DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO "B"

 
1Samuel 3,1-10 (11-20) – Davi alimenta comandados no sábado
Salmo 139,1-6 (13-18) –  Teus olhos me viram antes de tudo...
2Corintios 4,5-12 – Por que não pregamos a nós mesmos?
 

Trataremos, hoje, do legalismo religioso enfrentado por Jesus Cristo enquanto vigiado pelas autoridades religiosas de seu tempo: “Saíram pensando em matar Jesus...”, quando constataram a desobediência profética do Homem de Nazaré. Heróis nas lutas por libertação no século XX, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, jamais teriam chance de fazer o que fizeram, se dependessem da aprovação oficial da igreja cristã, para não falar da fé fundamentalista e legalista de igrejas evangélicas. Já contei antes, repito: Ghandi leu o Novo Testamento numa noite, quanto morava na África do Sul. Ao amanhecer, convicto de que  encontrara orientação certa para sua causa em favor da Índia sob o colonialismo europeu, britânico, procurou uma igreja cristã. Deparou-se com uma, dispôs-se a entrar. Imediatamente viu a observação numa placa, na porta do templo: “É proibida a entrada de cães e negros”. Nunca mais entrou numa igreja cristã, parece, embora impressionado pelo Evangelho. Não há notícias, da época, sobre qualquer apoio evangélico ou cristão à causa de Gandhi. O legalismo sempre está próximo do preconceito e do exclusivismo, entre cristãos. A palavra “eqüidistância”, no entanto, é bem freqüente entre evangélicos, quando está em questão alguma luta libertária, em qualquer parte do mundo. Exceção para o mundo ecumênico.

 

É bem conhecida a luta de Luther King com o evangelicalismo fundamentalista dos EUA, que o desaprovava e perseguia, em clara manifestação racista fundamentada supostamente em “ensinamentos bíblicos sobre diferenças raciais”, como diziam os cristãos que reagiam contra a cessão de direitos iguais para todos os cidadãos e cidadãs negros, a favor do apartheid que ainda existe na sociedade norte-americana (cf.Filme: Crash, roteiro e direção de Paul Haggis). Nelson Mandela passou anos na prisão, em razão da defesa de causa semelhante, na África do Sul. Onde está a Igreja ou o cristianismo oficial sob o legalismo evangélico ou protestante,  nestas situações de opressão, discriminação e exclusão? Logo se declara eqüidistante, no mais das vezes. Quando não se omite inteiramente.

 

Quantas vezes as igrejas estiveram ao lado das ditaduras, especialmente na América Latina, quando denominações e organizações “cristãs” se diziam eqüidistantes, tratando de sufocar lideranças na resistência ao autoritarismo militar, denunciando irmãos ao aparelho repressor do Estado, como ocorreu com o pastor Jaime Wright e seu irmão, presbítero Paulo Wright (este, preso, foi torturado e morto pela polícia política da ditadura militar que subjugou o Brasil por vinte um anos; Jaime Wright, pastor presbiteriano líder na luta pelos Direitos Humanos durante a ditadura militar, morreu deprimido e desgostoso, alijado pela igreja a quem servira por muitos anos)? Os nomes são apenas alguns entre inúmeros exemplos na Igreja omissa sob a ditadura militar, como os do presbítero Waldo César e do pastor Zwínglio M. Dias. Não nos impressiona a posição sistemática, histórica, do protestantismo evangelical brasileiro em favor da repressão política e religiosa (Rubem Alves, Religião e Repressão; A.Gouveia Mendonça, O Celeste Porvir)?

 

Marcos 2,23- 28 (3,1-16) – É sábado, a vida continua, os que estão saciados não percebem, mas os que têm fome continuam famintos. O sábado era uma das observâncias mais importantes no judaísmo, uma certa nitidez que se exigia para distinguir o judeu do pagão.  A autenticidade aparente, sem dúvida, era mais exigida que a convicção religiosa interna.  Aí, viver como o pagão não significaria algo tão importante. Por exemplo: no uso do dinheiro; nas relações de trabalho explorando compatriotas; no oportunismo político dos dirigentes no tráfico de influência; na crucificação de judeus rebeldes ao regime imperial; na eqüidistância quanto aos compromissos e responsabilidades sociais para com o povo, coletivamente.  
Ao contrário, a violação do sabbah era motivo até para a pena de morte (“Saíram pensando em matar Jesus...”, cf.3.6). Os regulamentos exigiam que certas atividades não poderiam ser exercidas durante o sábado, mais exatamente: trinta e nove artigos regiam  “o que não deveria ser feito durante o sábado”, inclusive preparar alimentos para comer, no judaísmo contemporâneo do evangelista Marcos. Esfregar espigas para comer, mesmo que depois do “horário regulamentar”, era considerado uma infração. O sábado adquiriu seu real significado na época tardia intertestamentária. No judaísmo pós-bíblico tornou-se preceito indispensável.
 
