DOMINGO DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – ANO
“C”
Atos
10,34-46 – “Deus estava com
ele”, o Ressuscitado
1Coríntios 15,19-26 – Vi o Cristo ressuscitado,
ressucitei!
João 20,1-18 - A fé
na ressurreição é maior
que qualquer dúvida
De todas as crises (krysis), a
morte é a mais decisiva da vida humana. Isso implica também em
decisão, por que até aqui ainda se pode adiar, protelar, manter em
luz-e-sombra o que fazer da vida. Agora não há meio-termo. Não é
mais possível flutuar na ambigüidade, é inevitável o desmoronamento
do homem exterior (L.Boff). Mergulhadas no mais recôndito lugar, no
interior de nossa humanidade, evocando o que não é consciente,
individual e coletivamente, à luz de atavismos e heranças ancestrais
que agora se apresentam irrevogavelmente, as verdadeiras dimensões
do que somos são expostas à clareza do sol do meio-dia com a morte.
Caem todas as máscaras que encobrem nossa autenticidade, a realidade
sai da nebulosidade: nós somos o que somos, sem mais recursos. Não
há maquiagens que possam esconder nosso verdadeiro rosto. Na
morte.
Somos mortais. Homens e mulheres
mortais num mundo onde a morte, sob todas as formas possíveis, quer
reinar. Não sabendo acolher a vida biológica como dom divino, um
dado natural na existência dos seres comuns, na incerteza traiçoeira
que produz angústia e terror pela vida mortal, a compreensão
judaico-cristã tornou a morte um castigo como conseqüência do
pecado. E não erra no sentido. No entanto, esse conceito nada
significa se não reconhecemos que, na experiência do cristão e da cristã se
produz a novidade de vida e ressurreição permanente, continuamente,
da criatura e da criação. Certamente destacando-se a ressurreição do
Senhor Jesus Cristo, inaugurador da nova humanidade e campeão
vitorioso sobre a morte. Por causa dele, há possibilidades para
todos nós, de superar a morte. Em Cristo todas as ressurreições são
possíveis. Onde há morte, sobrepõe-se a vida. E a vida é dom de
Deus. E Deus é o Deus da Vida.
Falaremos nesta Páscoa sobre a
ressurreição que se refere à intervenção de Deus na história dos sofredores,
vítimas dos pecados seus e da sociedade opressora, dos crentes e da
religião que se juntam mortalmente na mesma vala da alienação, na
eqüidistância das massas sofredoras, especialmente neste mundo histórico e
geograficamente situado abaixo da Linha do Equador. Lugar de povos
humilhados, vítimas de pecados estruturais e de tantas violências da
parte de outros; etnias exterminadas, culturas apagadas por
processos de aculturação (Paulo Freire); doentes, moribundos,
acometidos de enfermidades que retornam continuamente, enquanto
populações inteiras são exterminadas, inclusive culturalmente.
Falaremos das gentes sem esperança,
derrotadas pela realidade que esmaga e destrói as utopias de
salvação, detonando os sonhos de bilhões de seres humanos oprimidos,
servindo o império da morte. O desespero é uma força que instila
impotência, fatalismo, destino inevitável, submissão dos escravizados
ao mal, como se este fora
um decreto divino irrevogável e irreversível. A ressurreição
do Senhor desmente a falácia do mal irreversível. Ela constitui a
nossa esperança suprema na salvação a na libertação que só Deus pode
proporcionar.
A ressurreição marca a presença da
vida que se sobrepõe à morte e ao sofrimento; ao derrotismo,
quietismo, conformismo e fatalismo, como falsas exigências divinas
para se conservar as velhas opressões. Karl Barth disse que a
ressurreição de Cristo dentre os mortos, enquanto um processo de
destruição da morte, também afirma a vida eterna (cf. João: vida
eterna é o mesmo que “vida plena”). Pra frente, ressurretos! A
ressurreição é um fato que transforma tudo em vida nova abundante.
Os horizontes humanos se ampliam, a esperança de uma nova criação se
instala com a fé na ressurreição.
