15º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO "B"
 

1Samuel 6,15-19 – Ouro: imitações de tumores e ratos...

Salmo 24 – Todos os bens da criação são do Senhor

Efésios 1,3-14  Suas propriedades serão resgatadas em glória

Marcos 6,14-29 – Decapitam os profetas...

    

  

Há problemas com os profetas, nos nossos dias? Há profetas no mundo chamado pós-industrializado? De imediato, vamos recordar-nos da preocupação da Igreja Cristã em definir os ministérios. Para o profeta, mundo dos pobres, dos desempregados, dos doentes, dos sem-lar, dos sem-terra, dos sem assistência previdenciária, nos despertaria para o fato de que estamos num momento de extrema gravidade para a humanidade? Em face das grandes mudanças ocorridas com a mundialização do capitalismo e de suas principais expressões culturais, no mundo de hoje haveria lugar para um João Batista e sua proclamação profética sobre a adulteração do sentido da vida?

 

A consciência dos direitos do homem e da mulher, enquanto o planeta deixava de ser misterioso ou desconhecido para ser conhecido globalmente em suas necessidades maiores, especialmente quanto à preservação da humanidade e da criação, no todo, é considerável, não há dúvida. Uma questão premente, no entanto, é a extensão dessa consciência para a vida concreta dos povos e das nações.  O planeta Terra já se aproxima de 6,5 bilhões de habitantes, mas é notório que menos de ¼  da população mundial conhece os benefícios científicos e tecnológicos que permitem a proclamação de que o “paraíso” celestial da alta qualidade de vida econômica e social chegou aqui... É o contrário do que se diz, a partir das ilhas de "desenvolvimento" que certamente existe (especialmente nas imagens virtuais compartilhadas por nossos jovens): mais de 4 bilhões estão aguardando a redenção científico-tecnológica que identifica a menor parte dos povos acima da linha do equatoriana, e sua alta qualidade de vida. 

 

Uma paráfrase de Calabar, por Chico Buarque, bem caberia aqui: “Não existe pecado no lado de baixo do Equador...”, se aplicada aos pecados estruturais das civilizações do Terceiro Mundo. Porque se acham uma sociedade sem culpa, sempre perdoando-se a si mesma, afogando-se no consumismo, “porque ninguém é de ferro”, não é mesmo? Afinal, o que têm os cristãos a ver com isso, envolvidos  chips, mega bytes, satélites, celulares? Pergunta-se, e buscam-se respostas. Houve tempo em que se atribuiria aos recursos científico-tecnológicos a salvação do mundo. Hoje, uma dura impressão nos remete a uma análise sobre as grandes realidades que nos cercam. Cada vez mais crucial, urgente, se torna a distribuição dos referidos recursos com os deserdados deste planeta.

 

A pobreza itinerante se desloca constantemente, ajustando-se ao lócus onde vai se instalar o Reino de Deus.  O radicalismo da proclamação evangélica, profética, é contemplado por muitas visões sobre a acolhida do Salvador.  Mais que nunca os desarraigados da sociedade moderna, outros dirão “alijados”,  exigem outra forma de "deslocamento". Nos bens sociais, industriais, científicos, repartidos com a grande maioria. Não se trata de "distribuição de renda", puramente, ainda mais quando o termo viciado recebe a carga da cultura capitalista dominante, faz-nos lembrar das migalhas que caem das mesas fartas ou da esmola imediata que “vicia ou mata de vergonha, o cidadão...” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira).

 

Profetas modernos encontrarão  na pregação do Batista, se assimilada e refletida pelo Evangelho, o mesmo destino, o da decapitação?  Literalmente, talvez, não. Mas, simbolicamente, sim. Cabeças continuam a rolar ainda hoje. Confirma-se a expressão, o “ai” de Jesus Cristo: “Ai de ti, que matas os profetas, e apedreja os que te são enviados...” (Mt 23,37). O mais importante e decisivo para nós, hoje, poderá ser a atualização do evangelho, especialmente aquele saído da lavra de Marcos, que nos convida a uma ética radical e ao desapego quanto às oportunidades sedutoras e envolventes do consumismo recente. Perdemos a cabeça, também, mas não no sentido da decapitação que sofreu o profeta Batista. Entregamo-nos de tal maneira à capitalização do consumismo que já nem sabemos o que é “bem social” ou que é simplesmente mercadoria. Trata-se de um mercado confuso, no estilo big brother, que vende as pessoas enquanto compra nossa adesão às suas propostas. Alguma coisa como colocar a “alma brasileira” de chuteiras, na Copa do Mundo, enquanto nos esquecemos de que a CBF é uma organização privada servindo à FIFA (Federation International Football Association); que a seleção brasileira de futebol é exclusividade da mesma CBF, e não do Brasil; que os milhões de dólares arrecadados ali não se revertem em benefício social para ninguém, nem mesmo para o país hospedeiro (cf. o seguro total da Copa Mundial de Futebol, para salvar essa organização da FIFA, bancada por algumas empresas de grande porte, de qualquer prejuízo ocasional, alcançou a cifra maiúscula de 50 bilhões de dólares...).