A história do sabbah, no entanto, começa com a importância que o escrito sacerdotal (P) lhe dá desde o Gênesis. Muitos dos preceitos sobre o sabbah  são heranças cananitas, e outros tantos do mundo babilônico. O sábado foi sabattu, um tabu referente a algum dia, no passado remoto, como era tabu acender fogo.  Um dia de tabu é sempre contrário a um dia festivo, que é repleto de alegria, mas também comemorado em locais sagrados. Experimentar a presença cultual de Deus sob formas repressivas é influência pagã na religião de Israel. O mundo babilônico também conhecia o sab/pattu, o dia de lua cheia, relacionado ao tabu do sabattu (Gunneweg, Teologia Bíblica do Antigo Testamento e Imschoot, Théologie de L´Ancien Testament). Confirma-se a influência estranha do paganismo vizinho. É religiosa, essencialmente.   
Mas o que é reafirmado no Êxodo contraria essa disposição (20,11; 31,17b): “naqueles dias descansou o próprio Yahweh, depois que criou o mundo em seis dias”; “Este é o dia que Yaweh fez, regozijemo-nos e nos alegremos nele” (Salmo 118,24). Gunneweg dirá: “O alvo da criação (do sábado) é o repouso de Deus e do ser humano. Aí, o ser humano humano se volta para Deus.  Sua melhor explicação encontra-se no contexto pós-exílico. O Sabbah,  para Ezequiel, é sinal de santidade do povo de Yahweh, faz conhecer às nações que este povo é santificado pelo próprio Yahweh, que é proprietário do mesmo, enquanto mantém uma “aliança perpétua” com sua gente (Ex 16,8ss; 31,16). Quem não cumpre o sábado separou-se de Israel. A visão do deuteronomista, acompanhando o profetismo javista,  ligará o sabbah aos enfoques libertários do Jubileu. Aqui  o sábado adquire seu mais importante significado, tanto para o cristianismo quanto para o judaísmo pós-bíblico. O descanso do sábado evoca a libertação da servidão no Egito; Israel descansa comemorando a liberdade, por isso deve permitir o descanso dos servos, das servas, do gado, inclusive (Dt 5.15 cf. Lv 23,3). As vinculações são antes de tudo voltadas para o compromisso social com o trabalho; com a produção de bens e alimentos e com o repouso reparador de energias também garantido ao trabalhador. Não se refere a prescrições religiosas e cultuais. Os fundamentos teológicos indicam.
 

Jesus recorre às Escrituras, como sempre, e cita 1Sm 21,2-7: Se Davi e seus companheiros puderam comer os pães sagrados reservado aos sacerdotes, por estarem famintos, no sábado, assim também seus discípulos  teriam o mesmo direito. O fato histórico é reacendido, porque a citação bíblica recorda a falência progressiva do sistema social vigente, consumido pela religião formalista que oculta o compromisso social. Samuel é um dos inauguradores do profetismo em torno de Yahweh, Deus de Israel.

 

Um precedente  inquestionável, aparentemente. O arremate, porém, é escandaloso: “O sábado  foi feito para servir o homem; o homem não foi feito para servir o sábado”. O sábado é a Lei dada aos homens para sinalizar obrigações mútuas. Eis a grande novidade.  O fato seguinte exemplificará o conceito evangélico sobre a finalidade do sabbah no Reino de Deus: o sábado só faz sentido se for uma prescrição que sustenta a vida. No primeiro, Jesus afirma que nada pode impedir que os “famintos”  se alimentem, sejam quais forem os meios que se devam utilizar para tanto. Há uma “lei”  que está acima da Lei, justificando a desobediência civil. No segundo caso, Marcos aponta o esquadrão fariseu politicamente correto novamente se colocando em ação contra a vida, ameaçando a Jesus. O homem tolhido pela doença necessita de cura. Precisa ser útil, trabalhar, produzir seu sustento e o dos possíveis dependentes. Especialmente do ponto de vista coletivo, curas, transformações, são importantes para a manutenção da vida de todos. Luiz Gonzaga, Rei do Baião, grande intérprete da cultura popular brasileira, diria: “A esmola, quando não mata de vergonha, vicia o cidadão...”

 

Há urgências, a sociedade não é receptiva, porém. Pessoas portadoras de deficiências, sem autonomia física ficam ainda mais fragilizados. Quem cuidará delas? A Lei as condenaria ao conformismo, como resultado de pecados pessoais ou ancestrais, de acordo com o senso comum indicaria para a deficiência física. Jesus manda: “entra na roda, fique no meio”! E o esquadrão vigiava, perguntando: “será que ele ousará”? Na sinagoga, lugar da assembléia dos religiosos, o fato chama a atenção.  E Jesus, entendendo o espírito coletivo repressivo ou fatalista, pergunta: “O que a Lei permite fazer no sábado: fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou dar-lhe fim”? Ira e tristeza são a resposta, a neutralidade diz tudo. Não há decisão, fica-se em cima do muro, porque o medo de “agir ilegalmente”, ou contra doutrinas tradicionais, é mais forte. A religião não cuida dessas coisas? Mas Jesus não espera mais, cura o homem deficiente, “porque hoje é sábado” (Vinícius de Morais)! Aqui e agora, a vida não pode esperar pela morte. A liberdade é um salto da morte para a vida. A neutralidade e a eqüidistância, porém, escondem o julgamento de morte.    

                                    

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

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