16º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO "B"
 

2Samuel  7,1-14a  Sempre andei com todos, nunca excluí quaisquer dos meus filhos

Salmo 89,20-37Jamais retirei minha bondade e meu cuidado...
 

Efésios 2,11-22 Lembrai-vos de que outrora trazíeis os preconceitos  do paganismo                 

Marcos 6,30-34; 53-56 Jesus age, curando enquanto prega a chegada do Reino

 

SOBRE O SOFRIMENTO DOS DOENTES E DEFICIENTES

 

Em todos os momentos da história da humanidade as pessoas portadoras de enfermidades e deficiências foram alvo de comportamento e reações distintas.  Muitas delas contraditórias, voltadas para a exclusão. Em tempos recentes, no entanto, tanto observamos o preconceito que levou o regime nazista a exterminar deficientes físicos e pessoas de etnia judaica, como vimos reações que tornam as pessoas doentes e os deficientes alvos de atenção distinta, tornando-as protagonistas de políticas públicas adequadas. Pessoas doentes devem ser tratadas de modo diferenciado, mas não particular, porque têm os mesmos direitos das pessoas comuns, não doentes ou sem deficiências, segundo a medicina secular. Nas igrejas, a mesma coisa é dita? Uma irmã enfrentando problemas de saúde e de locomoção, mãe de um presbítero de minha igreja, não  pode freqüentar sua igreja desde a infância (Igreja Cristã). Por que não há rampa de acesso para deficientes em todos os templos e locais de reunião comunitária? Por que, da força de trabalho disponível, as estatísticas estabelem 10% de desempregados comuns, e 95% para o total dos deficientes disponíveis? 

 

Não faz muito tempo, também, misturavam-se os tratamentos, sendo que os doentes mentais não poucas vezes eram confundidos com deficientes mentais. Em ambos os casos o tratamento era desumano. Poucos davam atenção aos problemas como distintos, muitos identificavam os doentes como encarnação de um “mal espiritual”. Ainda neste momento, em certas igrejas carismáticas, Deus continua negado como Deus, o totalmente Outro, como diria Karl Barth, para ser aceito somente quando responde às expectativas criadas por pregadores da teologia sacrificial, ou da retribuição. Quanto ao “outro”, enquanto ser humano, só o aceitamos se ajustado à imagem moderna de moços "sarados" e jovens "turbinadas", freqüentadores de prestigiados centros de estética corporal.  Não há abertura para o “outro” que evidentemente é “feio”, “diferente”, por causa da doença ou da deficiência física. E nem se fale das oportunidades de trabalho e autosustentação para portadores de doenças crônicas.

 

Na Bíblia, as deficiências são entendidas a partir do conceito de astheneia, que são entendidas como fraqueza, doença, enfermidade e incapacidade. São muitos os exemplos de pessoas que trazem alguma deficiência e, no entanto, fazem parte da história do israelita que testemunha grandes feitos de Yahweh em favor de todos.  Jacó ficou manco depois da luta com o Anjo em Gn 32,31-33 (o próprio Deus); Moisés era gago, talvez, ou tinha a língua presa (Ex 4,10); Ezequiel por muitas vezes ficou literalmente mudo, mas sua boca se abria, e ele falava, profetizava (Ez,3,22-27; 24,25-27). O Servo Sofredor, na teologia de Isaías, assume todas as dores do homem e da mulher (Is 53,7: "Ele foi oprimido e humilhado, mas não reclamou..."). 

 

O livro de Marcos, no Segundo Testamento, é pródigo em citações sobre deficientes e doentes que necessecitavam de "livramento", fato que resultava em liberdade e salvação. O apóstolo Paulo deixou uma dúvida perene, sobre uma enfermidade da qual não se livrava... qual era? Um exame da palavra "fraqueza" (Dicionário Internacional de Teologia, no verbete escrito por L.Coenen e C.Brawn), nos demonstrará o cuidado com o sofrimento da exclusão dos "feios", "doentes", "deficientes": "suas dificuldades muitas vezes são vistas como um escândalo e uma provocação de problemas para os outros, como um 'peso', uma carga a ser carregada; uma dificuldade a ser removida de alguma maneira..." Isso é perversidade nossa, sem dúvida alguma.

