filho de Deus presente no mundo (Euclides Martins Balancin, O Evangelho de Marcos, Paulus).

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

 
     
 
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