12o. DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO "B"
 

1Samuel 17,32-49 –  Quanto maior, maior a queda...

Salmo 133 – Quão agradável é a unidade dos irmãos

2Coríntios 6,1-13 –  Rogo-vos, valorizem a graça de Deus

Marcos 4,35-41 –  As comunidades enfrentam perigos...

 

Protestantes evangelicais, separados da Igreja Católica, desde o século XVII, especialmente na Grã-Bretanha, se encarregam de desfigurar e distanciar a fé apostólica da igreja inicial através de movimentos conversionistas, ativismo missionário e evangelístico (que acabou por gerar o movimento ecumênico que se firmou no século XX, felizmente, como reação ao individualismo denominacional). 1 - Bibliocentrismo teológico em busca de conceituações sobre “inspiração e autoridade da Bíblia” (não confundir com a distorção fundamentalista da “inerrância”, que além de bibliocêntrica cultiva também uma tendência bibliolátrica, valorizando-se extremamente as traduções interpretadas através de hermenêuticas conservadoras e ideológicas); esquecia-se de recomendar aos fiéis o seguimento de Cristo para acentuar o “seguimento da Bíblia”. 2 - Esvaziamento da vida comunitária e individual do seguidor na igreja, com ênfase no “cruzcentrismo cruento”, enfatizando-se a doutrina medieval de Anselmo de Cantuária sobre a “satisfação”; apagando-se da memória o martírio pela causa do Reino de Deus. Certamente, estas fases misturam-se com outras ênfases, como o pastor Ricardo Gondim vai lembrar-nos: ênfase numa “cosmologia simplista”, primária, pois vê o mundo sem história geológica, social ou política; inovações cúlticas e teológicas sem história ou simbologia do culto original; liturgias acríticas e vulneráveis ao sincretismo cultural; evangelização metodológica em moldes consumistas, com obsessão de mercado, enfatizando um “evangelho com base mercantilista”, como um produto para ser vendido; tendência ao legalismo biblicista, moralista; adoção do culto à personalidade e criação de comunidades particulares sem vínculo denomi-nacional, enquanto usa a terminologia evangelical ou “evangélica”, para todos os fins: vender roupa, aparelhos eletrônicos, discos, espetáculos religiosos, laser e turismo, para “evangélicos”, é parte dessa ênfase. O triunfalismo eclesiástico “evangélico” passa a ser copiado em contraposição ao antigo triunfalismo católico mundial. Concentrações “evangélicas”, "marchas com Jesus" fazem parte das demonstrações crescentes do papel numérico de evangélicos na sociedade, inclusive em carreatas de apoio a candidatos ao Congresso Nacional, Câmaras Municipais, Governos de Estado e Prefeituras. Políticos evangélicos são apresentados como “homens de Deus”, via de regra.

 

Marcos 4,35-41 – Muitos se enganam quando insistem  que as comunidades nascentes no período neotestamentário  viveram sem conflitos semelhantes, com identidades únicas definidas com rigor doutrinal, do ponto de vista da eclesiologia que organiza os ministérios, a missão e os sacramentos da igreja. Idealização absurda. Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos,  mesmo minimisando-os, mantém seu objetivo conciliatório. Uma visão sociológica ajudaria a por algumas questões no lugar.  Por exemplo: a situação de judeus ou não-judeus, que conservariam uma tradição que remonta à Torah, também habituada ao Thalmud; a posição dos prosélitos, conhecedores do Deus de Israel mas gentílicos, na questão da ceia eucarística. Comer na mesma “mesa”, comunhão de judeus e gentílicos nos alimentos da “ceia do Senhor”, hospitalidade eucarística sem restrições, era um grande problema. Contradições quanto aos costumes e tradições tornam esse problema bastante relevante.

 

Outro problema era o desafio representado pelos judeus rejeitados, considerando-se o grande número de comunidades que se reuniam nas sinagogas espalhadas no mundo mediterrânico, desde a África, passando pelo Oriente Médio, Ásia Menor, Europa Oriental e Ocidental. Conflitos culturais estavam em toda parte: era possível continuar sendo “judeu” e cristão ao mesmo tempo, se o povo gentílico assumia a condição de membresia maior no todo da igreja? O terceiro problema compreendia a situação específica de gregos e romanos pertencentes às elites da sociedade imperial.  Bem-postos politicamente, exercendo funções no controle da economia e da política imperial, experimentariam o dilema da fidelidade: é possível ser fiel ao imperador e ser ao mesmo tempo fiel a Jesus Cristo?  Decifra-me ou devoro-te, diria a esfinge... A questão dos pobres na igreja estava em relevo, e no século seguinte passaria para o segundo plano, para ser “amortecida”  por quase vinte séculos.

