DOMINGO DA TRINDADE                                  

Provérbios 8,22-31 - Antes que a terra fosse feita, a Sabedoria já tinha sido concebida.

Salmo 8 - Ó Senhor nosso Deus, como é grande é teu  nome por todo o universo!

Romanos 5,1-5 - A Deus, por Cristo, no amor difundido pelo Espírito.

João 16,12-15  - Tudo o que o Pai possui é meu. O Espírito Santo vo-lo anunciará.

 

POR UMA TRINDADE PENTECOSTAL

 

Hoje, não inspira relevância a entrega do Espírito Santo, em nome do Pai e do Filho, para que os cristãos parem de falar desconexamente sobre a relevância da fé (Jo 17,21: “...que sejam um, como eu e tu somos um, para que o mundo creia”). Negando a História da Salvação, pergunta-se se neste tempo hipertenso, nervoso, descontrolado, maníaco por velocidade até na leitura sem reflexão, se alguém vai deter-se num tema como este. É um tempo de fúria e velocidade no trânsito, nas compras, nos relacionamentos, no trabalho, nas férias e no lazer. Por isso temos muita pressa em objetar as formas pentecostais, soltando logo os cachorros em cima do sincretismo neopentecostal, enquanto aliviamos nossa crítica aos desvios programáticos  evangélico-neopentecostais que invadem a comunidade protestante histórica e ganham terreno facilmente, sem resistência, até. Talvez porque não creiamos mais, no Pentecostes, que o Espírito Santo está presente na Igreja com poder em meio a tudo que faz o povo chorar e gritar, amar e odiar, sentir fome e abandono. E que essa presença traz consigo a expectativa de verdadeiros milagres, conversões extraordinárias que operam mudanças repentinas, oferecendo uma “solução pentecostal” para cada situação de desespero, como diria R.Shaull. Perplexos, não distinguimos o sentido bíblico do Pentecostes, íntima ou comunitariamente.

 

Quem vai querer saber sobre o diálogo sofrido dos Pais da Igreja, na Igreja perseguida, para combater idéias sincretistas em constelações paganizadas, parando um pouquinho só para pensar sobre o ser e o agir de Deus, enquanto se humaniza solidariamente com os homens e mulheres esquecidos, oprimidos e sem dignidade? A revelação de Deus como mistério trinitário constitui o núcleo fundamental e estrutural de toda a mensagem do Novo Testamento, no entretanto. Não há Ascensão sem Pentecostes. O mistério da Trindade antes de ser estruturado como doutrina foi um evento salvífico pentecostal, teologicamente! O Pai, o Filho e o Espírito Santo estiveram sempre presentes na história da humanidade, doando vida e comunicando seu amor, introduzindo e transformando o porvir da história na comunhão divina das Três pessoas. Por isso se pode falar de uma preparação da revelação da Trindade divina antes do cristianismo, tanto na experiência do povo da antiga aliança, tal como atestam os livros do Antigo Testamento, como nas outras religiões e nos eventos da história universal.

 

A vontade de Deus se manifesta na Escritura, e através de seu Espírito transforma-se numa realidade interior ao ser humano. Esperança! Desta forma a reflexão sapiencial bíblica supera a simplificação panteísta ou dualista em sua concepção de Deus. “O Senhor me criou no início da criação, antes de suas obras mais antigas... quando não havia os oceanos, fui engendrada, quando não existiam os mananciais ricos de água”. Como um hino, este texto chegou à tradição cristã como um pré-anúncio da encarnação da Palavra (Jo 1: A Palavra se encarna), que “no princípio estava junto de Deus, tudo foi feito por ela e sem ela nada foi feito” (Jo 1, 2-3), e que no final dos tempos “se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, a glória própria do Filho Único do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14).

 

Em Romanos, Paulo faz uma espécie de declaração de sentido trinitário sobre a situação do ser humano que foi “justificado graças à fé em Cristo” (5,1-5): “Tendo pois recebido da fé nossa justificação, estamos em paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo (...) e a esperança não falha, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” . Paulo faz uma afirmação  “trinitária” da vida do crente. Reconciliados com Deus pela fé, estamos numa situação de “paz” e de “esperança”, paz que supera a tribulação e esperança que transforma o presente.

 

A nova época se caracterizará por um modo mais penetrante de conhecimento do Filho encarnado e glorioso. Um pouco mais não estarei com vocês (cf. 7,33; 8,21 e 13,33: ...para onde vou vocês não podem ir...) ; por esta expressão, Jesus anunciava o fim iminente de sua obra terrestre e sua volta ao Pai. Sobre a incompreensão dos discípulos, cf. 13.36 nota. O desaparecimento de Jesus vai provocar nos discípulos uma grande aflição, enquanto os homens que se haviam coligado contra ele experimentarão a alegria do triunfo. À luz da ressurreição, os discípulos haverão, porém, de perceber que o aparente fracasso de Jesus, sua morte, é precisamente sua glorificação, sua vitória e o julgamento dos que o haviam condenado.

