PRIMEIRO DOMINGO DEPOIS DO NATAL

 

1Samuel 2,18-10;26 – O menino desmamado será apresentado ao Senhor

Salmo 148 –  O nome do Senhor está acima de tudo

Colossenses  3,12-17 – Revesti-vos de ternura, bondade, de mansidão e grandeza...

Lucas 2,41-52 – Maria conservava todas aquelas coisas em seu coração
 

                             SALVAÇÃO NO BALCÃO DO SELF-SERVICE?

 

Acostumamo-nos com outro jeito de comemorar o Natal.  Até mesmo nas igrejas. Não há o que comemorar, se observarmos a tragédia da incompreensão dessa data, segundo sua importância para o reconhecimento do significado da presença de Deus entre nós, Emmanuel, quando palavras e condutas já absorveram o vazio da sociedade dos nossos dias. A quebra de tabus é verdadeira, mas o esquecimento dos fatos simbólicos que marcam nosso tempo, o modismo da falsa liberdade, a democracia compurscada, a pulverização de ideais para a transformação das sociedades e das pessoas, dão o tom na orquestração desafinada no ritmo desconexo do nosso tempo. Troca-se tudo pela variedade insípida, sem qualidade, efêmera como os modelos de celulares.

 

Multiplicam-se as ofertas do consumismo. A religião se atualiza com o consumo da fé retributivista, que não exige dedicação e sacrifício de tempo e presença para o serviço de Deus (Sebastien Charles). O princípio do self-service substitui o serviço ao outro e à outra. Fé e salvação são mercadorias para o consumo imediato e, depois, destinadas ao lixo. O comedimento, a parcimônia, o respeito ao sagrado da vida, sedem lugar ao espírito festivo, cultos e shows, ou vice-versa, luzes, fumaça de gelo-seco, contra a simplicidade da contrição e do recolhimento – orações intercessórias levam à solidariedade, à compaixão e à misericórdia. Lê-se a Bíblia às avessas. 

 

Desde Descartes e Kant imaginou-se a construção de um planeta novo, ao estilo do Ocidente, ignorando ¾ do planeta não-cristão, e exaltou-se até às estrelas a sapiência humana. A história, entretanto, continuamente, desfaz essa imagem magnificadora da “razão”. Machado de Assis já dizia: “Tem razão quem tem o chicote na mão...” Para não nos desesperarmos precisamos manter a lucidez. Necessitamos compreender a humanidade de Jesus Cristo. Os Pais da Igreja Antiga, quando não havia a data chamada Natal, nem a recente comemoração comercial natalina em países budistas, como o Natal no Japão, firmaram: Jesus foi um homem de verdade! Um ser humano. Verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Mistério impressionante. Mas a Razão não aprecia mistérios. Augusto Comte firmava-se: “O que não pode ser examinado numa mesa de laboratório não existe”. 

 

A duras penas, mesmo a contragosto, urge admitir que somos humanos. Não somos deuses nem semi-deuses. O ser-humano, homem/mulher, é supercomplexo. Comparece na história como homo sapiens, mas somos mais conhecidos como homo demens.  Há duzentos mil anos, já falante, o ser-humano fazia das suas (Stanley Kubrich: Uma Odisséia no Espaço). Societário e trabalhador, desde quarenta mil anos atrás, já inventava a posse privada e a escravidão, das quais nunca nos livramos. "Portadores de afeto, cuidado, inteligência, criatividade, arte, poesia e êxtase diante da beleza, ocupamos todo o Planeta, já saímos dele e entramos rumo ao infinito", na visão, ou no lapso otimista do gênero, segundo Leonardo Boff. Nossas contradições fazem-nos morder a língua toda vez que exaltamos essas qualidades humanas (Carlos Brandão, Rubem Alves, estão de plantão!).