Deus se revela sobre a impotência, no
esvaziamento de quaisquer forças sobrenaturais (kénosis),
para morrer e ressuscitar. Deus estava em Cristo reconciliando os
homens e as mulheres com Deus (Paulo). Na cruz e no sofrimento
solidário, especialmente, Deus, em Jesus Cristo, assume a condição
humana exemplarmente, por inteiro, no sofrimento até a morte. Mas
Jesus ressuscitou! Com ele ressuscitaremos todos nós. Há vida
brotando em toda parte. Flores nascem das sepulturas. Deus venceu,
nós venceremos com Ele todas as mortes. Aleluia! (Derval Dasilio –
Pastor da Igreja Presbiteriana
Unida).
João 20,1-18 - O evangelho de
João apresenta-nos Maria Madalena madrugando para ir ao sepulcro de
Jesus. “Ainda estava escuro”, faz notar o evangelista. É preciso ter
em conta esse detalhe, porque João gosta de jogar com esses símbolos
contrastantes: luz/trevas, mundo/espírito, verdade/falsidade, e
outros.
A
ação transformadora mais palpável da ressurreição de Jesus foi a
partir de então sua capacidade de transformar o interior dos
discípulos – antes desunidos, egoístas, divididos e atemorizados –
para voltar a convocá-los ou reuni-los em torno da causa do
Evangelho e enchê-los com seu espírito de perdão.
Um alerta
exemplar: a pequena comunidade dos discípulos não apenas se tinha
dispersado após a “condenação” de Jesus, mas também por temerem os
inimigos dele e pela insegurança gerada no grupo por causa da
traição de um de seus integrantes.
Os
corações de todos estavam feridos. Na hora da verdade, todos eram
dignos de censura: ninguém tinha entendido corretamente a proposta
do Cristo de Deus. Por isso, quem não o havia atraiçoado, tinham-no
abandonado à própria sorte. E, se todos tinham errado, todos estavam
necessitados de perdão. Voltar a dar coesão à comunidade de
seguidores, dar-lhes unidade interna no perdão mútuo, na
solidariedade, na fraternidade e na igualdade, era humanamente
impossível. Contudo, a presença e a força interior do “Ressuscitado”
conseguiu-o.
Quando os
discípulos desta primeira comunidade sentiram interiormente esta
presença transformadora de Jesus, comunicaram-na, e realmente
experimentam a ressurreição em si mesmos. E é então quando já lhes
sobram todas as suas provas exteriores. O conteúdo simbólico das
narrativas das ações do Ressuscitado, apresentadas à comunidade,
revela o processo renovador que opera o Ressuscitado no interior das
pessoas e do grupo. Magnífico exemplo do que o efeito da
Ressurreição pode produzir também hoje entre nós, nos âmbitos
pessoal e comunitário.
A capacidade do
perdão, da reconciliação conosco nós mesmos, com Deus e com os
demais; a capacidade de reunificação; de transformar-se em
proclamadores eficientes da presença viva do Ressuscitado, pode
operar-se também entre nós como naquele punhado de homens tristes,
acovardados, separados, a quem o milagre da Ressurreição
transformou. Cristo ressuscitou, nós ressuscitamos com Ele. Eis a
mensagem de Lucas para as comunidades de todos os
tempos.
Atos 10,34-46 - A fala de Pedro
é um resumo da proclamação típica do Evangelho que contém os
elementos essenciais da história da salvação e das promessas de Deus
cumpridas em Jesus. Pedro e os demais apóstolos pregam sobre a morte
de Jesus pelas mãos dos judeus, mas também sua ressurreição por obra
do Pai, porque “Deus estava com ele”. De modo que a morte e
ressurreição de Jesus são a via de acesso de todos os homens e
mulheres, judeus e não-judeus, à grande família surgida da fé em sua
pessoa como Filho e Enviado de Deus, e como Salvador universal; uma
família em que não há exclusões de nenhum tipo. Esse é um dos
principais sinais da ressurreição de Jesus e o meio mais efetivo
para provar ao mundo que ele se mantém vivo na
comunidade.
Um povo,
uma sociedade, uma comunidade em que há excluídos ou marginalizados;
em que o rigor das leis divide e separa uns dos outros, é o oposto
do efeito primordial da Ressurreição. Em bem maior medida, quando se
trata de uma comunidade ou de um povo que se diz cristão.
(Cf.Serviço Bíblico
Latino-Americano).
Derval
Dasilio
Pastor
da Igreja Presbiteriana Unida