2o.DOMINGO DO ADVENTO – ANO “B”

COMENTÁRIO AO LECIONÁRIO REFORMADO

Por Derval Dasilio

 

 

Isaías 40,1-11 Caminhar é preciso...

Salmo 85,1-2;8-13 Tu nos perdoaste, e saímos do cativeiro!

2Pedro 3,8-15a   Para Deus, um dia é como mil anos

Marcos 1,1-8 O Evangelho no caminho de Deus anuncia o Advento

 

Estamos imersos numa sociedade onde nos movimentamos descuidadamente em todos os tipos de relações, ou somos açoitados com chicotes de veludo para consumirmos valores de um certo tipo de riqueza ou prosperidade; ou cedemos ao estímulo cultural de prestígio e visibilidade guiados pelo individualismo. Pode, isto, desviar o cristão das relações verdadeiras com Deus, no sentido do caminho que é proposto para cada um a partir do batismo? Talvez estejamos equivocados, talvez não... Porém, quando sentimos que o problema de muitos cristãos se apresenta na falta de sensibilidade para com os compromissos da fé cristã; quando fizemos profissão de fé e declaramos nossa adesão à causa do Cristo de Deus, mas tomamos  posteriormente um rumo estranho; quando relegamos ao secundário as implicações profundas das denúncias evangélicas, terão sido esquecidas as exigências da conversão (metanóia = mudar o caminho, corrigir o rumo)? Vejamos as leituras deste domingo. 

 

Isaías 40,1-11 – Um maravilhoso canto de consolação para o povo desterrado na Babilônia, eis o que é nosso texto deste segundo domingo do Advento. Este livro, denominado Segundo Isaías, não tem um autor conhecido, mas leva o nome do profeta mestre de quase três séculos antes. Mas o profeta e novo, como nova é a situação. O exílio atirara por terra todas as seguranças ideológicas e religiosas. O credo fundante no qual se confessa Yahweh como Deus de Israel evocava uma “Aliança” de Deus com um grupo que nada representava na história da humanidade. Trata-se de uma aliança protetora e salvadora que ignorava as grandes forças, grandes povos, culturas expressivas do mundo de então, em seu cuidado, refletindo o interesse de empoderar o fraco contra toda forma de opressão. O estilo profético do Dêutero-Isaías, pois, faz as coisas retornarem ao seu lugar, propondo uma nova utopia na qual o passado, na libertação do Egito, evocava o contrato renovado como forma de amor de Yahweh a seu povo.

 

Todo mundo deve entender que os caminhos de Deus são aqueles que promovem a vida plena e a dignidade, a felicidade e a paz. O que o profeta entende sobre o que é o caminho de Deus se traduz no momento mágico que transforma as escravidões em liberdade; as injustiças em face da impiedade prática que se ensina em misericórdia, solidariedade e tolerância dos diferentes; as economias concentradoras de privilégios em solidariedade e partilha; o mal-estar em bem-estar geral na sociedade. Com a volta do desterro, o futuro está aberto... mais que isso, está disponível para os atos libertadores que Yahweh apresenta diante das dúvidas, dos medos, dos murmúrios opressores espalhados pelos  conformados com a injustiça, as desigualdades e as opressões.

 

2Pedro 3,8-15a – Esta leitura pertence a um dos escritos mais tardios do Segundo Testamento.     

Há uma razão para se afirmar isso, o autor conhece as cartas paulinas e outras epístolas dos discípulos de Paulo e de João. A vinda do Senhor é o tema pungente. Os problemas dos que esperam ansiosamente se refletem aqui. As primeiras gerações de cristãos, já convivendo com as que se seguiram, assumem um perfil apocalíptico, ênfase no final dos tempos, fim do mundo, enquanto doutrinas perigosas vão se introduzindo (cf. comentário ao 1o.Domingo do Advento). Mas é preciso considerar o que significa a palavra “tempo” em 2Pedro: “... um dia é como mil anos”. O apelo à paciência está bem claro: se Deus é paciente, devemos ser também pacientes.

