13o. DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO "
 
2 Samuel 1,17-27  Não se separaram, na vida e na morte
Salmo 130 – Anseio pela Palavra que salva...
2Coríntios 6,1-13  Não recebam a Graça em vão!
Marcos 5,21-43  “Não tenha medo, a tua fé é bastante...
 

CONTRASTES NA “RELIGIÃO DO LIVRO”

 

O judaísmo representava um conjunto religioso importantíssimo, na história religiosa de Israel. Entre 40 e 50 mil, israelitas  partiram para o exílio, ao início do VI a.C., enquanto os que ficavam organizavam uma nova nação para a continuidade da vida nacional (Jr 40,15). No entanto, o templo seria destruído pelos babilônios, com Nabucodonozor! Apesar de tudo, uma massa anônima, tanto a do remanescente do Reino do Norte (Samaria) como a do Sul (Judá), entregue a si mesma na maioria das vezes, se reorganiza em torno de um material étnico e religioso destinado a dar continuidade às antigas tradições de Israel. O templo vai ser reconstruído com a autorização, agora, dos novos dominadores sírios, representados por Ciro, que conquistara a Babilônia. O edito de Ciro em 538 a.C., citado literalmente em Esdras (6,3-5), ordena a reconstrução do templo como local de sacrifícios, enquanto mandava devolver as estátuas dos deuses levados para a Babilônia. A restauração de Israel constituía um problema vital  para o remanescente disperso. 

 

O judaísmo nasce desse modo, tem um centro de referência mundial, e imitando as antigas anfictionias (governo tribal no tempo dos Juízes), se anuncia como religião do povo da Aliança. Infelizmente, para nós, a Bíblia Hebraica não traz relatos posteriores às descrições dos grandes ideólogos que foram Esdras e Neemias. A síntese de Neemias (cap.8) oferece uma imagem sugestiva da proposta formativa, não apenas da assembléia sinagogal (qahal, edah, ekklesia), mas do Judaísmo que se iniciava: não se tratará mais de um povo com nacionalidade política, em torno de um país, mas uma etnia histórica com referência religiosa; “povo de Deus que se origina e se conserva em vida porque está colocado diante da Lei”. Só encontraremos um paralelo conseqüente mais de 2.400 anos depois com o bibliocentrismo do ambiente fundamentalista evangelical que se recusa a entender tal coisa. 

 

Os 400 e tantos anos do Judaísmo formativo não conseguiram, no entanto, apagar  o sentido de Escritura Sagrada além da Torah, muito mais que os mestres do Thalmud   ou do Mishnah que ensina sobre as grandes tradições do Pentateuco e dos Profetas. O Primeiro Testamento, ou Bíblia Hebraica, mostra a fúria dos profetas, como Jeremias, contra as práticas idolátricas existentes. A Lei como tal corresponde ao biblicismo legalista, cristão  e protestante, dos nossos dias. Pergunta-se: você crê na Bíblia como a lei de Deus? Responde-se o quê?  Jeremias já falava de “uma lei gravada nos corações dos homens”, quem sabe já antecipando a idolatria do livro da Lei que se seguiria (Jr 31,33).

 

O trabalho da teologia que reage à tendência legalista devolvendo à fé bíblica a discussão dos grandes temas referentes à justiça de Yahweh; dos temas deuteronômicos e  a ênfase do êxodo, escritos proféticos que abordam o Jubileu e a libertação das opressões políticas; o shalom que se traduz em bem-estar social, político e econômico, segundo as propostas do Deus de Israel. Os evangelhos, no Segundo Testamento, virão a enfatizar o reinado de Deus que recusa, contraria, a concepção religiosa que o projeto humano quer construir: uma religião cujo esplendor se refletiria no culto e adoração abstratos; na obcessão com um triunfo denominacional “evangélico”; com números e conversões, em contraposição ao esforço pela vida, por transformações sociais, direitos fundamentais, cidadania, dignidade das pessoas e dos povos, cuidado com o ser humano e com a criação. O que é mais importante, a Lei ou a Vida?

 

Marcos 5,21-43 - Jairo vem da sinagoga, é chefe de uma assembléia, ou  ekklesia”, ou synagogue, palestiniana, em Cafarnaum. Esta instituição é a mais importante, depois do templo, no judaísmo. Ele não encontrou a salvação nela. A instituição não conduz à vida, nem oferece um caminho existencial de libertação, está imbicada para a morte irremediável na religião propositista.A perícope anterior já cuidara de outro personagem simbólico da alienação religiosa,  “o homem que habitava no meio dos túmulos, e ninguém podia controla-lo” (Mc 5,3-4), cujo nome era Legião, um homem tomado por poderes de demônios escravizadores.  O texto parece perguntar: “quem é mais forte, quem escraviza ou quem liberta”? No entanto, depois que Jesus restitui a vida e a dignidade a quem estava escravizado pelo mal, preocupados com os porcos “endemoninhados” e seu destino, os habitantes suplicam que ele vá embora. Era-lhes mais importante o prejuízo econômico causado pelos "porcos endemoninhados" que a dignidade da pessoa libertada.

 

Jairo é um chefe na sinagoga de Cafarnaum, sua ekklesia era dirigida por ele, encarregado da manutenção da casa religiosa; que seria, também, responsável pelo culto e a liturgia; pela distribuição de funções, e provavelmente era também vinculado aos fariseus e doutores da Lei ou da Torah. Aqueles que planejam a morte de Jesus, o “desobediente”; o “politicamente incorreto”, quanto as leis e preceitos da religião dominante. Jesus tinha seus dias contados...

 

Jesus é também representante do pensamento sobre a vida que prevalece na Bíblia Hebraica e se estende ao Segundo Testamento.  O israelita pensava que a vida não é simplesmente a existência, ou a experiência humana individual. A vida é hayyîn, algo definido no plural intenso da experiência em sociedade (R.Martin-Achard, Da Morte à Ressurreição).  Viver é mais do que "ser", nenhuma abstração cabe aqui, nem racionalismos. Vida é sangue... o sangue é a alma do corpo, como o Deuteronômio dirá (12,23). A vida se confunde também com o “fôlego”: no momento da criação o ser-homem Yahweh soprou nas narinas do homem “um fôlego de vida”. Adão (adam, coletivo de humanidade), começa a viver com o “alento”  do Criador. A intensidade da vida é variável, de momento para outro.  Um enfermo ou um morto, são vidas debilitadas, prejudicadas, porque incompletas, privadas de todas as suas possibilidades (2Rs 8,8; 10; 14,20 e 1-7; Gn 25,30 e 32; Is 5,27). Despertar, curar, ressuscitar, significa recuperar faculdades, dispor novamente de toda capacidade na vida oferecida por Deus, isso aparece aos olhos do israelita como um bem instimável do qual dependem todos os bens.  Ou seja, a vida é a mais preciosa das bênçãos, nada é superior a poder-se viver com toda dignidade (Pv 3,16). 

 

Não há salvação no culto,  na obediência irrestrita da Lei sob qualquer de suas dispensações (ou como o fundamentalismo religioso exige). Temeroso por vários motivos, inclusive pela perda de privilégios que o importante cargo de chefe religioso lhe conferia, quando se aproxima de um suposto herege ou apóstata, cai a seus pés para pedir-lhe: “Minha filha está morrendo. Vem, põe a mão sobre ela, para que sare e viva”. E obtém a resposta: “Não temas, a tua fé te basta” (v.36), diz-lhe Jesus. Marcos acrescenta uma pitada de zombaria dos incrédulos circunstantes, da mesma comunidade religiosa: “Sua filha morreu, pare de incomodar...” Querem desqualificar quem se apresenta em condições de transformar o senso comum fatalista, entregue ao espírito da morte, no milagre da vida. Jesus não perde a oportunidade de restituir a saúde, a dignidade, a vida, quando o julgamento mortal da sociedade  marginaliza, enquanto cultiva a hipocrisia de uma auto santificação. A imagem de um Deus que dá e sustenta a vida,  por pura graça (hesed ou xáris, no hebraico e no grego), prevalece sobre a “fé legalista”. Os que preferem a letra morta, os preceitos e os regulamentos mortificadores que impedem as transformações necessárias, a morte à vida, prosseguem no seu caminho, entregues à fatalidade. Não lhes importa a salvação.

 

O texto de Marcos nos traz a necessidade de atenção para com as pessoas deficientes, debilitadas, doentes, enquanto nos chama à responsabilidade para indignar-nos  ou denunciarmos os poderes responsáveis pelas transformações e não o fazem; para uma palavra profética onde a pessoa não têm respeitada a sua dignidade humana.  Preconceitos religiosos ou sociais se equivalem, dessa maneira, sobretudo no ambiente cultural que se inclina a marginalizar, ou a não dar importância maior às questões essenciais: vida contra a morte. Mais ainda numa sociedade competitiva, consumista como a nossa,  onde até a saúde é comprada a peso de ouro. Isso é o que o evangelista parece propor no texto de hoje.

  

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 

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