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4o.DOMINGO DO ADVENTO – ANO
“B” COMENTÁRIO AO LECIONÁRIO
REFORMADO Por
Derval Dasilio Deuteronômio
18,15-20 – “O senhor teu Deus levantará um profeta no meio de
ti” Salmo 15 –
“Habitará na tenda de Deus quem vive com integridade e pratica a
justiça” 1Coríntios
8,1-13 – “Quando eu era criança, pensava e falava como uma
criança” Marcos 1,21-28
– “O demônio agitava-se ,
... seria uma nova doutrina?” Há uma visão de
abismo, de catástrofe irreversível; de um mundo dominado pelo mal,
demônios por toda parte, quando os referenciais que expressam os valores
do nosso tempo estão na emancipação da razão – uma ilusão; da liberdade,
no entanto relativa (“... Aqui que eu sou livre!, como diria
Millor Fernandes); o enriquecimento, sucesso financeiro ou funcional,
reforços do ideário da sociedade moderna? Como entenderemos que Deus,
Todo-poderoso, se entregue e abdique de toda capacidade de se sobrepor e
superar o sofrimento para assumir a condição humana num certo Jesus de
Nazaré, um homem como qualquer outro, a ponto de esvaziar-se para ser
julgado e morto pelos homens, em favor de uma Causa divina de salvação do
sofrimento de homens e mulheres na esfera terrena descendo aos infernos e
emergindo vitorioso sobre a morte, inclusive no inferno da alienação
mental de seu tempo (K.Barth)? O que norteia o imaginário religioso depois
da modernidade, da demitização, quando os demônios contemporâneos se
apresentam na complexidade dos sistemas de pensar que os denunciam?
Muito importante a visão
apresentada no filme Constantine, do diretor Francis Lawrence, sugerindo o
enfrentamento das questões sobrenaturais num mundo em que anjos e demônios são tão comuns quanto a presença
humana, e talvez até inseparáveis.Uma teia de acontecimentos demoníacos, e
catastróficos, cada vez mais profundos e complexos comprovariam a presença
malévola de demônios na pós-modernidade, pós-iluminista, onde o inferno
também é observado de perto, através de sua proximidade estarrecedora,
aqui e agora. Só entenderemos isso, se assimilarmos que Deus combate o mal
no campo onde ele se manifesta, com suas figurações e representações
simbólicas, tanto no mundo sagrado quanto no profano; se compreendermos
que Deus não ficou indiferente ao sofrimento humano habitando e
permanecendo em espaços celestiais distantes; que, ao contrário, veio
experimentar em carne e osso a perplexidade humana, quando homens e
mulheres enfrentam o mal sistêmico na esperança do advento
(parousia) do Reino e a sua justiça. No tempo de Jesus
dominava um forte temor, extraordinário, em relação a demônios. O que
ocorre com a Palestina islâmica ainda hoje serve de parâmetro para o que
ocorria dois mil anos atrás.
Doenças, em muitas manifestações, eram atribuídas a demônios,
particularmente as doenças psíquicas, que externamente acusavam as vítimas
que não mais tinham controle de si mesmas. Nada incomum, quando doentes
mentais escolhiam sinagogas e diante delas começavam a vociferar. Quando
nossos hospitais deixam pouco espaço para os doentes mentais, entendemos a
dimensão do grande medo de demônios.
Não menos quando os corredores dos ambulatórios dos hospitais
públicos amontoam pacientes em estado grave aguardando
atendimento. As pessoas do tempo
bíblico estavam habituadas com o fenômeno da identificação simbólica, e
normalmente a via de cura era apontada como vitória sobre algum demônio
que as dominava. A possessão demoníaca, narrada na linguagem e na
concepção desse tempo, era observada com freqüência (J.Jeremias). Mas
existe uma mudança, neste aspecto, quando Jesus aborda os casos que lhe
chegam. No judaísmo, os
demônios eram considerados como seres individuais, com nomes. Quando Jesus
os liga a Satã as imagens são diferentes. Satã surge como comandante de
uma força militar (Lc 10,19), outras vezes como dirigente de um reino (Mt
12,26), os demônios são soldados desse poder. Portanto, Jesus não considera o
mundo do mal como alguma coisa atomizada, e sim como uma unidade. Desse
modo, o mal perde a característica isolada e fortuita que se lhe atribui.