 

Não faz muito tempo, também, misturavam-se os tratamentos, sendo que os doentes mentais não poucas vezes eram confundidos com deficientes mentais. Em ambos os casos o tratamento era desumano. Poucos davam atenção aos problemas como distintos, muitos identificavam os doentes como encarnação de um “mal espiritual”. Ainda neste momento, em certas igrejas carismáticas, Deus continua negado como Deus, "o totalmente Outro", como diria Karl Barth, para ser aceito somente quando responde às expectativas criadas por pregadores da teologia sacrificial, ou da retribuição. Quanto ao “outro”, enquanto ser humano, só o aceitamos se ajustado à imagem moderna de moços "sarados" e jovens "turbinadas",corpos magníficos, freqüentadores de prestigiados centros de estética corporal.  Não há abertura para o “outro” que evidentemente é “feio”, “diferente”, por causa da doença ou da deficiência física, ou porque é "feio". E nem se fale das oportunidades de trabalho e autosustentação para portadores de doenças crônicas.

 

Jesus se pôs a atendê-las: trouxeram os doentes para que os curassem. Detenhamo-nos um pouco sobre esse fato: primeiramente os doentes estão impedidos, travados; suas enfermidades  os obrigam a dependerem totalmente dos outros. Por estarem enfermos, são rejeitados, excluídos, tidos por impuros e pecadores, porque a mentalidade da época atribuía à doença e às deficiências físicas algum pecado, mesmo que proveniente de fatores “genéticos”, os homens e as mulheres que os trouxeram se identificavam no meio da multidão. A ocasião é propícia para colocar à prova a coerência de Jesus.

 

Jesus parte da relação cultural existente entre pecado-castigo e enfermidade: “Teus pecados te são perdoados”, é expressão comum, quando cura. A libertação da culpa está diretamente relacionada com a recuperação da saúde. A sociedade de então estava estruturada sobre a exclusão; às pessoas não lhes parecia poderem encontrar possibilidades de mudança, nem alternativa para a exclusão, salvo a exigente carga de tributos e ritos de purificação a que estavam obrigadas.  Ao mesmo tempo, por estarem doentes, encontravam-se na impossibilidade de cumprir exigências rituais. Jesus resgata as pessoas dessas exigências religiosas e culturais, dos preconceitos, das superstições, no entanto, curando-as em todos os sentidos.

 

A força oculta, energia real, daquelas pessoas, para que pudessem levantar por si mesmas, superando enfermidades que resultam na paralisia, na culpa e na rejeição social, era lhes dada em livramento e libertação. Revivem, agora. Fazem-se donas de si mesmas, ao levantarem-se e movimentarem-se  por si mesmas, libertas da dependência em que jaziam, e regressam com nova vida aos seus lugares cotidianos, porque experimentaram o cumprimento da Boa Nova salvadora e libertadora. Muitas vezes Jesus dizia:“Vai, agora, e dize-a aos outros”. Quando João Batista manda seus discípulos conferir o que fazia, dizia-lhes: “Ide, relatai a João o que vistes: os cegos recuperam a vista, os coxos andam corretamente, os leprosos são purificados e os surdos passam a ouvir, os mortos ressuscitam: a boa-nova é anunciada aos pobres” (Lc 7, 22). Acrescentando, poderíamos lembrar-nos de Paulo Freire, que dizia: "Ninguém se liberta sozinho, as pessoas libertam-se em comunhão..."

 

Estamos diante da unidade evangélica: palavra e ação, teoria e pratica, dizer e fazer. Jesus é o mestre dessa unidade. Seus discípulos também deverão imitá-lo.Temos uma mensagem de salvação na palavra de Marcos, é preciso anunciar o Evangelho do Reino, mas é preciso também realizar, mesmo através de gestos simbólicos, suas significações concretas. O Reino não deve ser anunciado somente por palavras e ditos abstratos.  Deve também ser construído, embora sejamos somente operários e operárias obedientes às ordens do construtor, o qual já nos apontou a estrutura de seu projeto para instalar definitivamente o seu Reino. A Boa Notícia deverá ser mostrada em todas as suas possibilidades, nos gestos que expressam sua significação. O Evangelho não só tem de ser lido, ou pregado, como Palavra de Deus. Deve também ser instrumento didático para o agir, na vida da comunidade de fé e  para a execução da ação missionária indicada por Deus, no mundo.

 

Uma ação concreta e eficiente para a recuperação da dignidade das pessoas, entre elas as doentes e deficientes; ação para o resgate dos pobres e dos oprimidos pelos preconceitos, pelas superstições e por imposições ritualistas e sacrificiosas destinadas à recuperação da saúde e da mobilidade. O compromisso com a construção de um outro mundo possível, diverso deste mundo impiedoso e sem misericórdia,  inicia-se em ações que demonstram o que vai ser o  Reino. Paulo dirá, sobre a plenitude dos tempos, tão aguardada: "agora vemos imagens  turvas como que num espelho”.                                                               

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Derval  Dasilio                                                                                                                Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

                                                                                                                                              

 

 

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