ADVENTO -    3O. Domingo – Ano “B”

COMENTÁRIO AO LECIONÁRIO REFORMADO

Por Derval Dasilio

 

Isaías 61,1-4 – O Espírito me ungiu para anunciar a libertação... Lc 4,16ss

Salmo 126 – O Senhor restaurou a sorte de Sião

1Tessalonicenses 5,16-24 –  O dia do Senhor vem inesperadamente...

João 1,6-8; 19-27 – Há esperança para os que padecem sob a opressão

 


Neste terceiro domingo do Advento nos deparamos com os símbolos da missão individual de cada cristão; dos ministros ou oficiais da igreja, bispos, pastores, presbíteros, diáconos, presidentes, moderadores, seja qual for o sexo. Jesus está em primeiro lugar, ninguém deve querer suplantá-lo. Jesus e sua missão são a coisa maior de nossas vidas? Dedicar a vida para abrir caminho à causa do Messias de Deus; criar visibilidade para o Messias de Deus e os significados do Reino; ser precursor do que Jesus representa na libertação das muitas opressões, cegueiras, prisões religiosas, políticas, econômicas, sociais, seria o que o profeta João Batista representa para todos nós, quando prepara o caminho do Senhor? Neste momento da vida nacional, quando várias marcas apontam urgências de políticas a serem corrigidas, quando as velhas oligarquias se unem, conspiram e apaixonam o povo, enquanto se jogam para debaixo do tapete as questões de fundo, esmerando-se em ocultar o que sempre faz quando está no poder; insinuando que as “espertezas”, a imoralidade por trás das campanhas políticas, são defeitos dos outros e virtudes quando são elas que governam, o exemplo do Batista faz falta?

Nunca se fez a revolução na educação e na saúde; o povo continua doente e ignorante: neste fim de ano veremos o de sempre, filas nos ambulatórios hospitalares e pais madrugando ou dormindo na calçada para obterem uma ficha na abertura do expediente de matrícula das escolas. A busca da estabilidade macro-econômica governamental impede a visão que se precisa ter sobre a permanente instabilidade social; as tantas crises que acometem seguidamente a comunidade nacional em dramas proporcionais ao distanciamento político existente, são reveladoras. As colocações proféticas, harmonizando o que se dizia séculos antes na escola profética de Isaías, agora na boca de João Batista, passa a ser muito importante para os cristãos. Perguntamos: como a messianidade de Jesus se reflete como “evangelho”, boa-notícia para os pobres, os esmagados e esquecidos? Por que damos mais importância às aparências, fatos menores que escondem as profundas desigualdades na sociedade? Por que a realidade oculta é tão menos importante que as guirlandas, as luzes, os presentes do paganismo natalino que tanto apreciamos?

 

Isaías 61,1-4 –  O profeta Isaías (Trito Isaías), mais de dois séculos depois do fundador da escola profética que leva seu nome,  convida ao retorno do desterro, inclusive no pensar. Há incerteza, porém não maiores que a esperança; a ação de Yahweh será eficaz; Jerusalém, que agora se encontra arruinada, destruída, virá a ser um centro de peregrinações, no futuro, à qual acorrerão todas as nações da terra. A realidade é dura, no cativeiro; a pobreza e tristeza fazem a rima perversa que induz ao fatalismo e à acomodação. É a este povo que se dirige a palavra profética, instilando a esperança de transformação da realidade. Se as coisas estão difíceis, podemos sair das mesmas, porque Yahweh não abandona o seu povo, sugere o profeta.  O Senhor veste seu povo com  roupas protetoras, salvadoras, diante de todas as dificuldades;  devolver-lhe-á a terra usurpada, enquanto faz germinar os frutos da justiça; enquanto for lembrado e louvado, Yahweh não dará as costas para seu povo.