Por trás de tudo está o “inimigo”, por excelência o destruidor da criação.
Os seres humanos estão indefesos, à mercê do exército de maus espíritos
comandados por Satanás. E não fica nisso, Satã haverá de se levantar como
um deus e exigir adoração. Não se deve estranhar o fato, Marcos fala
constantemente de espíritos maus, demônios, espíritos impuros. A diferença
está em como os poderes desses demônios são relativizados, nos evangelhos.
Quando forças cegas presentes, invisíveis a olho nu, se manifestam (Mc
1,24), são inquiridas no plural. Não são individualizadas; não há um nome
particular para cada uma dessas forças:“...que queres de nós?”,
reage o representante dos espíritos imundos, perguntando. Temos então uma
concepção plural de poderes alienadores reunidos, juntados, malignamente
em prontidão, enquanto se reconhece concomitantemente que o “mais forte”
está entre eles, e fala em seu nome. A resposta também se refere ao
reconhecimento do coletivo, por trás: “Viestes para nos
destruir?” É preciso compreender e estabelecer
que as questões estão condicionadas às nossas crenças, valem a mesma
coisa. Tiago, abordando a questão de fé, diz: “Tu acreditas que há um
Deus. Fazes muito bem. Os demônios também acreditam. E estremecem ao ouvir
o seu nome” (Tg 2,19). Nesse ponto, questionaríamos o mundo virtual
que se faz como mundo real? Então, caímos noutra questão: é o ser humano
que inventa o mal; que se
angustia, como o aprendiz de feiticeiro que não sabe desfazer o feitiço?
Pior ainda, atribuindo a poderes terceiros, diabo, demônios, forças do
mal, a escolha que, finalmente é sua, ele alcança o álibi que o inocenta
diante das decisões necessárias? A visão maniqueísta gosta da polaridade:
mal irreversível, bem absoluto... A arrogância do nosso tempo reinventa o
mundo enquanto se propõe uma criação tecnologicamente “melhorada”, através
da biotecnologia, uma irresponsabilidade incapaz de avaliar as
conseqüências, quanto à dignidade humana ferida. Não se escondem as intenções e os
potenciais destruidores, extraordinários e imprevisíveis, através da
pesquisa invasiva. Euler R.Westphal (O Oitavo Dia, União Cristã, 2005),
conclui seu importante trabalho sobre a biotecnologia, na busca de uma
bioética: “não bastaram os sete dias da criação, o ser humano criou,
no oitavo dia, o admirável mundo novo”. Mais que demitizar os
demônios históricos e culturais, o “pequeno-homem-deus redesenhou os
seres vivos e os seres humanos à imagem e semelhança dos interesses do
deus-mercado”. Esse autor nos lembra que a biotecnologia, buscando
alterar o futuro da espécie
humana, sem prever os danos que poderá causar, exige ao mesmo tempo
responsabilidade ética, solidariedade com os seres da natureza, inclusive
os que existiram antes de nós, e
deverão ter seu lugar
garantido no futuro. A questão se coloca a partir do resgate da dignidade,
tanto da humana quanto da criação. Quem terá acesso, ao mesmo tempo, aos
benefícios das conquistas biotecnológicas? É Deus quem doa a
dignidade.“O demônio agitava-se , ... seria uma nova doutrina: os
espíritos imundos obedecem [a Jesus]”(Mc 1,27b). Ao finalizarmos o tempo do Advento, já na
proximidade da Natalidade do Senhor, seguimos ouvindo vozes e ecos
proféticos, enquanto os acontecimentos da vida humana persistem em
reclamar dignidade para a vida, paz, comunhão, solidariedade,
especialmente entre os que crêem. É tempo de salvação (kayrós), o
Reino de Justiça e Paz chega aos homens e mulheres que clamam por libertação do espírito desse
tempo dos homens.
Derval
Dasilio Pastor da Igreja Presbiteriana
Unida Teólogo filiado à ASETT (Ass. Teólogos/as Ecumênicos
do Terc. Mundo) |