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1o.DOMINGO DO ADVENTO – ANO
“B”
COMENTÁRIO
AO LECIONÁRIO REFORMADO
Por Derval Dasilio
Isaías 64,1-9 – Tu vais ao encontro de
quem pratica a justiça
Salmo 122 – Lá está o trono de
justiça
1Coríntios 1,3-9 – A fé e a esperança significam mais
que o conhecimento
Marcos 13,24-37 – A justiça vem
habitar entre nós
Isaías 64,1-9 – “Oxalá
rasgasses o céu e descesses, derretendo os montes”, no preâmbulo do
capítulo, o povo pede uma teofania, quer a presença de Yahweh em seu meio,
visível, palpável, de preferência em carne e osso, talvez. O texto é
forte! O povo, confessando seu pecado, traições, infidelidades, seduzido
com apelo imediatista à idolatria do momento, espera a salvação. Deseja
com ardor uma intervenção em sua realidade histórica, contaminada pelas
ideologias pagãs que o desviaram da justiça e da solidariedade. Há
evidências, no texto hebraico, do reconhecimento do pecado estrutural que
tomou o povo por inteiro. O conceito bíblico do pecado é arrasador: é uma
mancha na vida ética; é algo que profana o espaço sagrado onde se
manifesta a vida; é um contágio que faz fenecer as esperanças de
transformação, como um vírus que faz murchar uma planta. O pecado arrebata
os homens e as mulheres como um furacão escatológico. Romperam-se as
relações com o Senhor. Yahweh oculta seu rosto e decreta a ruptura: é
insuportável para Deus a visão do povo seduzido e corrompido. Então, Deus
se recolhe ao silêncio como um pai entristecido diante do filho que o abandona e
não mais quer ouvi-lo.
1Coríntios
1,3-9 – Há problemas com o pluralismo, a comunidade é heterogênea, há
cristãos de muitas procedências na igreja de Corinto. Do judaísmo
helênico, das religiões pagãs, dos deístas gregos. Cultiva-se uma
religiosidade que muitos chamam anacronicamente de “pentecostal” (é
necessário corrigir a cronologia das epístolas paulinas, especialmente as
da década de 60 da Era Cristã, e do livro de Atos, seguramente escrito
depois de vinte anos). Mas o problema central é o “gnosticismo” que prega
a salvação pelo “conhecimento”. A questão pastoral e teológica se levanta.
Paulo repudia a pregação ‘gnóstica’. Que “conhecimento”? Socrático,
platônico, aristotélico; da gnosis dos gregos antigos, teístas, sem
dúvida, como Lucas relata na pregação no Areópago, em Atenas? A salvação é
uma questão de inteligência e razão? Nesse caso, o apóstolo vai ao nervo
da questão: só o conhecimento, ou o reconhecimento da fé na revelação de
Deus, que vem da esperança no “dia de nosso Senhor Jesus Cristo”, a
parousia, permitirá que se observe a manifestação da ação salvadora sobre
este mundo e sobre a história dos homens e das mulheres de todos os
tempos. Para esse dia não é necessário preparar-se, adquirir conhecimento,
mas sim um agir dentro da práxis de uma vida cheia de sentido. A fé e a
esperança, as utopias (lugares e situações sonhadas, possíveis, porém
ainda não existentes) no Evangelho, alimentarão o dinamismo da comunidade.
Isso bastará para preencher as necessidades do cotidiano do cristão e da
cristã.
