Dia de Pentecostes – Ano “C”

 

Atos 2,1-21 – O Espírito impõe a Igreja em unidade

Romanos 8,14-17 – A criação geme no parto da esperança

João 14,8-17 (25-27) – Igreja é comunidade que instrumentaliza salvação

 

 

POR UM PENTECOSTES BÍBLICO NA IGREJA...

 

 

A era do denominacionalismo acabou. Hoje as denominações brasileiras, evangélicas e pentecostais clássicas, ‘não passam de estruturas burocráticas’, de discutível poder institucional, muito longe do crente comum, para quem não faz qualquer sentido ser metodista, batista, presbiteriano, assembleiano, wesleyano, ou lá o que for! Quem diz isso é Paulo Ayres, num extremo da crítica da religiosidade pentecostal. Acha que “não há como negar a legitimidade da experiência carismática, quer nas igrejas pentecostais clássicas, quer nos movimentos de renovação  carismática”. Por outro lado, diz: “não há como negar, também, a grande confusão teológica que existe especialmente nos arraiais carismáticos e neopentecostais. No limiar do século XXI, no contexto pós-moderno da nossa sociedade capitalista tardia, a tendência é a (anti) “teologia neopentecostal” impor sua hegemonia sobre o mundo evangélico brasileiro. Parêntesis nossos.

 

“Parece tudo tão lógico e tão promissor, no entanto continuamos a sentir as divisões entre as igrejas”, expressou Ervino Schmidt, ex-secretário do CONIC. Conclui o líder ecumênico afiançando: decisivo é que os cristãos se encontrem unidos em oração (como na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos) e que, como dizia Dietrich Bonhoeffer, saibam distinguir o “último do penúltimo”. “E importa dar razão a Deus e não querermos nós ter razão”.O Ecumenismo é uma das variantes mais ambiciosas do Cristianismo mundial. Enquanto luta pela unidade da Igreja de Cristo e se envolve com as grandes causas humanas de libertação das opressões, em todas as frentes possíveis.

 

Gottfried Brakemeier, que já presidiu o CONIC,  por sua vez, aponta para modelos de igreja existentes hoje: “Enquanto as Igrejas da Reforma sempre se entenderam como ‘Igreja da Palavra’ – porquanto conferem centralidade à pregação do Evangelho, ao anúncio, onde a Bíblia é palavra, ainda que escrita... (Karl Barth reconhecia a humanidade pecadora na Igreja). A Igreja Católico-Romana não é “Igreja da Palavra” (declara-se mater et magistra, mãe e mestra do seu povo), e sim “Igreja da Imagem”; antes de ser Igreja “audível” é “Igreja visível, simbolicamente” (tem papa, tem bispos, venera santos...”, e tem o magistério infalível). Um terceiro modelo é a “Igreja do gesto”, “...com participação ‘corporal’ das pessoas, com gestos, gritos, cantos, movimentos, testemunhos pessoais...”, modelo das igrejas carismático-pentecostais. Crê Brakemeier que a religiosidade brasileira destoa da oferta evangélico-reformada em essencialmente três aspectos (resumidos): Para as pessoas que vivem aqui, no Brasil, o que importa em primeiro lugar é que a religião seja útil.

 

A "fé” (religiosa) deve trazer algum “proveito”, seja em termos de cura, de bem-estar, de ascensão social. E isso sem demora. Não dá para esperar pelo céu. Antigamente se ansiava pelo perdão dos pecados, hoje, reclamam-se por terapias dos tantos males que atormentam no dia-a-dia...” (igreja terapêutica). “Outro motivo que inspira cautela no que respeita os sucessos do mercado religioso é que o povo brasileiro privilegia uma religiosidade “light”, de consumo, de natureza essencialmente emocional. As pessoas querem vibrar. Procuram a aventura da experiência espiritual, o contato com o divino...”. “Enfim, espera-se da religião (igreja) as certezas, sem as quais o ser humano não sobrevive. Espera-se da religião/igreja que constitua, sustente e fundamente identidades (dentro da igreja), pessoais e grupais, o que não é possível sem distanciamento de outros...”. Estamos diante do problema da diversidade.  Barth continua com a palavra: a Igreja é humana e pecadora, inclusive em sua visibilidade divergente.

 

João 14,8-17 (25-27) – O evangelho de Pentecostes nos diz que Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos e que sua comunicação com os discípulos se fez através do Espírito. É ele que outorga alegria e discernimento, enquanto concede capacidade, força, para o perdão dos pecados e a reconciliação dos homens e mulheres com as intenções de Deus. Pentecostes é a representação de um programa para a Igreja nascida da Páscoa, da ressurreição da fé libertadora na primeira aliança, agora aberta para todos os homens e mulheres. João nos apresenta a vida de Jesus de forma original e distinta. Contudo, temos compreendido diferentemente da realidade radical, universal, do evangelho que aponta o Pentecostes. A verdade é que o Espírito do Senhor esteve presente em toda a Páscoa, como artífice de uma igreja aberta às culturas, raças e povos, em sua diversidade. Historicamente, Jesus esteve na abertura do programa de salvação e libertação por meio do Espírito que o Ressuscitado havia concedido (Miguel de Burgos).  Igreja é comunidade de salvação “para que o mundo creia”, antes que comunidade dos salvos. Se disserem que Jesus a queria como “barracão e escritório para o armazenamento de materiais destinados à execução do projeto de Deus”, concordaremos. Chenu  dizia: “Jesus pregou o Reino, e no seu lugar fundaram a Igreja”.

 

Atos 2,1-21 – Estamos diante de um relato germinal, decisivo, programático, tanto quanto o programa de Jesus em Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para anunciar a boa nova libertadora aos pobres, enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos” (Lc 4,18). Lucas retoma o programa inicial. Quer lembrar não ser possível permanecermos como espectadores neutros; como observadores de idéias religiosas espiritualistas e abstratas, em práticas emocionais, mercadológicas, propositistas e particularistas, distantes da experiência do Espírito. Um fenômeno absolutamente transcendental, inalcançável pela razão, inatingível pelo conhecimento empírico, descreve a ação espontânea e gratuita de Deus: O Espírito transforma os homens e as mulheres, promove novas relações entre homens, culturas, raças e povos, enquanto promove a renovação da Criação, ao mesmo tempo. Assim, expressando a ação livre e renovadora de Deus, a tradição cristã dispõe de uma linguagem de símbolos desde os relatos bíblicos onde Deus intervém na História humana. Nada mais clássico nessa manifestação que a história da fé de Israel, história da fé cristã, a partir do Êxodo, enquanto culmina no Sinai, dando fundamento ao dom da Aliança. Impõe-se aqui a Nova Aliança.

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida


                                              

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