 

Dá pra entender? Uma expressão latina, corruptio optimi pessima est:(a corrupção dos melhores é a pior que existe) identifica o que geralmente vemos estar acontecendo, tanto no Congresso Nacional como nas câmaras legislativas, estaduais e municipais; tanto e quanto nas poderosas instituições financeiras como os fundos de pensão, e quanto às assembléias religiosas onde o votos são "comprados" sem pudor, com promessas falsas; tal e qual vem ocorre nas reuniões evangelicais de empresários e homens de negócio envolvidos com o crime organizado, com o roubo do erário e enriquecimento ilícito, e até assassinatos de juízes que investigam a corrupção no Judiciário. Como entender que cristãos evangélicos participem ou aprovem tudo isso?

 

A pergunta que se faz, no entanto, é: qual é o “programa”  do qual fala o profeta João Batista? Trata-se de um “projeto”  radical para a sociedade antes que uma referência ao mundo “carismático itinerante” que era rechaçado entre israelitas do judaísmo formativo, especialmente entre comunidades instáveis, como a dos essênios, comparáveis na religiosidade “pentecostal”. Em que sentido, pois, João Batista é um profeta, e o próprio Jesus de Nazaré? Marcos não equipara o Batista nem Jesus aos profetas véterotestamentários,  ao contrário de Lucas e Mateus. E esta equiparação é tardia, para alguns.  Um profeta não era comum no ambiente onde Jesus pregava. Para a linha dominante do judaísmo farisaico-sinagogal, o espírito da profecia desaparecera desde a época de Esdras (IV séc. a.C.). Os essênios conheciam outra designação semelhante, o “mestre da justiça”, profeta escatológico. Como vulto excepcional, João seria reconhecido como profeta, no entanto. E não se estranha que João Batista tenha sido identificado confusamente ao lado de Elias, mas esperando-se a volta de um protoprofeta de Israel influenciado por Yahweh.

 

A esperança generalizada existia, sem dúvida, e pensava-se que o mesmo era Elias retornando (Mt 11,14), e a relação de Jesus com Moisés, que viria no final dos tempos, vai remeter-nos a um estágio mais antigo, ligado à concepção libertária no êxodo do Egito(At 3,22;7,22b; 7,25 e 37ss;). O testemunho a respeito do Batista certamente provém de tradições isoladas autênticas (Leonhard Goppelt, Teologia do Novo Testamento,Teológica/Paulus). Mateus já registrara os ditos que estabelecem: Aqui há mais do que Jonas, alguém com autoridade para chamar ao arrependimento; aqui há mais que Salomão, a quem a sabedoria de Deus é revelada (Mt 12,6ss). O princípio hermenêutico véterotestamentário traz uma tipologia especial: o eschaton profético traz a renovação, uma atualização cabal, do tempo da graça (hesed) que já passara (Is 43,16-21). E, mais importante, relaciona-se Jesus com o seu presente, esse tempo da graça, kayrós, é a renovação que se deve operar com a pregação do evangelho do Reino de Deus.

 

Necessitamos restaurar nossas consciências, se anunciamos o Pai e seu Reino, nos termos da indignação e do repúdio à pedagogia do consumo que ensina o ter-e-aparecer-sem-ser.Reproduziremos assim a pregação profética no melhor estilo dos discípulos de Jesus, em todas as épocas. Quem vai acreditar no Pai que tem amor pelos excluídos, estendendo para sempre a sua misericórdia e graça (xáris) aos pisoteados e esmagados pelo jeito de pensar da sociedade neodarwiniana de nossos dias, que estabelece a marginalização dos fracos do consumo e participação dos bens essenciais, se a preciosa graça é vendida como bijouteria barata? Quem imaginará o alcance da misericórdia e  da graça para os culturalmente oprimidos, se somos cooptados até dentro das igrejas a aderirmos, também, à ênfase mercadológica do nosso tempo?

 

Somos agradecidos aos céus, porque existem pessoas que sempre resistiram, e sempre resistirão à corrupção, mesmo que seja para ganhar uma simples eleição de igreja. Há quem resista às tentações de usufruir as vantagens do poder, vender influência, negociar com adversários insuportáveis, históricos, para chegarem ao poder sobre alguma coisa. Estão na religião organizada, nas igrejas cristãs, na economia de mercado, nas câmaras legislativas e nos partidos políticos, sem dúvida. São os que sempre estarão dispostos a aprender com as crises das instituições às quais pertencem. Ser cristão nunca foi fácil, imaginemos o que custaria ser também profeta nos tempos de hoje.

 

 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 

 

Clic na imagem para ler comentários anteriores

                         Webdesigner: Eveline

                    Coordenador: Derval Dasílio

                    Respeite os direitos autorais

 
 
 
 

  Página Principal          Indique este site             Imprimir