Marcos 13,24-37 – Um
discurso escatológico! Marcos bate de frente com a realidade presente face
ao futuro que Deus oferece, como salvação e libertação ao final da vida e
dos tempos. Nada do que fala
é estranho ao que se pregava e foi registrado na literatura judaica da
época: o juízo de Deus irromperia para mudar o rumo da história humana e
do mundo. Há muitas semelhanças, embora os outros escritores evangelistas
adaptassem seus conceitos à sua própria mensagem. Marcos, porém, está mais
perto das fontes e dos testemunhos, escrevendo no mínimo vinte anos antes
dos demais. Em todo caso, esse discurso corresponde exatamente à idéia que
Jesus de Nazaré teria e pregava sobre o fim do mundo e o juízo de Deus. A
história se consumaria com o estabelecimento definitivo da justiça de Deus
(que não corresponde à pregação fundamentalista e individualista do
inferno para uns e o céu para os salvos). O fim do mundo na sinonímia
evangélica tem o significado da supremacia completa da justiça no reinado
de Deus, substitutivo definitivo dos reinados deste mundo (cf. Cristo, o
Rei do Universo, último domingo do ano “A”).
A história da humanidade é
feita de crises, momentos de reorganização do caos político, ou social, ou
econômico. Devemos também considerar as crises religiosas, como a que
observamos nos tempos atuais, que afirmam a religião de mercado impondo-se
sobre a fé reformada; do pluralismo evangelical que se declara vitorioso
sobre o ecumenismo unificador da Igreja de Cristo. As crises se repetem,
mas a interpretação religiosa desses acontecimentos se presta a muitos
matizes, e não poucas vezes a falsas promessas. A coação da linguagem
apocalíptica freqüenta púlpitos e comunidades, revela nossas crises de
identidade. O oportunismo se instala, a morte é anunciada acima da vida; o
temor constrange à aceitação de uma mensagem desesperada de iniludível
destruição associada ao julgamento de cada um.
Hoje, sem
dúvida, devemos recorrer à sabedoria, a idéia de Jesus sobre Deus e sua
atuação salvadora da humanidade sobrepõem-se ao salvacionismo
fundamentalista ao qual nos acostumamos. A palavra de ordem é
“vigilância”, que significa ter um olhar atento ao que sucede ao redor;
aguçar os olhos para ver e ler a realidade presente, ou seja: reconhecer
as injustiças em todos os níveis, na economia, na política, nas relações
sociais. Vigiar é tão importante como viver com dignidade (dignitatis =
uso pleno dos direitos pessoais) e com esperança de transformação das
injustiças, preconceitos, ódios religiosos, intolerâncias, conflitos
humanos. Falar da segunda vinda do Senhor, hoje, preenchendo a mensagem do
Evangelho, é corrigir erros, assimetrias do mundo global que mercantiliza
as relações entre homens e mulheres em muitas das situações cotidianas;
ocupar espaços de diálogo para a repartição dos recursos disponíveis (as
tecnologias de ponta estão plenamente disponíveis para 1/5 da humanidade,
apenas... em “ilhas” privilegiadas do mundo desenvolvido em toda parte,
além do primeiro mundo). A segunda vinda do Senhor significa esperança
para os desagregados, humilhados, pisoteados e esmagados deste mundo. As
desigualdades profundas serão julgadas no juízo de Deus. A ignorância, a
humilhação, a pobreza, apontadas na vigilância diária que permite ver os
sinais do Reino, constituem tudo aquilo contra o qual se luta. Fazer
pressão sobre os interesses hostis contra a vida; corrigir a miopia sobre
o real sentido de nossas próprias vidas diante da mensagem do Advento, o
Senhor vem, é a palavra de ordem. Algo como alcançar e aprofundar o amor
de Deus pelos homens e mulheres, que se aproxima de nossas realidades,
habita conosco na forma do homem que percorre os nossos caminhos.Essa
dimensão é alcançada quando mergulhamos em nossos silêncios; em nossas
negativas, saindo da superfície para o aprofundamento de nossa fé no Deus
que se encontra conosco através de Jesus de Nazaré. Estamos
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Derval
Dasilio
Pastor da Igreja Presbiteriana
Unida
Prof.
FTRS/IPU
Filiado à ASETT
[Ass.Teólogos/as do Terceiro Mundo]
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