Alguém
colocou uma entrevista na internet como publicada em um grande
jornal, mas era evidentemente apócrifa, como identificou um colega,
observador atento que me escreveu. Extraímos essas impressões
interessantes sobre a realidade que nos cerca, enquanto o fatalismo toma
conta da opinião pública. Pergunta: Há solução para este país? O
suposto entrevistado, traficante famoso preso há pouco tempo, responde: “Já
olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por
cima da periferia de São Paulo? Solução, como? Só viria com muitos
bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante
de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico,
revolução na educação, urbanização geral. E tudo teria de ser sob a
batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por
cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do
Legislativo cúmplice (ou você acha que os sanguessugas vão agir? Se
bobear, vão roubar até o tráfico ou o crime organizado...) e do Judiciário,
que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo
penal do país, teria de haver comunicação e inteligência
entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até
‘conference calls’ entre presídios...). E tudo isso custaria bilhões
de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura
política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução”.
Há
uma crise, sem dúvida. E bem maior que a da Seleção brasileira, com
seus jogadores gordos, ou os que preferem concertar o meião a marcar os
adversários que nos tiram da competição mundial. Nossos principais
adversários, afinal, vêm da pobreza extrema, da fome endêmica, da falta
de oportunidades de desenvolvimento na produção de bens, da saúde pública
mal assistida, do mal uso dos recursos ambientais, da tensão com a
necessidade de preservação da natureza, da indefinição quanto à
participação do desenvolvimento internacional. A triste constatação de
que nós, na verdade, não temos os melhores jogadores do mundo, nos
devolve à realidade: não temos bons políticos, nem estrategistas
competentes para o desenvolvimento; a exposição constante da corrupção
nos Legislativos e Executivos parece comprovar tal afirmação. Isso vai
além da torre no meio das duas bacias do Congresso Nacional: uma
simbolicamente aberta, convexa, para “receber”; outra côncava, para
“esconder”? Niemayer e Lúcio Costa teriam pensado nesses simbolismos,
quando as projetaram? Que é que que devemos pensar sobre tais realidades?
Hoje,
neste domingo litúrgico, temos uma “crise” da qual devemos tratar em
três partes, até chegar ao clímax, no capítulo 8 de Marcos. Cada uma
delas refere-se a Jesus e aos discípulos, os conflitos vão aparecendo,
até chegar à crise mais aguda da crucificação. A primeira está em
3,6: “... os judeus confabulavam para mata-lo” ; a segunda, em
3,20-21 e 6,4, que apresenta o conflito “com seus seguidores”,
“com sua família” e, depois, “com sua casa”. São o
discipulado resistente e reacionário, o corporativismo doméstico e a
disputa pelo poder das oligarquias carcomidas de Israel, pela ordem. A
terceira nos apresentará Jesus preparando seus ouvintes para a sua morte,
pregando sobre a sua causa, o Reino de Deus: “Jesus percorria os
povoados ao derredor, ensinando a sua gente” os porquês da causa
libertária que representava (Mc 6,2).
Muitas
vezes temos confundido “sinais” com “milagres”, em má
hermenêutica. A realidade da teologia de Marcos nos remeteria, sem dúvida
alguma a uma expressão mais correta: “representações e expressões de
poder sobre a vida”. A missão recebida de Deus, por Jesus, a
pregação sobre o sentido do Reino, necessitam de um apoio didático na
realidade, enquanto ele ensinava (didaskein). As parábolas
refletem isso. Marcos não hesita em atribuir a Jesus a autoridade (exousia)
para fazer o que faz, ensinando aos Doze, enquanto aguça a inteligência
dos discípulos para compreenderem a hipocrisia legalista dos fariseus.
Apegados à “religião do livro”, confirmando-se o conceito religioso
do que o legalismo é para os tais: a Lei é uma afirmação da
morte contra a vida. Mas não em sua consciência farisaica. No entanto, a
vida para Jesus é hayyîn, algo definido no plural intenso da
experiência humana em sociedade, como já citei antes (cf.13o.Domingo
do Tempo Comum) Viver
é mais do que "ser", nenhuma abstração cabe aqui, nem
quaisquer racionalismos.
