18o DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B” - 2006

 

João 6,24-35 "O Pão de Deus dá vida ao mundo"!

2Samuel 11,26 a 12,1-13a; O rico toma do pobre

Salmo 51,112 - Enraíza em mim um espírito novo

Efésios 4,1-16 - Todo o Corpo de Cristo é ministerial

 

 

REFEIÇÃO DE SOLIDARIEDADE E DE COMUNHÃO

 

Jesus é o Pão da Vida, lembrança da Eucaristia que deveríamos celebrar em todos os cultos dominicais, dizia Karl Barth, enquanto nos exortava sobre a ausência da Eucaristia. A Igreja apropriou-se indevidamente da Eucaristia, tornou-a sacramento (mysterion), enquanto proclama que a Santa Ceia é sua... e não é! A ceia é do Senhor.O Culto Cristão dominical, no Dia do Senhor (kuriaquê ’emera), na igreja iniciante, incluía a Eucaristia dominical, eucaristein (Moltmann, von Allmen, J.-Ph. Ramseyer, Vocabulário Bíblico, ASTE, 2002). Além de tudo, não somos generosos no partir do pão, nem somos hospitaleiros na comunhão da mesa, onde se depositam as oferendas para a Ação de Graças. Excluímos até os nossos irmãos. Nossa infidelidade às fontes, do mesmo modo, está à prova. Aponta nossas divisões, enquanto também aprofundamos e acentuamos a desobediência à comunhão e à unidade solicitada na oração do Senhor: "Pai, que eles sejam um, como eu e tu somos um... a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade" (cf.João 17,22-23).

 

Reforçando parte dessa memória, do pão da terra e do pão do céu, queremos também relacionar o vinho, que é também da terra, nos significados e na celebração de Ação de Graças pela vida. Com o vinho celebra-se a salvação; o vinho também é fruto da terra ("...Eu sou a videira – plantada no chão dos homens  – vós sois os ramos!... se alguém não permanecer em mim, perde-se" [Jo 14,5-6]).Devemos, nessa perspectiva, também relacionar a Eucaristia com a vida dos trabalhadores que produzem o pão e o vinho e que, por causa do sistema injusto, das diferenças profundas em nossa sociedade, acabam, muitas vezes, privados do alimento necessário para se manter a vida. Oportunidades de trabalho e produção de bens essenciais são exortações cabíveis às celebrações pela vida.  

 

Pão verdadeiro, pão real: corpo de Cristo, “carne” e  sustento da vida, presença real do Salvador, (diria Calvino, que acentuava a presença real do Senhor no partir do pão, e na refeição eucarística: "é o Espírito Santo que garante essa presença", diremos mais, os comungantes "...reconheceram o Senhor no partir do pão" [Lc 24,35]). Jesus também afirma: “se não comes da minha carne, não tens parte com a minha vida...” (Jo 6,56). Como se deveria dizer, também, na grande oração de Ação de Graças para as oferendas na mesa da comunhão: o pão e o vinho são fruto da terra e do trabalho do homem e da mulher. Significa, tudo isso, que neles há trabalho incorporado, todo o tempo, do preparo da terra ao preparo do pão. Há muita vida, “carne”, e muito suor nesse caminho! A idéia de Jesus é genial: reunir homens e mulheres na unidade, partindo não das idéias, ou do “espírito”, mas da dialética que se completa na prática. Na materialidade e na concretude da vida. A carne e o pão (sarkês, carne=vida; ’artrós, pão=alimento) são parte das necessidades na caminhada pela missão de Deus para a libertação dos homens e das mulheres desta terra!