  

Não se pode esperar a vinda do Senhor em termos catastróficos, anunciando a destruição geral. Porque, depois de tanto “tempo”, na espera da fé, devemos crer que as transformações ocorridas em nossa vida pessoal são o sinônimo do que ocorrerá com o mundo (“O homem, em si, é como um mundo num grão de areia...” - W.Blake). A consumação da História se vista no mundo transformado, “un mundo otro”, nas palavras de Israel Batista, secretário geral do CLAI, também será assim, se somos. Se somos reconciliados com o projeto de Deus, devemos esperar o mesmo para o mundo onde estamos. Se formos transformados, o mundo também será transformado.

 

Marcos 1,1-8 – O prólogo do evangelho de Marcos marca as diferenças e os vínculos do Primeiro Testamento.  João Batista é o profeta do Advento. Há consenso entre analistas de que João Batista representa o anúncio de um tempo decisivo que chega.  Marcos reflete muito claramente o pensamento do cristianismo primitivo. Mais que isso, sua proximidade, do ponto de vista escriturístico, torna-o representante das primeiras camadas interpretativas do kérigma das comunidades iniciais. O Batista é um profeta apocalíptico no melhor sentido, a seus olhos (tudo será transformado, com a irrupção do Reino). Sua presença é destacada com semelhanças extraordinárias ao profeta Elias (2Rs 1,8; Mal 3,23), o que dá uma grandeza inominável ao evangelho que o profeta da nova Aliança prega. Destaca-se sua autoridade, especialmente: foi ele quem batizou Jesus! É ele quem afirma primeiro a irrupção do Reino de Deus nos evangelhos, depois de um longo silêncio profético em Israel.

 

O batismo com o Espírito Santo (Mc 1,8) indica que o Messias de Deus concederá a capacidade de discernimento, o mesmo que distinguir as possibilidades e as exigências do caminho de Deus. Ao mesmo tempo, o Espírito é a força da qual se necessita para combater os poderes contrários ao Reino de Deus, que o próprio Messias enfrentará. A presença profética de João Batista reafirma a pregação veterotestamentária  sobre a justiça de Deus sobre os pecados estruturais do homem, da sociedade e da cultura.  Em primeiro lugar, a justiça alcançará a política, a economia e a religião, sem eximir o judiciário comum, evidentemente.

 

A conversão cristã é ressaltada, aqui. A “terra prometida vem,” seguramente, mas é preciso caminhar no deserto, antes de tudo.  A conversão é necessária, para que se veja o novo que está chegando. Como diz Miguel Burgos, essa conversão é também um sinal de alegria, revisando a pregação de João Batista. E aqui se destaca o compromisso explícito do batismo cristão. Por isso, chamar o povo para caminhar na direção de uma nova libertação, tão prodigiosa como a primeira, o êxodo do Egito, dá sentido ao Advento. É tempo de consolação e de esperança, também. Utopias evangélicas, calcadas na esperança de libertação, vêm a ser decisivas como são decisivos os símbolos do Advento. É preciso começar um novo caminhar no Caminho do Senhor (derek yahweh); tê-lo como um marco de uma nova libertação. Em outro momento (Is 55,10-11), o profeta também diria: “meus caminhos não são os vossos caminhos”. Valem também os versos de Thiago de Mello: “o caminhante faz o caminho enquanto caminha...” Caminhar é preciso, e para tanto é preciso confiar somente em Deus; caminhar é aprender a existir sob a dependência exclusiva da Palavra divina; é viver confiante e entregue à fidelidade de Yahweh, como se ensina ao povo bíblico, na Bíblia. O povo de Deus deve aprender a caminhar somente pela fé (Hebreus 11).

 

 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

Teólogo filiado à  ASETT (Ass. Teólogos/as Ecumênicos do Terc. Mundo)

 

 
 
 

   Indique este site             Imprimir