Protestantes evangelicais, separados
da Igreja Católica, desde o século XVII, especialmente na Grã-Bretanha, se
encarregam de desfigurar e distanciar a fé apostólica da igreja inicial
através de movimentos conversionistas, ativismo missionário e
evangelístico (que acabou por gerar o movimento ecumênico que se firmou no
século XX, felizmente, como reação ao individualismo denominacional). 1 -
Bibliocentrismo teológico em busca de conceituações sobre “inspiração e
autoridade da Bíblia” (não confundir com a distorção fundamentalista da
“inerrância”, que além de bibliocêntrica cultiva também uma tendência
bibliolátrica, valorizando-se extremamente as traduções interpretadas
através de hermenêuticas conservadoras e ideológicas); esquecia-se de
recomendar aos fiéis o seguimento de Cristo para acentuar o “seguimento da
Bíblia”. 2 - Esvaziamento da vida comunitária e individual do seguidor na
igreja, com ênfase no “cruzcentrismo cruento”, enfatizando-se a
doutrina medieval de Anselmo de Cantuária sobre a “satisfação”;
apagando-se da memória o martírio pela causa do Reino de Deus. Certamente,
estas fases misturam-se com outras ênfases, como o pastor Ricardo Gondim
vai lembrar-nos: ênfase numa “cosmologia simplista”, primária, pois vê o
mundo sem história geológica, social ou política; inovações cúlticas e
teológicas sem história ou simbologia do culto original; liturgias
acríticas e vulneráveis ao sincretismo cultural; evangelização
metodológica em moldes consumistas, com obsessão de mercado, enfatizando
um “evangelho com base mercantilista”, como um produto para ser vendido;
tendência ao legalismo biblicista, moralista; adoção do culto à
personalidade e criação de comunidades particulares sem vínculo
denomi-nacional, enquanto usa a terminologia evangelical ou “evangélica”,
para todos os fins: vender roupa, aparelhos eletrônicos, discos,
espetáculos religiosos, laser e turismo, para “evangélicos”, é parte dessa
ênfase. O triunfalismo eclesiástico “evangélico” passa a ser copiado em
contraposição ao antigo triunfalismo católico mundial. Concentrações
“evangélicas”, "marchas com Jesus" fazem parte das demonstrações
crescentes do papel numérico de evangélicos na sociedade, inclusive em
carreatas de apoio a candidatos ao Congresso Nacional, Câmaras Municipais,
Governos de Estado e Prefeituras. Políticos evangélicos são apresentados
como “homens de Deus”, via de regra.
Marcos 4,35-41 – Muitos se enganam
quando insistem que as
comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos semelhantes,
com identidades únicas definidas com rigor doutrinal, do ponto de vista da
eclesiologia que organiza os ministérios, a missão e os sacramentos da
igreja. Idealização absurda. Os conflitos vão crescendo, as dificuldades
se impõem. Atos dos Apóstolos, mesmo minimisando-os, mantém seu
objetivo conciliatório. Uma visão sociológica ajudaria a por algumas
questões no lugar. Por
exemplo: a situação de judeus ou não-judeus, que conservariam uma tradição
que remonta à Torah, também habituada ao Thalmud; a posição dos
prosélitos, conhecedores do Deus de Israel mas gentílicos, na questão da
ceia eucarística. Comer na mesma “mesa”, comunhão de judeus e
gentílicos nos alimentos da “ceia do Senhor”, hospitalidade
eucarística sem restrições, era um grande problema. Contradições quanto
aos costumes e tradições tornam esse problema bastante relevante.
Outro problema era o desafio
representado pelos judeus rejeitados, considerando-se o grande número de
comunidades que se reuniam nas sinagogas espalhadas no mundo
mediterrânico, desde a África, passando pelo Oriente Médio, Ásia Menor,
Europa Oriental e Ocidental. Conflitos culturais estavam em toda parte:
era possível continuar sendo “judeu” e cristão ao mesmo tempo, se o
povo gentílico assumia a condição de membresia maior no todo da
igreja? O terceiro problema compreendia a situação específica de gregos e
romanos pertencentes às elites da sociedade imperial. Bem-postos politicamente,
exercendo funções no controle da economia e da política imperial,
experimentariam o dilema da fidelidade: é possível ser fiel ao imperador e
ser ao mesmo tempo fiel a Jesus Cristo? Decifra-me ou devoro-te, diria a
esfinge... A questão dos pobres na igreja estava em relevo, e no século
seguinte passaria para o segundo plano, para ser “amortecida” por quase vinte séculos.