Vida
é “sangue”... o sangue é a alma do corpo, como o Deuteronômio dirá
(12,23). A vida se confunde também com o “fôlego”: no momento da
criação o ser-homem Yahweh soprou-lhe nas narinas “um fôlego de
vida”, nephesh. Adão (adam, coletivo de humanidade),
começa a viver com o “alento”, ou a ‘alma’ originada no Criador.
A intensidade da vida é variável, de um momento para o outro. Um
enfermo ou um morto, são vidas debilitadas, prejudicadas, porque
incompletas, privadas de todas as suas possibilidades (2Rs 8,8; 10; 14,20
e 1-7; Gn 25,30 e 32; Is 5,27). Despertar, curar, ressuscitar, significa
recuperar faculdades, dispor novamente de toda capacidade na ‘vida’
oferecida com a ‘alma’ proveniente de Deus, (hayyîn e nephesh,
cf.Gn 2,7). Isso aparece e brilha nos olhos do israelita: a vida é a
mais preciosa das bênçãos, nada é superior a poder-se viver com toda
dignidade (Pv 3,16). João, no Segundo Testamento, cita o pronunciamento
de Jesus: “Vim para que tenham vida, e vida em abundância ” (Jo
10,10b).
Além
de ser um judeu comum, Jesus é reconhecido como pessoa do povo.
Isso não funciona bem, para os ouvintes do povo. Ele tem uma procedência
que não abona seu esforço de fazer-se ouvir com “autoridade”. Um
carpinteiro de Nazaré, trabalhador manual; alguém que não passou pelas
escolas rabínicas, sem conhecimento teológico sobre a Torah,
supostamente mal orientado, sem habilitação para ser reconhecido
nos grupos hassídicos dos intérpretes da Lei e dos Profetas não
poderia “ensinar com sabedoria” sobre as intenções de Deus.
Ao contrário, sua pregação era motivo de escândalo.
Porém,
o ensinamento de Jesus não só revela o profundo conhecimento sobre a
tradição profética. Seus sinais estão em sintonia com os atos dos
profetas de Israel. Não se refere à tradição do Thalmud,
iniciada no Judaísmo Formativo, 400 anos antes. Evoca, com muito rigor,
as palavras contidas nas tradições javistas e elohistas,
sobre o êxodo libertador, o jubileu que anula contratos escravagistas
sobre o trabalho e a propriedade, sobre a dignidade dos órfãos e das viúvas
da sociedade israelita. Jesus prega sobre um Deus que decidiu
“reinar”, que quer explicitar suas intenções salvadoras e
libertadoras. Comunica-se falando a respeito de um Deus que se revela como
Abba, ‘paínho’, ao jeito baiano, cheio de cuidado,
misericórdia e compaixão, indicando também um Deus aberto à reconciliação.
Deus que solicita fé em sua graça, hesed, que vem aos
homens e mulheres e se revela em seu carinho paternal e maternal, ao mesmo
tempo, para sua salvação e libertação.
Os
habitantes de Nazaré não querem ouvi-lo, o que Jesus fala é óbvio. As
realidades, no entanto, para eles, são imutáveis. Jesus não podia fazer
o “milagre” da conscientização sobre novas realidades. Tais e quais
um povo que bem conhecemos. Hoje, podemos perguntar-nos como se constrói
uma identidade nacional; como a massa tão interessada em espetáculos
de CPI’s hipócritas, futebol e carnaval, se transformaria num povo que
ouve e vê além das encenações que encobrem a realidade. Pós-industrialização,
pós-modernidade, que é isso para os latino-americanos? Quando se falará
da pós-miséria, pós-insalubridade, pós-deseducação, pós-exploração
consumista? Até lá, viveremos a cultura da violência social ou
institucional paralela à do crime organizado? Ajudados pela tecnologia,
satélites, celulares, chips e mega bytes em toda parte, nos
assemelhamos aos que se recusavam a ouvir Jesus e a necessidade de
entendermos as intenções do Deus Salvador e Libertador. São terríveis
revelações sobre as visões que temos de nós mesmo. A quem ouviremos?
Derval Dasilio
Pastor
da Igreja Presbiteriana Unida