14o. DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO "
 
 

2Samuel 5,1-10 – Até os coxos e cegos te repelirão...

Salmo 48 – Ventos procelosos que fazem presentes a Palavra

2Coríntios 12,2-10– Prazer nas perseguições, por amor de Cristo

Marcos 6,1-13 –  Quando os “ouvintes” “não ouvem” Jesus

 

 

Alguém colocou uma entrevista na internet como publicada em um grande jornal, mas era evidentemente apócrifa, como identificou um colega, observador atento que me escreveu. Extraímos essas impressões interessantes sobre a realidade que nos cerca, enquanto o fatalismo toma conta da opinião pública. Pergunta: Há solução para este país? O suposto entrevistado, traficante famoso preso há pouco tempo, responde: “Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero  por cima da periferia de São Paulo? Solução, como? Só viria com muitos bilhões  de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma  imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral. E tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (ou você acha que os sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o tráfico ou o crime organizado...) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal  do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até ‘conference calls’ entre presídios...). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução”.                                     

 

Há uma crise, sem dúvida. E bem maior que a da Seleção brasileira, com seus jogadores gordos, ou os que preferem concertar o meião a marcar os adversários que nos tiram da competição mundial. Nossos principais adversários, afinal, vêm da pobreza extrema, da fome endêmica, da falta de oportunidades de desenvolvimento na produção de bens, da saúde pública mal assistida, do mal uso dos recursos ambientais, da tensão com a necessidade de preservação da natureza, da indefinição quanto à participação do desenvolvimento internacional. A triste constatação de que nós, na verdade, não temos os melhores jogadores do mundo, nos devolve à realidade: não temos bons políticos, nem estrategistas competentes para o desenvolvimento; a exposição constante da corrupção nos Legislativos e Executivos parece comprovar tal afirmação. Isso vai além da torre no meio das duas bacias do Congresso Nacional: uma simbolicamente aberta, convexa, para “receber”; outra côncava, para “esconder”? Niemayer e Lúcio Costa teriam pensado nesses simbolismos, quando as projetaram? Que é que que devemos pensar sobre tais realidades?

 

Hoje, neste domingo litúrgico, temos uma “crise” da qual devemos tratar em três partes, até chegar ao clímax, no capítulo 8 de Marcos. Cada uma delas refere-se a Jesus e aos discípulos, os conflitos vão aparecendo, até chegar à crise mais aguda da crucificação. A primeira está em 3,6: “... os judeus confabulavam para mata-lo” ; a segunda, em 3,20-21 e 6,4, que apresenta o conflito “com seus seguidores”,  “com sua família” e, depois, “com sua casa”. São o discipulado resistente e reacionário, o corporativismo doméstico e a disputa pelo poder das oligarquias carcomidas de Israel, pela ordem. A terceira nos apresentará Jesus preparando seus ouvintes para a sua morte, pregando sobre a sua causa, o Reino de Deus: “Jesus percorria os povoados ao derredor, ensinando a sua gente” os porquês da causa libertária que representava (Mc 6,2).

 

Muitas vezes temos confundido “sinais” com  “milagres”, em má hermenêutica. A realidade da teologia de Marcos nos remeteria, sem dúvida alguma a uma expressão mais correta: “representações e expressões de poder sobre a vida”.  A missão recebida de Deus, por Jesus, a pregação sobre o sentido do Reino, necessitam de um apoio didático na realidade, enquanto ele ensinava (didaskein). As parábolas refletem isso. Marcos não hesita em atribuir a Jesus a autoridade (exousia) para fazer o que faz, ensinando aos Doze, enquanto aguça a inteligência dos discípulos para compreenderem a hipocrisia legalista dos fariseus. Apegados à “religião do livro”, confirmando-se o conceito religioso do que o legalismo é para os tais:  a Lei é uma afirmação da morte contra a vida. Mas não em sua consciência farisaica. No entanto, a vida para Jesus é hayyîn, algo definido no plural intenso da experiência humana em sociedade, como já citei antes (cf.13o.Domingo do Tempo Comum) Viver é mais do que "ser", nenhuma abstração cabe aqui, nem quaisquer racionalismos.