 

Como solução pentecostal, nas palavras de Richard Shaull, “a experiência do Espírito Santo com a presença e o poder do Cristo ressurreto, como fonte de vida e esperança, bem como o poder de uma renovação cotidiana, com a garantia de vitória sobre as forças demoníacas que habitam o mundo, pode realizar-se aqui e agora. Através da vida, morte e ressurreição de Jesus, e o dom do Espírito Santo, a obra salvadora de Deus se manifesta como resposta imediata ao sofrimento, à dor e à fraqueza – o que possibilita a caminhada em direção à plenitude de vida com saúde, bem-estar material e social, e felicidade. O Espírito Santo está presente com poder em meio a tudo que faz o povo chorar e gritar, amar e odiar, sentir fome e abandono. E essa presença traz consigo a expectativa de verdadeiros milagres que operam mudanças repentinas, oferecendo uma solução (pentecostal) para cada situação de desespero – que homens e mulheres respondem com cânticos de louvor”.

 

Mas, por causa dos resultados da propaganda enganosa do evangelho da prosperidade, e curas impossíveis, as pessoas continuam pobres, doentes, oprimidas, e ainda mais arrochadas pela religião propositista, apesar das pressões e das promessas pragmáticas de resultados imediatos. As lideranças clericais, sim, prosperam. E muito. Basta ficar atento ao noticiário. E as comunidades esbanjam sucesso numérico no mercado promissor das misérias humanas, enquanto crescem ou flutuam numericamente de porta em porta. Como diz um colega batista, entra muita gente pela porta da frente, sai número igual pela porta dos fundos. Tudo isso seria confirmado na medida em que doentes fossem curados sem encenação, e membros da família experimentassem reconciliação e novas possibilidades de relacionamentos inspiradores. Assim como os empobrecidos descobrem novas possibilidades de melhorar sua situação econômica, aqueles que se sentiam impotentes diante do mal são fortalecidos para enfrentar e vencer os demônios manifestados na fome e doença, prostituição e drogas, desintegração social e violência.

 

Como na Reforma Protestante do século XVI, na Europa, aqui a realidade suprema é uma tremenda experiência com a presença c o poder de Deus em meio à vida. Mas a experiência fascinante de Deus pentecostal parece não centralizada no anúncio do perdão dos pecados e da justificação. A isto devemos acrescentar que ser salvo é ser chamado a participar em uma luta de significado global e eterno para estender o Reinado de Deus (Bernardo Campos). E isto quer dizer, acima de tudo mais, um compromisso com a evangelização total, diaconias sociais, com a missão de Deus. E, como parece ficar cada vez mais evidente, fora do Brasil, compromisso pentecostal para o envolvimento em lutas sociais e políticas públicas de justiça social (leia-se: igualdade de direitos, humanos e sociais). Acrescenta Shaull: “Não conhecemos outro movimento pentecostal que tenha articulado com tanta clareza o paradigma que descrevi, como teologia neopentecostal” (O Pentecostalismo e o futuro da Igrejas Cristãs, Vozes/Sinodal, 1999). Porém, Shaull acrescentou: “Poderíamos criticar o alcance das multidões pelo neopentecostalismo e os movimentos carismáticos quando o sofrimento das massas permanece inalterado e  apenas abordado no sentido de uma experiência sem profundidade”.

 

João 16,12-15 - Tudo o que o Pai possui é meu. O Espírito Santo receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Esta função do Espírito com relação a Jesus e a sua palavra define a profunda relação entre o Pai e o Filho e o Espírito: a Revelação é perfeitamente una porque tem sua origem no Pai, é realizada pelo Filho e se aperfeiçoa na Igreja com a interpretação do Espírito. Por isso Jesus diz que “o Espírito não falará por sua conta, mas que diria unicamente o que ouviu... tudo o que lhes dá a conhecer, o receberá de mim”. Jesus será sempre o Revelador do Pai, o Espírito da Verdade, ao contrário, faz com que a revelação de Cristo penetre com profundidade no coração do crente. A condenação e a execução ignominiosa de Jesus deviam aparecer aos homens como prova da sua impostura e do seu pecado, e pôr ao mesmo tempo em evidência a legitimidade do proceder do mundo. Mas a intervenção do Espírito vai inverter completamente a situação manifestando que, para além da morte, Jesus foi glorificado por Deus. Ele demonstrará a justiça da sua causa, a legitimidade do seu proceder e atestará, assim, de modo irrecusável, o pecado do mundo e a condenação daquele que o governava.

 

A vida de fé, sem cruz, sem sofrimento, também poderia devolver-nos à Idade Média, onde a teologia da satisfação (Anselmo) é interpenetrada também por uma falsa consciência franciscana: “é dando que se recebe” (injustiça a S.Francisco, símbolo da diaconia de Deus). A luta contra o sofrimento das massas recorda-nos a solidariedade de Deus com os sofredores. Mas a solução pentecostalista recente trata de resultados imediatistas. O Reino não se realiza somente na forma paliativa e individual. Os fiéis ingressam em comunhão com Jesus, Filho trinitário, na comunhão com Jesus, irmão de todo aquele que sofre, devemos compreender. Que comunhão é essa? Que dignidade se prega, na prosperidade como graça negociada no mercado da salvação? Não é a participação da cruz, do envio em missão e no seu destino e martírio (martyria). Seguramente. 

                                               

                                                        Derval Dasilio

                                       Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

                                        Visite: www.paoquentediario.com.br 

 
 
 
 

 

                         Webdesigner: Eveline

   Coordenador:Ricardo Cesar Vasconcelos

                    Respeite os direitos autorais