 

O que precisa ser visto, e ouvido, como Maria nos ensinará, quando Jesus lhe chama a atenção para a realidade: "Mãe, você não sabe que tenho que cuidar das coisas do meu Pai"? O lado da demência, da crueldade, dos massacres, dos extermínios em massa, de tantas culturas, etnias, acompanha a demolição de valores construídos em vários milhares de anos – e parece que se quer fazer tudo isso de uma vez, com tecnologia avançada, nos dias de hoje. Faz parte do evangelho a mensagem salvadora que aponta: Deus está aqui, presença que denuncia a demência cultivada como virtude, enquanto exigimos uns dos outros adaptação e modernização conformista!  Nossa arrogância faz-nos esquecer que "só no século XX foram chacinados em guerras 200 milhões de pessoas. Cristãos estão envolvidos nisso até o pescoço, mesmo os engravatados ou aqueles com clergyman. A violência humana excede à de qualquer outra espécie, inclusive dos tiranossauros, dragões pré-históricos proverbiais e simbólicos da destrutividade. A demência não é ocasional. Configura uma desordem originária. O homo sapiens é homo demens”, assevera com acidez incontrolável Edgar Morin, um dos que melhor nos fez aceitar a contradição humana (Os sete saberes necessários à educação do futuro, Cortez, SP). Enfim, Deus tem misericórdia de nós. Disse Jesus: “o Espírito do Senhor está sobre mim!”.

 

Lucas 2,41-52 – O evangelista nos apresenta a família de Jesus cumprindo seus deveres religiosos (vv. 41-42). A purificação era imposta somente à mãe israelita, mas o resgate religioso era necessário à criança (BJ, p.1790). A apresentação da criança no santuário para a circuncisão não era propriamente uma prescrição obrigatória, mas elegível da parte dos responsáveis por ela. Mas Jesus foi circuncidado segundo o costume. Há um ato litúrgico, posterior, também cultual, de muita importância: o bar mitzvah (as meninas também, hoje, têm seu bah mitzvah, entre judeus contemporâneos; não há nenhuma evidência de que existiria cerimônia semelhante no tempo bíblico). Conforme a tradição judaíta consagrou, na dispersão. A identidade de Jesus precisa ser reconhecida em qualquer parte. A liturgia é realizada como compromisso parental irrecusável.  Depois dessa idade o adolescente passa a receber os privilégios de participar em todas as áreas da vida comunitária, inclusive a religiosa.

 

O menino adolescente desconcerta os pais, permanecendo por sua conta na cidade de Jerusalém. Ao terceiro dia (período de tempo cheio de simbolismo nos evangelhos), encontram-no. Segue-se um diálogo difícil, parece um desentendimento; começa com uma censura: “Por que nos fizeste isto? A pergunta surge da angústia sofrida (v. 48). A resposta surpreende:Por que vocês me buscavam? (v. 49), surpreende porque a razão parece óbvia. Mas Jesus acrescenta palavras de uma outra ordem: “Não sabem que eu devia cuidar das coisas de meu Pai? Maria e José não compreenderam estas palavras imediatamente, estavam aprendendo os sentidos  (v. 50).

 

Não é fácil entender os planos de Deus. Nem sequer Maria “entende”. Maria não faz parte, agora, da revelação do Filho de Deus, como acontece no capítulo primeiro. A meditação de Maria permite aprofundar o sentido da missão de Jesus. A especial proximidade do Senhor com a mãe não a dispensa do processo, às vezes difícil, que conduz à compreensão dos desígnios de Deus. Ela é, como primeira discípula, a primeira evangelizada por Jesus. Não nos esqueçamos! Mas há três exigências fundamentais para entrar em comunhão com Deus: 1) Buscá-lo (José e Maria “se puseram a buscá-lo”); 2) Crer nele (Maria é “aquela que acreditou”); e 3) Meditar na palavra de Deus (“Maria conservava isto em seu coração”).

 

A fé e a confiança supõem um itinerário. Como pessoas de fé, Maria e José amadurecem o sentido do cumprimento das esperanças e das promessas no meio de perplexidades, angústias e alegrias. As coisas se tornarão, aos poucos, mais claras. Lucas faz notar que Maria  “conservava todas aquelas coisas em seu coração” (v. 51). Aqui, nos reportaremos à sabedoria da mãe que silencia e ouve enquanto observa a realidade que o menino denuncia. Os significados da revelação libertadora da presença do Reino de Deus estão naquele que foi chamado de “fruto do ventre de Maria”. Ninguém conheceu melhor o sentido de gerar-se um Salvador, o Filho de Deus. Maria, enquanto medita, ensina a humildade e a coragem para os enfrentamentos dos acontecimentos catastróficos e a dissolução que irrompem até a superfície da história. Maria já estava comprometida com o movimento de Jesus em prol da causa libertadora de Deus.

Texto: Derval Dasilio

Coordenação: Ricardo César Vasconcelos

                                                       Designer: Evelline

 

 
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