Com raras exceções, como enfatizava
Francisco de Assis (séc.XIII), e bem mais tarde John Wesley (séc.XVIII),
essa questão desinteressava a comunidade cristã, enquanto tomavam forma
movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e
“purificação” de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa
incólume sobre esta questão, pois os pobres e oprimidos, como
tais, são tema permanente do “Reino de Deus e sua justiça”,
re-inaugurado profeticamente por Jesus Cristo, pregando numa sinagoga da
Galiléia (Lc 4,16ss), alcançando ao mesmo tempo os temas do
Jubileu Bíblico desde o movimento profético dentro da religião de Israel
(cf. J.Comblin, Atos dos Apóstolos, V.I, Vozes/Sinodal).
No entanto, o texto de Marcos vai lembrando as dificuldades do
evangelho do Reino de Deus ainda nos tempos apostólicos. Elas fazem parte do devir da
história, as comunidades enfrentam perigos e muitas ameaças internas e
externas. São como um barco pequeno e frágil navegando em águas
turbulentas, sempre pressionadas por sentimentos de desespero e
desencanto. Nesse momento Jesus
questiona a falta de fé dos discípulos, enquanto reclama a falta de
coragem que invade o grupo. É
isso que nos chama a atenção na liturgia deste domingo.
O relato da “tempestade acalmada”
é instigante. Fala com exatidão dos problemas da
Igreja Primitiva, ou do movimento de Jesus, com as situações
conflituosas, culturais, nas comunidades que se desenvolviam no ambiente
mediterrânico, sob o poder político imperial romano. Serve-nos, hoje, nas
situações que enfrentam os movimentos ecumênicos transculturais, vencendo
a duras penas individualismos e exclusivismos, no mundo globalizado. Não
são poucas as igrejas nacionais e denomi-nacionais, no mundo inteiro,
envolvidas com o ecumenismo da Igreja de Cristo.
Sua mensagem também está no símbolo
que adotou, um frágil barco à deriva num mar perigoso, enfrentando as
hostilidades naturais à sua pregação: o Reino de Deus não se confunde com
igreja alguma; a justiça do
Reino não equivale ao legalismo religioso, biblicista, à “justiça”
eclesiástica, e muito menos à justiça dos homens; o Jubileu profético
denuncia as situações de opressão que experimentam os homens e as mulheres
debaixo dos poderes deste mundo; a fé na unidade é uma exigência que
convoca as comunidades de fé e os indivíduos para serem um em Cristo, nas
próprias palavras do Senhor da Igreja, dirigindo-se ao Pai: “que sejam um,
como eu e tu somos um”.
Os perseguidores estão também no meio
da comunidade de fé. Apontam o fracasso, aguçam o desespero dos fracos,
instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo
pessimista. Usam até a
agressão nos questionamentos sobre missão e prioridades estabelecidas, o
evangelismo metodológico acima da evangelização como anúncio da notícia
nova da chegada do Reino de Deus. É verdade que muitos naufragam, ou
escolhem outra rota. Preferem outro destino, salvacionista, avivalista,
propositista, mercantilista. O imediatismo seduz e as facilidades da mídia
ajudam.
É quando se torna necessário recordar
Jesus. Não o que exigiria arroubos emocionais sobre sua pessoa, carne
tremida, lágrimas nos olhos, comoção sobre a cruz ou sobre a salvação
espiritual, sem libertação do corpo e do ser inteiro. Cristo não é um
produto de mercado, e não é um nome que possa ser utilizado impunemente na
venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos, “curativos”, com fins
salvacionistas. O Jesus dos Evangelhos não abandona o barco, dá a certeza
de sua presença como timoneiro da fé; é capaz de vencer a tempestade, enquanto
fortalece as certezas quanto à sua permanência junto aos discípulos e
seguidores, na pregação do evangelista Marcos, transmissor da fé
apostólica no Cristo de Deus.
Oração: "Deus, em tua
graça transforma o
mundo. Damos graças por Tuas bênçãos e sinais de
esperança que já estão presentes no mundo, entre pessoas de todas as
idades e nas que antes de nós andaram na fé; nos movimentos de superação
da violência em todas as suas formas, não apenas por uma década, mas para
sempre; nos diálogos profundos e abertos que começaram tanto em nossas
próprias igrejas e com gente de outra fé, na busca por compreensão e
respeito mútuos: em todas as pessoas que trabalham juntas por justiça e
paz – tanto em circunstâncias excepcionais quanto no dia a dia.
Agradecemos-Te pela Boa Nova de Jesus Cristo e pela certeza da
ressurreição. Amém” (Assembléia do CMI, em Porto
Alegre-RGS).