 

Vida é “sangue”... o sangue é a alma do corpo, como o Deuteronômio dirá (12,23). A vida se confunde também com o “fôlego”: no momento da criação o ser-homem Yahweh soprou-lhe nas narinas “um fôlego de vida”, nephesh. Adão (adam, coletivo de humanidade), começa a viver com o “alento”, ou a ‘alma’ originada no Criador. A intensidade da vida é variável, de um momento para o outro.  Um enfermo ou um morto, são vidas debilitadas, prejudicadas, porque incompletas, privadas de todas as suas possibilidades (2Rs 8,8; 10; 14,20 e 1-7; Gn 25,30 e 32; Is 5,27). Despertar, curar, ressuscitar, significa recuperar faculdades, dispor novamente de toda capacidade na ‘vida’ oferecida com a ‘alma’ proveniente de Deus, (hayyîn e nephesh, cf.Gn 2,7). Isso aparece e brilha nos olhos do israelita: a vida é a mais preciosa das bênçãos, nada é superior a poder-se viver com toda dignidade (Pv 3,16). João, no Segundo Testamento, cita o pronunciamento de Jesus: “Vim para que tenham vida, e vida em abundância ” (Jo 10,10b).

 

Além de ser um judeu comum, Jesus é reconhecido como pessoa do povo.  Isso não funciona bem, para os ouvintes do povo.  Ele tem uma procedência que não abona seu esforço de fazer-se ouvir com “autoridade”. Um carpinteiro de Nazaré, trabalhador manual; alguém que não passou pelas escolas rabínicas, sem conhecimento teológico sobre a Torah, supostamente mal orientado,  sem habilitação para ser reconhecido nos grupos hassídicos dos intérpretes da Lei e dos Profetas não poderia “ensinar com sabedoria” sobre as intenções de Deus. Ao contrário, sua pregação era motivo de escândalo.

 

Porém, o ensinamento de Jesus não só revela o profundo conhecimento sobre a tradição profética. Seus sinais estão em sintonia com os atos dos profetas de Israel.  Não se refere à tradição do Thalmud,  iniciada no Judaísmo Formativo, 400 anos antes. Evoca, com muito rigor, as palavras contidas nas tradições javistas  e elohistas, sobre o êxodo libertador, o jubileu que anula contratos escravagistas sobre o trabalho e a propriedade, sobre a dignidade dos órfãos e das viúvas da sociedade israelita. Jesus prega sobre um Deus que decidiu  “reinar”, que quer explicitar suas intenções salvadoras e libertadoras. Comunica-se falando a respeito de um Deus que se revela como Abba, ‘paínho’, ao jeito baiano, cheio de cuidado, misericórdia e compaixão, indicando também um Deus aberto à reconciliação.  Deus  que solicita fé em sua graça, hesed, que vem aos homens e mulheres e se revela em seu carinho paternal e maternal, ao mesmo tempo, para sua salvação e libertação.

 

Os habitantes de Nazaré não querem ouvi-lo, o que Jesus fala é óbvio. As realidades, no entanto, para eles, são imutáveis. Jesus não podia fazer o “milagre” da conscientização sobre novas realidades. Tais e quais um povo que bem conhecemos. Hoje, podemos perguntar-nos como se constrói uma identidade nacional; como  a massa tão interessada em espetáculos de CPI’s hipócritas, futebol e carnaval, se transformaria num povo que ouve e vê além das encenações que encobrem a realidade. Pós-industrialização, pós-modernidade, que é isso para os latino-americanos? Quando se falará da pós-miséria, pós-insalubridade, pós-deseducação, pós-exploração consumista? Até lá, viveremos a cultura da violência social ou institucional paralela à do crime organizado? Ajudados pela tecnologia, satélites, celulares, chips e mega bytes em toda parte, nos assemelhamos aos que se recusavam a ouvir Jesus e a necessidade de entendermos as intenções do Deus Salvador e Libertador.  São terríveis revelações sobre as visões que temos de nós mesmo. A quem ouviremos?

 

 

 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 

 

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