DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO – ANO “C”

 

Lucas 19,28-40 – "Bendito o que vem em nome do Senhor!"

Salmo 118,1-2; 19-29 – "Entrarei pelas portas da justiça, esta é a porta do Senhor"

 

Que significados têm o discurso da Paz e da Justiça, segundo o evangelho  de Jesus, frente à multidão de homens e mulheres que vêm ao encontro de um rei sem poder político? Lemos os jornais, falam de conflitos no Oriente Médio, guerra ao terrorismo, Iraque, Irã, Israel, EUA, Inglaterra, França, enfim, mais de cinqüenta pontos conflituosos no mundo inteiro. As imagens que os meios de comunicação oferecem mostram os campos de batalha sangrentos exigindo atenção e os  mesmo pontos de discussão, parlamentos internacionais debatendo a paz. Que paz? Como falar de paz num tempo caracterizado pela violência em múltiplas impressões? O terceiro milênio foi inaugurado com eventos belicosos jamais imaginados. Atos terroristas, invasão do Afeganistão transferida para o Iraque, lutas tribais na África, genocídio no Timor Leste, tudo sob a influência de clamores de guerra animados por pruridos patrióticos fanáticos. Esses fatos são como um soco no estômago, um verdadeiro show de mortes, mutilações, lágrimas.

Atos de crueldade que costuram a história sangrenta vivida por muitos povos agregam a destruição sistemática de bens culturais, o  coração e a alma dos povos e das etnias. Conhecemos muito bem esses aspectos, desde a dizimação das culturas pré-colombianas, desde o Caribe e a América Latina. O que significa a Paz, no âmbito do reinado de Deus? No campo doméstico não é menor o impacto da violência das armas, perturbando-nos permanentemente. Todos os dias, observamos as notícias mais recentes sobre o crime organizado, combate ao tráfico de drogas, inocentes assassinados no meio das ruas, ontem, hoje... são 15 mil mortes violentas por ano, só no Brasil. O amanhã é pré-definido, só teremos que confirmar o estado de guerra permanente nos grandes centros urbanos vendo o noticiário. Enquanto se espera por dignidade da pessoa humana, nos setores mais corriqueiros da vida,  necessita-se de pão para quem tem fome; morada para quem não têm teto; educação para quem não têm escola;  saúde para quem não têm hospitais; trabalho para os alijados da  sociedade moderna, tão favorável para algumas minorias bem-postas.

Os cristãos estarão, neste domingo de Ramos, caminhando ao lado de Jesus? As implicações dessa caminhada envolvem o compromisso de levar a sério nossa adesão à causa de Jesus Cristo. Acompanhar Jesus em sua última jornada no caminho da cruz, enquanto Ele entra na cidade de Jerusalém aclamado como o rei que traz o shalom de Deus, implica em levar a sério as realidades que corroem o mundo e clamam pela paz. Ninguém mais duvida de que as causas geradoras dos grandes e dos menores conflitos sociais, nacionais e internacionais, são encontradas nas desigualdades econômicas, na falta de oportunidade, nas políticas internacionais e domésticas envolvidas com questões que passam pela fome de 2 bilhões de habitantes do planeta; questões que identificam os abismos das desigualdades nos 4,5 bilhões à margem do mundo moderno, também chamado pós-industrial.

Pode ser que a solidariedade com o mártir do Reino, como ocorreu com seus seguidores, imediatamente ao seu martírio, nos obrigue a abandonar aqueles postulados religiosos  quietistas, acomodatícios, fatalistas; talvez nos force a romper com ideologias e dogmas políticos, ou religiosos, para cantarmos com sinceridade o cântico das multidões: Hosanas! Bendito aquele que vem em nome do Senhor.

Lucas 19,28-40  – A chegada de Jesus a Jerusalém comove a multidão.  O povo reage de maneiras diferente das autoridades. Este o aclama como Rei, aquelas ficam apreensivas.  O povo tem esperança de libertação, se religiosa, política, econômica.  A pobreza e as opressões são muitas. As autoridades sentem-se ameaçadas no seu prestígio e autoridade, e, sem dúvida, no exercício do “poder” (ah, o puder, como os poderosos nordestinos brasileiro exclamam extasiados...). E o povo alegre, festivo, cantante, dançando, recebe o Messias de Deus, como acreditava... mas logo virá a tristeza: nesta mesma semana Jesus de Nazaré será preso, torturado, humilhado em sua realeza divina,  e esvaziado de qualquer proteção dos céus! E então, enfraquecido, vulnerável, será levado ao martírio, sem que esse mesmo povo se comova. Bem-feito!, diriam muitos.  Não tinha cacife, por que se arriscou e nos enganou?!

João é mais sóbrio que Lucas na  narrativa que gera a Festa de Ramos na Igreja de Cristo. Os entornos são mais importantes: trata-se de afirmar o poder de Jesus sobre a morte, em todas as suas manifestações. Porém, a recepção não passará em branco. Um peregrino famoso poderia ter igual tratamento, mas a entrada de Jesus faz a diferença: Jesus é recebido como um rei messiânico. O que se espera dele é a salvação para os males de uma sociedade inteira, alcança os problemas sociais enquanto atinge definições políticas sobre a vida nacional sem deixar de lado o problema da religião quietista, conformada,  subserviente ao sistema sócio-econômico, atuando como pára-choque cultural da potência imperial dominadora.

O Reino de Deus não é imposto pelo poder das armas, nem é acompanhado de decisões político-partidárias. Ali, como aqui, vários “partidos” são interessados no comando ou na influência sobre a sociedade, nesse tempo: saduceus – proprietários e latifundiários que dominavam o sistema econômico; fariseus – homens comuns da sociedade, mais interessados na religião, nos regulamentos controladores da vida espiritual da sociedade; escribas e doutores da Lei – autoridades na interpretação da Torá, do Talmude e de vários outros reguladores religiosos da sociedade através da teologia e da pedagogia do legalismo: a letra morta, desse modo, valeria mais que a Palavra de vida! Jesus faz um discurso decisivo em torno de sua proposta o Reino de Deus necessita da adesão de todos. A palavra shalom (paz: direitos cidadãos atendidos, bem-estar social para todos, dignidade, espírito feliz confortado pela presença da justiça em todas as esferas de vida.) é o eixo desse pronunciamento.

Os sentidos da Paz, segundo Jesus, tratam de uma nova visão da vida em plena justiça: "Entrarei pelas portas da justiça, esta é a porta do Senhor" (Salmo 118,1-2; 19-29). Um mundo novo estará amanhecendo. Gandhi, Bonhoeffer, Niemöler, Paul Shneidder, Nelson Mandela, Luther King Jr., monsenhor Romero, Chico Mendes, Irmã Dorothy, mártires da Paz e da Fé, entenderam esse sentido: perdão e reconciliação entre povos e nações; libertação do poder de todos os pecados, inclusive dos pecados estruturais do nosso tempo; reconciliação dos que não têm a mesma tradição religiosa; nova vida no serviço da justiça de Deus; direito de herdar e gozar bem-estar num mundo transformado pela misericórdia e compaixão; participação de um novo mundo sob  o empenho apaixonado na causa de Deus.

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida