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19o DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B” - 2006
Salmo
130 – Das
profundezas clamo: ouve a minha voz, suplico.
FOME
DE UNIDADE NA IGREJA DE JESUS CRISTO PAN
DE LA EUCARISTÍA / Pão da Eucaristia Luís de León ¿Cómo
dura, sin que, comiendo dél, se nos acabe?/Como dura sem que, dele se
comendo, nunca acabe? Si
Dios, ¿cómo en el gusto a pan nos sabe? Se Deus, como é sentir
seu gosto? ¿Cómo
de sólo pan tiene figura?/ Tem somente a figura de pão? Si
pan, ¿cómo le adora la criatura?/ Se é pão, como pode a criatura o
adorar? Si
Dios, ¿cómo en tan chico espacio cabe? / Se é Deus, como cabe num
espaço tão exíguo. Si
pan, ¿cómo por ciencia no se sabe? / Se é pão, como não somos
conscientes disso? Si
Dios, ¿cómo le come su hechura? / Se é Deus, como pode ser comido
em seu feitio? Si
pan, ¿cómo nos harta siendo poco? / Se é pão, como pode nos fartar
sendo tão pouco? Si
Dios, ¿cómo puede ser partido?/ Se é Deus, como pode ser partido?
Com este poema - ouso traduzir do meu jeito, sem
roubar do leitor o gosto de seu próprio entendimento -
introduzo meu livro inédito "Reflexões sobre o
Partir do Pão e a Eucaristia". Assim, sob a influência da
beleza, que é atributo de Deus, e evoca seguramente a sua glória
participada com o humano, introduzimos os textos coletados aqui e ali,
sempre prontos aos acréscimos, aos sentidos novos na releitura que se
abre ao transcendente. O mistério da Santa Ceia é da alçada do mistério
sagrado e não da filosofia. Na poética das utopias sonhadas,
recorreria a Gaston Bachelard, parodiando-o: “ousai
dizer o que chamais de eucaristia, doce como um fruto que
primeiramente se condensa, / para chegar à claridade, ao despertar,
à verdade transparente,/ tornando-se uma coisa aqui da terra/ que
significa o sol e a própria terra”. Pretender
aproximar-nos dessa significação por meio de considerações ontológicas,
relativizá-la na origem das coisas, conduz a um impasse.
São condenadas ao fracasso as especulações que pretendem
compreender pela razão e pela inteligência aquilo que pertence à
ordem da fé, por submeter a exame de laboratório algo que se furta
a toda objeção ou
intervenção humana
(J.-Ph. Ramseyer). Assim, o mesmo ocorrerá com as gaiolas doutrinárias
que prendem os mistérios de Deus, enquanto excluem os demais irmãos
em Cristo na comunhão particular. Enquanto não recebermos todos os
irmãos na mesa da comunhão, em hospitalidade eucarística,
sinalizaremos o pecado que não nos habilita à eucaristia plena;
pecado que nos separa (diábolos), enquanto retardamos a
hospitalidade do Cristo que orou por nós: “Pai, que sejam um,
como Eu e Tu somos um!”
Compreende-se, pois, que Jesus não tenha usado imagens celestes para
anunciar as coisas transcendentais do Reino de Deus, mas tenha buscado
a concretude terrestre do pão e do vinho, oferendas da mesa da comunhão.
Um banquete é uma boa imagem para representar a promessa do
Reino celebrado por seus súditos, de todas as procedências, uma
verdadeira comemoração pelo cumprimento das promessas divinas, e se
tenha então apelado às figuras das dádivas e das oferendas da mesa
eucarística. Na repetição de uma simbologia de costumes e significações
históricas a ceia pascal pretende dar a imagem antecipada da
realidade escatológica que é o banquete messiânico, sem exclusões.
Ondas nervosas correm nas linhas e nas imagens do texto joanino.
A raiz do homem, suas profundezas imemoriais, a alma, o ser inteiro (nephesh)
tem fome e sede de vida (hayyîn é vida; no momento da criação
do ser-homem Yahweh soprou nas narinas do homem “um fôlego
de vida”; adam, coletivo de humanidade, começa a viver com o
“alento” do Criador).
Comer e beber são necessidades vitais. Uma vida
feliz sem fim, plena de bem-estar social e político, eterna,
emerge de utopias mais remotas, mesmo quando aparentemente esquecidas
nos abismos da existência
humana. O equilíbrio virá no anúncio conseqüente do shalom, a
paz que excede a todo entendimento, onde todas as formas de bem-estar,
concretas, terrenas, celestiais, são alcançadas.
Trata-se de um pensar que opera no mais escondido lugar onde se quer
sepultar, sem esperança de ressurreição, reafirmado nas promessas
do Deus da Bíblia. Os cumprimentos finais encontram aqui uma antecipação
histórica, uma atualidade, que é presença e promessa do Reino de
Paz e Justiça. Reconhecer e compreender agora as significações
das coisas últimas em suas manifestações mais
sensíveis, agora; alimentar a esperança a partir da encarnação
concreta nos problemas e nas necessidades humanas, na celebração da
Ceia do Senhor, mais que nunca, é admitir que é o Pão da Vida que
se oferece como alimento e libertação dos homens e das mulheres no
tempo de salvação. Reconciliação é uma palavra mágica, “...para
que o mundo creia”: o mundo só crerá no Salvador e na salvação
se os cristãos se apresentarem como reconciliados e unidos.
Para o evangelista João o mistério da Eucaristia se inscreve numa
situação cuja peculiaridade é que, sendo terrestre, ela se
esclarece no céu, donde, aliás, recebe sua significação. As
realidades presentes são promessas de um destino sobrenatural, ao
passo que as realidades futuras já tomam forma nas figuras temporais.
A memória reavivada na Eucaristia alcança um surrealismo
impressionante, como significações
que evocam flores e perfumes, belezas do mundo real, gostosas
de serem sonhadas, e saborosas ao mesmo tempo, no dizer da instrução
para a comunhão da mesa. Só a voz do poeta, sem surpresa na
linguagem de João, permite penetrar no âmago da instrução eucarística
do evangelista.
A comunidade de fé, ciente das próprias forças e tarefas,
supera a divisão entre a hierarquia e o laicato, entre teólogos e não-teólogos.
Porém, principalmente, está acima das divisões históricas que
clamam por reconciliação. Crê que a Ceia é do Senhor, e não da
Igreja. Ou melhor: de nenhuma igreja denominacional. Vence, assim, na
própria área de ação, a alienação produzida pela divisão de
tarefas, na Missio Dei (Missão de Deus). Numa sociedade que
estabelece privilégios e fronteiras de classes mantidos através da
crescente divisão do trabalho e da especialização, a Igreja na
unidade pode demonstrar a esperança por um futuro mais humano por
meio do que estamos chamando de "comunidade ministerial"
evocada em Efésios 4: “toda a Igreja é ministerial”. Todos os
batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, são chamados
por Jesus Cristo para realizar a Missão de Deus. Por quê? Porque no
ato do Batismo há a impetração da bênção. A imposição de mãos
no batismo significa a inclusão do batizado nos ministérios da
Igreja, nas palavras sábias do colega Anacleto Rodrigues da Silva.
Está em companhia de Comblin, que também pensa assim. Concordamos,
aplica-se também aos que “podem”, ou que são “habilitados” a
participar da Ceia do Senhor. Que mais clareza se exigirá da
Escritura? Negaremos, também, o batismo dos outros irmãos, para
excluí-los da comunhão com Cristo?
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