 

Cristo quer que esta energia seja colhida e reconhecida no “pão” e no “vinho”. Porque o pão e o vinho nos reconciliam e nos unem na mesa da comunhão.  Apesar de todas as nossas diferenças, malgrado a pluralidade que confunde o sentido da unidade, nada pode impedir a unidade do Corpo de Cristo, partido em favor de todos: “Este é o meu corpo, partido em favor de vocês”... símbolo da união e desta aflição e sentimento doloroso do corpo multipartido nas nossas contradições, a carne de Jesus Cristo ferida pelas divisões. E o pão e o vinho significam que podemos realizar a união  (symbolo = aquilo que une). O Pão vem da terra, Jesus Cristo nasce na terra. Em Nazaré, nasce a semente do Espírito Santo, e deve passar pela mediação do homem e da mulher que tornam o Cristo de Deus alimento, na terra. Por isso oramos: “O Pão nosso de cada dia nos dá, hoje...” Hoje, aqui e agora.

 

Somos nós os responsáveis pela distribuição do alimento para a comunhão com o Ressuscitado; o pão que comemos; o corpo do Senhor; o vinho que bebemos –  é o sangue do Cristo sacrificado pelos pecados do mundo. Que pecados? Pecados estruturais, feridas abertas, da sociedade humana. O fascínio das conquistas científicas e tecnológicas faz esquecer o mais importante, muitas vezes, ditas como disponíveis para todos. Não há pão para todos. A perversão do consumismo desenfreado, sem dúvida, faz sufocar a palavras dos famintos de pão. Os alimentos indispensáveis para a vida que o mundo deve conhecer, por nosso intermédio, para crer, devem ser lembrados como dádivas para a vida plena. São ofertas do Crucificado.

 

Seria longo sinalizar todas as mediações possíveis, nem é necessário que façamos isso agora. Mas é importante compreender que o “pão” e o “vinho” da comunhão são frutos de relações deficientes, no pecado das divisões que mantemos entre nós, as quais necessitam de reconciliação, porque o pecado nos separa (diabolos). Lembremos quantos estão envolvidos no preparo da terra, no plantar, no colher, no transformar do grão, no transporte do trigo beneficiado, no fabrico da enxada, do arado e do trator, nas mãos que colhem muitas vezes em circunstâncias perigosas ou adversas. Nesse momento se inicia a comunhão e a partilha, enquanto acolhemos  a simbologia e as significações da Ceia do Senhor.

O pão simboliza o produto indispensável da salvação. Ele, o Senhor, está presente no pão, verdadeiramente, e na comunhão solidária. O Espírito é quem nos garante: o pão é também produto indispensável da vida de todo homem e de toda mulher. Como precisa de mediação, o produto da terra no plantio, na colheita, na debulha, no moer, no feitio, na partilha, é já a “eucaristia” (eukaristein) que nos lembra o empenho da comunhão entre nós, em ação de graças solidária para haja trabalho para todos. Eucaristia concreta.

 

Lembremos ainda, por metáfora, o trabalho anterior dos que extraíram e fundiram o minério para  fazer   enxadas; das matrizes que permitiram a fabricação do arado; das linhas de montagem que produziram o trator que participará da produção do pão; do labor dos operários envolvidos no fabrico dos instrumentos para o trabalho. Lembremos o trabalho posterior dos caminhoneiros que transportam os produtos dos moinhos pelas estradas esburacadas e  barrentas do pais. Às vezes debaixo de chuvas implacáveis, outras vezes sob o sol inclemente, na seca. Lembremos dos padeiros que transformam o trigo moído em pão cheiroso, gostoso, que deve estar na mesa de todos.  

 

Cada um é responsável pela produção de oportunidades de trabalho, e ao mesmo tempo, todos somos dependentes uns dos outros. Não podemos esquecer dos que trabalharam nos campos plantando e colhendo o fruto da terra, nas estradas, transportando o trigo; dos que trabalham nos parques industriais e nas fábricas, transformando o grão em alimento, e levando-o para a distribuição. Todo esse trabalho é realizado para que o pão esteja nas mesas em que se alimentam os homens e as mulheres. Todos devem ter pão em sua mesa. Disse Jesus: “Eu sou o pão da vida... Pão que dá vida ao mundo”.

    

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

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