         É Lucas (4,16ss) que observará o quanto Jesus se debruçou sobre este texto pós-exílico (Is 61,1ss): “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos derrubados e desesperançados; para curar corações enfermos; para proclamar a anistia e liberdade para os cativos; para proclamar o Ano da Graça do Senhor (Jubileu Libertador: cf. Êxodo, Levíticos e Deuteronômio); o dia da desforra do Senhor (porque os agressores receberão o que merecem, enquanto o povo receberá a “graça” no ressarcimento, na indenização pelos sofrimentos impostos; a violência social que o povo  sofre será vingada). 

 

João 1,6-8; 19-27 –  A missão do Messias, tal como percebida pelos profetas, com séculos de antecipação, cristaliza os conceitos de Evangelho e de evangelização.  A meditação demorada de Jesus, leitura orante, fazia-o seguro de que cumpria as Escrituras. Apresentou-a na sinagoga como um sinal claro de messianidade, e ante a comissão oficial que veio perguntar-lhe se era o Messias. Aí está: O Messias de Deus vê que o povo é vítima da voracidade e da indiferença da elite corrupta que exclui o pobre e o faminto; o desabrigado; os que não podem nem mesmo comprar os animais para o sacrifício de expiação no templo. Os dirigentes devoram os bens do povo, o erário, o que é arrecadado em impostos (inclusive o religioso), associados aos membros da elite econômica que exploram, perseguem e matam irmãos e irmãs em razão da ganância reinante; os que têm a função de guardar a vida do povo, sacerdotes, líderes religiosos, estão mancomunados com os ricos que correm atrás de seus interesses particulares (Shigeyuki Nakanose).  Pessoas justas, como João Batista, estão sendo assassinadas porque, em nome da justiça de Deus, denunciam os crimes dos governantes, ao mesmo tempo em que se recusam a cumprir as leis injustas do Templo e do Governo, enquanto eram escorraçadas pela sociedade (cf. Gandhi e Luther King Jr).

O drama da miséria, da ausência de cidadania e direitos fundamentais; da religiosidade atrofiada, está na messianidade de Jesus. Os servos de  Yahweh, serão lembrados pelo Messias de Deus. Os que passam fome e sede gemem de angústia e sofrimento, mas a situação vai mudar. Uma sociedade com fortes contrastes e injustiças, controlada por mecanismos que associam a religião com a política e a economia, convence-se de direitos consuetudinários e posterga as transformações necessárias. Recusa-se a ver, ou não demonstra interesse pela realidade ocupando-se com o falso moralismo, antes que da ética, éthos que dá ordem ao caos social. É exatamente o que se vê nos dias atuais, quando as formas e mecanismos transmudam aparentemente, mas não se movem interiormente para as mudanças necessárias. O conflito é inevitável.

Hoje, quando há quem pense que estamos em posição bem diferente daquela sociedade denunciada por João Batista, o que se observa é apenas uma mudança coreográfica: muda-se o cenário, instrumentos cênicos, gelo seco, spots, holofotes, para enfocar detalhes. As personagens são as mesmas de sempre e o roteiro permanece inalterado.  O drama dos oprimidos continua. João Batista nos recordará, neste domingo, que o menino do presépio em Belém não é apenas uma história piedosa sacro-romântica que os autores bíblicos construíram com carinho e cuidado, visando comover o observador. A boa-notícia, o evangelho libertador dos pobres, esmagados, arruinados, desprezados e esquecidos, fará sentido? Há esperança de transformação? Se entendermos o que é um testemunho da Luz, compreenderemos o papel de João Batista. Papel que nos cabe, hoje, no drama da salvação. Nessa personagem profética encontraremos um ensinamento para o nosso próprio testemunho, no anúncio da vinda do Senhor. As situações que apontam o caos social, como vemos hoje; as questões das pessoas mais injustiçadas, estão na mira do Reino de Deus.  Mais que nunca, a visão da realidade transmudada pode ser desoladora, a partir da grande maioria, enganada, submissa, conformada com o enfoque do detalhe que esconde o todo e o entorno, no conjunto dos fatos sociais. A esperança, porém, brota com o Advento do Senhor. Afirmaremos isto, neste domingo. O Senhor vem!

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

Teólogo filiado à ASETT

 

   

 
  

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