 

Com raras exceções, como enfatizava Francisco de Assis (séc.XIII), e bem mais tarde John Wesley (séc.XVIII), essa questão desinteressava a comunidade cristã, enquanto tomavam forma movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e “purificação” de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa incólume sobre esta questão, pois os pobres e oprimidos, como tais, são tema permanente do “Reino de Deus e sua justiça”, re-inaugurado profeticamente por Jesus Cristo, pregando numa sinagoga da Galiléia   (Lc 4,16ss), alcançando ao mesmo tempo os temas do Jubileu Bíblico desde o movimento profético dentro da religião de Israel (cf. J.Comblin, Atos dos Apóstolos, V.I, Vozes/Sinodal).

 

No entanto, o texto de Marcos  vai lembrando as dificuldades do evangelho do Reino de Deus ainda nos tempos apostólicos.  Elas fazem parte do devir da história, as comunidades enfrentam perigos e muitas ameaças internas e externas. São como um barco pequeno e frágil navegando em águas turbulentas, sempre pressionadas por sentimentos de desespero e desencanto. Nesse momento Jesus  questiona a falta de fé dos discípulos, enquanto reclama a falta de coragem que invade o grupo.  É isso que nos chama a atenção na liturgia deste domingo.

 

O relato da “tempestade acalmada”  é instigante.  Fala com exatidão dos problemas da Igreja Primitiva, ou do movimento de Jesus, com as situações conflituosas, culturais, nas comunidades que se desenvolviam no ambiente mediterrânico, sob o poder político imperial romano. Serve-nos, hoje, nas situações que enfrentam os movimentos ecumênicos transculturais, vencendo a duras penas individualismos e exclusivismos, no mundo globalizado. Não são poucas as igrejas nacionais e denomi-nacionais, no mundo inteiro, envolvidas com o ecumenismo da Igreja de Cristo.

 

Sua mensagem também está no símbolo que adotou, um frágil barco à deriva num mar perigoso, enfrentando as hostilidades naturais à sua pregação: o Reino de Deus não se confunde com igreja alguma;  a justiça do Reino não equivale ao legalismo religioso, biblicista, à “justiça” eclesiástica, e muito menos à justiça dos homens; o Jubileu profético denuncia as situações de opressão que experimentam os homens e as mulheres debaixo dos poderes deste mundo; a fé na unidade é uma exigência que convoca as comunidades de fé e os indivíduos para serem um em Cristo, nas próprias palavras do Senhor da Igreja, dirigindo-se ao Pai: “que sejam um, como eu e tu somos um”.

 

Os perseguidores estão também no meio da comunidade de fé. Apontam o fracasso, aguçam o desespero dos fracos, instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo pessimista.  Usam até a agressão nos questionamentos sobre missão  e prioridades estabelecidas, o evangelismo metodológico acima da evangelização como anúncio da notícia nova da chegada do Reino de Deus. É verdade que muitos naufragam, ou escolhem outra rota. Preferem outro destino, salvacionista, avivalista, propositista, mercantilista. O imediatismo seduz e as facilidades da mídia ajudam.

 

É quando se torna necessário recordar Jesus. Não o que exigiria arroubos emocionais sobre sua pessoa, carne tremida, lágrimas nos olhos, comoção sobre a cruz ou sobre a salvação espiritual, sem libertação do corpo e do ser inteiro. Cristo não é um produto de mercado, e não é um nome que possa ser utilizado impunemente na venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos, “curativos”, com fins salvacionistas. O Jesus dos Evangelhos não abandona o barco, dá a certeza de sua presença como timoneiro da fé; é capaz  de vencer a tempestade, enquanto fortalece as certezas quanto à sua permanência junto aos discípulos e seguidores, na pregação do evangelista Marcos, transmissor da fé apostólica no Cristo de Deus.

 

Oração: "Deus, em tua graça  transforma o mundo. Damos graças por Tuas bênçãos e sinais de esperança que já estão presentes no mundo, entre pessoas de todas as idades e nas que antes de nós andaram na fé; nos movimentos de superação da violência em todas as suas formas, não apenas por uma década, mas para sempre; nos diálogos profundos e abertos que começaram tanto em nossas próprias igrejas e com gente de outra fé, na busca por compreensão e respeito mútuos: em todas as pessoas que trabalham juntas por justiça e paz – tanto em circunstâncias excepcionais quanto no dia a dia. Agradecemos-Te pela Boa Nova de Jesus Cristo e pela certeza da ressurreição. Amém” (Assembléia do  CMI, em Porto Alegre-RGS). 

                                    

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 

 

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